Quero ser compositor - Parte 8

O produto musical nasce de uma disputa acirrada entre os estalos criativos e os malabarismos matemáticos


Parte 8


Depois do almoço segui sem escalas para o sofá. Decidido a concluir minha canção, abracei o violão. A melodia já estava na minha mente e tudo o que fiz foi digitá-la no violão. Não tenho ouvido absoluto e não sou daqueles com memória melódica apurada, que gravam as sequências de notas com precisão. Para mim, o processo é trabalhoso. Tenho que digitar, corrigir, repetir, experimentar, tentar...
Num dado momento, me dei por satisfeito. Estabeleci a melodia na escala de Sol, o que funcionou muito bem para o meu alcance vocal. Então, comecei a harmonizar. Como a ponte havia terminado sobre o Bm7(11), tratei de tonalizar, preparando o ataque com a dominante D7. Depois, sobre o acorde de G7M cantei a frase “Logo eu, logo eu...”, sustentando todas as sílabas na nota Si, que é a terça do acorde. E continuei, cantando as duas primeiras sílabas da palavra “ironia” na mesma nota. Com isso, meu objetivo era mudar o andamento da canção, criando uma sensação de flutuação da melodia, para deixar claro para o ouvinte que se tratava de um refrão.
O acorde seguinte me foi soprado pelo instinto. Digitei um B7, que me permitiu continuar sustentando a nota Si, e de quebra me forneceu o F# para concluir a melodia. Gostei muito da sonoridade, que gerou uma bela tensão. Por meio dela consegui demonstrar a admiração do personagem diante do escárnio que o destino sem graça lhe aprontara.
Empolgado, cantei esse trecho do refrão diversas vezes, na esperança de que as ideias continuassem surgindo com facilidade. Então, seguindo a lógica da harmonia funcional, resolvi a tensão do B7 num Em7. A partir daí, segui num ii-V-I até o D7M, contando:
– Esse cara vacinado, aqui plantado...
Foi aí que empaquei!
Não encontrei um jeito convincente de encaixar os versos seguintes. Minha experiência com harmonização de melodias ainda era pequena e as diferentes possibilidades me punham confuso. Quando estamos tirando uma canção de sucesso, já conhecemos a melodia e temos uma noção exata do andamento e da divisão. A progressão de acordes parece acontecer de maneira lógica. Mas quando estamos compondo, nada é definitivo. Tudo pode mudar a qualquer momento. Uma sílaba acentuada de surpresa, uma nota prolongada por mais um contratempo, um pequeno ajuste de última hora na letra... Perdi a noção de quanto tempo esse exercício consumiu. Lembro apenas que dediquei toda a tarde daquele sábado ensolarado e convidativo para resolver o quebra-cabeça.
Estava na tonalidade de Ré, vizinha de Sol, e tudo o que precisava fazer era cantar o verso “... nessa fila, pra sofrer de amor”. Depois de incontáveis tentativas, percebi o óbvio: bastava migrar para a tonalidade de Si menor, executando um novo ii-V-i para terminar no acorde de Bm7. Ficou redondo!
O leitor que chegou até aqui deve imaginar o tamanho da minha euforia. Examinei a solução harmônica e concluí que estava simples e coerente. Refleti sobre a letra e percebi que havia um subtexto com certa densidade. A melodia oferecia uma boa ambientação e colaborava com a narrativa. A letra trazia um refrão de fácil memorização e versos com rimas fáceis. Dei o caso por encerrado.
Mostrei a canção para minha mulher e minha filha – meu público! As duas gostaram e não fizeram observações. Durante o domingo tratei de ajustar a performance para... azeitar as engrenagens!

Compor é lidar com incertezas o tempo todo


Até aqui procurei retratar a invenção de “Logo Eu” como uma empreitada racional e meticulosa, mas reconheço que foram inúmeras as decisões emocionais que determinaram o seu resultado final. Descobri que o produto musical nasce de uma disputa acirrada entre os estalos criativos e os malabarismos matemáticos, que definem o meu processo de criação. Acredito que assim também seja para muitos compositores – refiro-me àqueles que atuam profissionalmente, com obras consagradas e reconhecidas pelo seu valor estético.
A figura do artista intuitivo, capaz de materializar canções espetaculares valendo-se apenas do seu talento inato, é muito forte e até mesmo cultuada. Desde pequeno ouço dizer que música é assim mesmo, coisa de gênio, de gente que já nasceu sabendo. Se você ainda não sabe fazer, é porque está fora do jogo.
Em contrapartida, venho trabalhando por tanto tempo com peças publicitárias que já solidifiquei a noção de que o ato de criação é coisa que se aprende. Já nem me dou conta da angústia que se sente diante de uma tela branca de computador. Acostumado a trabalhar sob pressão, dos prazos e também do gosto pessoal dos meus clientes, hoje consigo reagir de modo racional, mantendo o necessário distanciamento para conseguir soluções pertinentes. Aprendi a criar, e em certo momento me perguntei: por que não usar isso para fazer música?
O que me fascinou na criação musical foi justamente a ausência de... cliente! Que maravilha poder inventar as canções que você mesmo gostaria de ouvir por aí, nas rádios, no assovio das pessoas... Inventar canções como um simples e vital exercício de puro regozijo estético. É isso que estou perseguindo nessa aventura pela criação musical.
Mas, como podem ver, não perdi o cacoete de publicitário. “Logo Eu” foi composta a partir de um briefing que elaborei para mim mesmo. Focalizei um público-alvo muito específico – ouvintes com certo poder aquisitivo e nível maior de exigência, que ouçam música no carro, que sejam consumidores de cultura e que já não sejam assim tão jovens. Confesso que a própria decisão de abraçar o “gênero” MPB foi tomada depois de uma abordagem racional. Concluí que isso poderia agregar valor à canção e aumentar o grau de identificação com esse público.
É claro que não posso negar a influência da música brasileira – especialmente aquelas maravilhosas canções que ouvi nos anos 60, 70 e 80 e que estão impregnadas no meu DNA. Por mais racional que seja, jamais poderia compor um Indie Rock que soasse minimamente convincente! Meu lado intuitivo, afinal, nunca deixa de se manifestar, o que pode ser mais facilmente constatado quando analisamos a letra de “Logo Eu”. Mas essa história vai ficar para a próxima postagem!


LEIA TAMBÉM:
Coringa: uma trilha de arrepiar!


Críticas de filmes, crônicas e opiniões sobre música e cinema


Textos e crônicas para quem gosta de ler


Comentários

Leia também: