Quero ser compositor - Parte 2

Barreiras imensas se ergueram quando decidi compor minha própria canção, mas os recursos agora são tão fáceis...


Parte 2


A tecnologia digital enriqueceu o fazer musical e trouxe uma liberdade criativa sem precedentes. As técnicas e os meios de produção cultural se tornaram tão acessíveis que estão, literalmente, nas mãos de qualquer um. Só não faz música quem não quer.
O problema, na minha opinião, é quando os fazedores de música se agarram aos recursos cosméticos. Tudo o que se prestam a fazer é gerar novos timbres, batidas e efeitos, encontrando atmosferas diferentes para produzir o que consideram “música contemporânea”, ainda que sem originalidade. Deixam as possibilidades estéticas do sistema tonal/modal de lado e perdem a oportunidade de usá-las para criar o novo. Não fazem mais do que reciclar a mesma música que já vem sendo feita há 350 anos.
Ainda assim, mesmo num contexto como esse, surgem ideias valiosas e criativas. Novidades dotadas de real valor estético, que acabam apropriadas pela indústria e viram clichê. Quase a totalidade da música popular consumida hoje no ocidente nos chega destilada em uma máquina universal e onipresente. É entregue já processada, embalada e pronta para ser... fruída. E fazemos isso com gosto. Despreocupados e fascinados.
Enquanto isso, na fronteira que separa os criadores e os consumidores de música popular, a ponte construída com tecnologia digital fez fluir um tráfego intenso. A cancela foi deixada aberta e não tem ninguém na guarita tomando conta! Quem quiser, passa de um lado para o outro, sem burocracia. Qualquer um pode virar compositor.
Aumentou o número de atrevidos que assistem ao fazer musical de camarote – entre esses, devo me incluir. Somos atentos, oportunistas e sem compromissos com o rigor acadêmico ou profissional. Mergulhamos na correnteza caudalosa do streaming e cuidamos de observar as técnicas, as práticas, os macetes, os métodos... E de tanto observar, concluímos:
– Ah, isso até eu consigo fazer!
Acreditando que fazer música é coisa muito fácil, a maioria de nós, atrevidos, buscamos no talento inato e na intuição os meios para criar canções palatáveis. Não tenho nada contra a intuição – ela faz parceria com o carisma para formar a dupla de maior sucesso na música popular. No entanto, usando essa fórmula, poucos conseguem visto de permanência no mundo dos compositores. Só um punhado consegue arrebanhar seguidores e formar público. Raríssimos produzem algo relevante, o que nos leva a desembocar no impasse recorrente: fazer música é para poucos privilegiados!
Mas chega de dar braçadas em círculos!


Como as canções são feitas?


      Quero compreender a música em todo o seu emaranhado. Quero entender como as canções são feitas. Como elas nascem? Como adquirem forma e se tornam canções de verdade? Quais são os ingredientes necessários? Em que ordem eles devem ser adicionados? Encontrei apenas um modo de chegar perto das respostas: compondo a minha própria canção, para depois radiografar o processo criativo.    
Decidido a investigar o fazer musical pelo lado de dentro, tomei uma canção que compus em 2011, intitulada “Logo eu”, e a transformei no meu objeto de estudo. Vou dissecá-la, analisar suas partes e tentar compreender como elas se relacionam entre si. Tentarei desnudá-la, expondo suas intimidades e revelando seus segredos – até mesmo os que me escaparam enquanto os criava.
Reconheço que, para acompanhar uma tal jornada, o leitor terá que fazer concessões. Se ao menos se tratasse de uma canção de sucesso, conhecida e consagrada... Se ao menos se tratasse de um compositor renomado e experiente, com vários hits no currículo... Mas não! O objeto de estudo será uma canção inédita e desconhecida, composta por alguém que até ontem mal conseguia segurar um violão com a postura correta.
Outro problema que se impõe é o juízo de valor: a canção em questão tem qualidade suficiente para que seja estudada? Tem relevância estética? É palatável?
Não há outra coisa a fazer senão saltar por sobre essas barreiras! Deixarei tais questões para serem discutidas lá no final, talvez depois de passarmos a linha de chegada. O melhor, portanto, é dar a largada de uma vez, apresentando a canção “Logo eu”. A letra está reproduzida a seguir, assim como a partitura. Por fim, o vídeo registra a versão do autor.

Logo Eu


Sofrer de amor
Logo eu, quem diria?

Isso é coisa de cinema
De quem quer fazer poema
De quem sonha acordado
E brincando no teclado
Diz que é compositor

Isso é coisa que se faça
Que destino mais sem graça
Fez entrar na minha vida
Essa deusa descabida
Fez de mim um sofredor

(Refrão)
Logo eu, logo eu
Que ironia!
Esse cara vacinado
Aqui plantado nessa fila
Pra sofrer de amor

Fabio Belik - Logo eu 1

Fabio Belik - Logo eu 2






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