Quero ser compositor - Parte 5

Apreciar o caminho faz parte da viagem. Viver o momento da criação agrega valor e interfere no destino da canção


Parte 5


Para os iniciados, vou esmiuçar a matemática musical que me conduziu pelos primeiros versos da canção. Comecei dedilhando o acorde de Bm7(11). As sílabas da palavra “sofrer” foram cantadas sobre as notas Mi e Ré, ou seja: a quarta e a terça menor do acorde. As palavras “de amor” também foram cantadas em duas sílabas, e sobre as mesmas notas Mi e Ré, só que desta vez, como mudei para o acorde de G7(13), elas se transformaram respectivamente na sexta e na quinta.
Lá estava eu, parado, num acorde dominante, que me cobrava uma resolução. Mas eu não resolvi a melodia. Desci meio tom, transformando o G7 no dominante secundário de F#7. A tensão continuou. Então, me veio à mente o segundo verso:

– Logo eu... Quem diria!
Gostei! Agora poderia resolver a tensão, voltando para o acorde de Bm. Havia feito uma espécie de círculo, mas não sabia direito em que tonalidade estava tocando. Podia estar em Bm, em A, em D... Ah, se eu pudesse me dedicar exclusivamente à música! Teria prolongado esse delicioso momento de criação por muito mais tempo. Mas, quem precisa ganhar a vida em outra profissão, não pode se dar ao luxo de “perder tempo” com devaneios. Antes que começasse e me sentir como a cigarra preguiçosa da conhecida fábula que me incutiram na infância, retomei meu trabalho de formiga responsável e fui atender meus clientes.
Só consegui retomar a canção no domingo à noite. A essa altura já havia decidido que ela não seria um blues, e sim uma canção com ares de MPB e bossa nova. Isso merece ser mencionado porque na época estava ouvindo muitos blues. Tentava aprender algumas canções e cacoetes do gênero, estudando como se dá a dinâmica de improvisação sobre as pentatônicas. A decisão de criar uma canção “brasileira” era sinal de que os conceitos gerais da criação já estavam solidificados na minha mente, ainda que não tivesse consciência disso.
Então, lá estava eu outra vez no sofá, com o violão nos braços, falando em “sofrer de amor”. Os dois únicos versos que havia criado tinham força para chamar a atenção do ouvinte. A linha melódica até que era impactante, pois parecia anunciar que uma história começaria a ser contada. O problema era que o enredo não tinha paralelo com minha vida pessoal. Em se tratando de amor, nunca fui um sofredor.
 Estou casado há 35 anos com a única mulher pela qual me apaixonei de verdade. E para minha felicidade, Ludy jamais deixou de me corresponder com sucessivas provas de amor. Nossa vida de casados é ótima e desfrutamos de um cotidiano pontuado de companheirismo. Sempre soubemos contornar as eventuais rusgas. Definitivamente, “sofrer de amor” não é a minha praia!

Toda canção é uma narrativa


Ficou claro, então, que a canção não apresentaria o depoimento pessoal do compositor, mas sim, o de algum personagem fictício. Um personagem que precisaria ser construído e incorporado durante o processo de criação. Teria que trabalhar como quem escreve um pequeno conto, costurando uma narrativa que me permitisse desenvolver uma trama envolvente.
O acervo da música popular brasileira é repleto de canções desse tipo, criadas por monstros sagrados que sempre idolatrei. E se a prática de contar histórias através das canções é tradição antiga em todos os gêneros musicais, no samba, então, ela é... deliciosa! Trem das Onze, Saudosa Maloca, Samba do Arnesto – só para ficar na letra A, de Adoniran Barbosa – são preciosidades que exemplificam muito bem o ponto que pretendo demonstrar.
A partir dessa reflexão, fiquei mais seguro quanto ao caminho que deveria seguir: começaria identificando o protagonista e os demais personagens que habitariam o meu pequeno conto musical. Para fluir, a canção tinha que ganhar uma estrutura narrativa, uma ambientação, uma atmosfera, uma passagem de tempo...
Esfreguei as mãos, num gesto de ansiedade e excitação. Teria muito trabalho pela frente. Um trabalho que me daria muito gosto de abraçar.



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