Quero ser compositor - Final

Ah... se algum compositor renomado narrasse seu processo criativo, seria muito útil...


Parte 9


Na canção “Logo eu” os versos originais ficaram definitivos. É muito comum ter que realizar pequenos ajustes, ora na letra, ora na melodia, para acomodar as diversas inflexões que se entrelaçam. Mas dessa vez isso não ocorreu, e acho que sei o porquê. De tanto brincar com as progressões harmônicas dos versos iniciais, instintivamente criei uma melodia que, apesar de não ser definitiva, pavimentou um caminho métrico muito claro e seguro.
“Sofrer de amor” é o verso que abre a canção. É uma frase de efeito, que revela o tema a ser tratado. Note que não é sofrer “por” amor, mas sofrer “de” amor. Quando fala do amor assim, como uma doença, fica claro que o personagem que canta padece porque não é correspondido. O verso seguinte, “Logo eu, quem diria”, dá mais pistas. Revela um sujeito que se achava, por algum motivo, imune à doença do amor. Alguém que jamais se prestaria a amar sem ser correspondido. Alguém que, obviamente, estava enganado. Cria-se, então, uma porta para a continuidade da narrativa: o que teria levado o sujeito a adoecer?
Os versos seguintes mostram que o personagem considera a paixão como uma bobagem. “Isso é coisa de cinema / De quem quer fazer poema / De quem sonha acordado”. Com esses versos, tentei justificar o “Logo eu, quem diria”, revelando uma personagem pouco afeita a lirismos. Tentei gerar empatia com o ouvinte, mencionando atividades artísticas que usam o amor como matéria-prima.
Mas, nos versos seguintes, deixo cair a máscara da personagem: “E brincando no teclado / Diz que é compositor”. Ora, não é justamente isso que o narrador está fazendo? Brincando de fazer música? Tento mostrar que a personagem é o oposto do que diz ser. E mais do que isso, que brinca no teclado e tem desenvoltura musical.
Esses versos tentam ressaltar o fato de que estamos ouvindo música, embaralhando o tempo da narrativa com o tempo real. Esse exercício de metalinguagem me pareceu muito pertinente, pois não vem de forma gratuita, mas com a função de revelar a mensagem cheia de duplo sentido do narrador.
A conexão desses dois últimos versos com os anteriores revela no subtexto que o personagem de fato “sonha acordado”, o que supostamente deve acontecer na madrugada. Com isso procurei criar uma ambientação para a cena, desenhando um sujeito boêmio, compondo canções de amor na madrugada.

Vestindo a pele do personagem


Bem, estou me sentindo agora como aquele sujeito que precisa explicar a piada sem graça que acaba de contar. Mas de que outra forma conseguiria decupar meu processo de criação? Foi assim mesmo que raciocinei para chegar aos versos da canção. E continuei, já que o meu pequeno conto precisava de uma trama.
Atribui o sofrimento do personagem ao destino, como artimanha para caracterizar sua verve matreira: “Isso é coisa que se faça / Que destino mais sem graça / Fez entrar na minha vida / Essa deusa descabida”. Pronto, o motivo do sofrimento ficou claro: uma mulher estonteante apareceu do nada e fisgou o nosso herói.
É claro que a métrica e o posicionamento das rimas conduziram a escolha das palavras, pois tentei repetir o mesmo padrão adotado na estrofe anterior. O verso que finaliza essa estrofe, “Fez de mim um sofredor”, foi pensado para remontar ao início da canção, fechando o círculo de forma lógica para ao ouvinte.
Ora, ninguém se autoproclama um sofredor durante uma conversa com sua própria consciência. Fica claro, então, que o protagonista está narrando sua desventura para alguém que está na sua presença, e para quem está tentando jogar charme.
O processo de criação do refrão já foi narrado anteriormente. Mostrei que os versos “Logo eu, logo eu / Que ironia”, surgiram como centro da ideia musical. Já o verso que arremata o refrão foi construído de modo que as palavras finais fossem exatamente aquelas que iniciaram a canção, ou seja, “sofrer de amor”.
Foi muito instrutivo constatar que o encadeamento de ideias gerador da canção “Logo Eu” nasceu do balbuciar de três palavras proferidas a esmo, acompanhadas por um acorde de Si menor. Tal fagulha criativa detonou o processo, mas acredito que a conexão emocional que estabeleci com a personagem tenha sido o elemento catalisador que possibilitou o nascimento da canção.

Criação musical do ponto de vista pessoal


Não tenho como negar que reconheço a mim mesmo em diversos aspectos da personagem. Isso fica muito claro nos versos “E brincando no teclado / Diz que é compositor”. Ao referir-se dessa forma a suas proezas musicais, adotando um tom de deliberada modéstia, a personagem deixa claro que elas têm apenas um caráter lúdico. Mostra-se despretensioso em relação a suas criações, talvez tentando proteger-se antecipadamente de eventuais críticas – afinal, ele não é um compositor de verdade.
O leitor já deve ter percebido que é exatamente esse o tom que assumi ao longo desta minha dissertação. Acredito que minhas canções só passarão a existir de fato depois que o circuito entre a obra criada e o público se fechar por completo. Enquanto não receber um feedback consistente, continuarei qualificando-as como pretensas canções.
Se isso é algum tipo de mecanismo de defesa emocional, então é também um mecanismo verdadeiro. Uma verdade que, a meu ver, confere legitimidade à canção.
Depois de esmiuçar meu processo de criação, comecei a perceber que há um método por trás dele. Consiste em trabalhar separadamente os elementos que dão origem à canção – melodia, letra e roupagem harmônica – e depois ir alterando-os sistematicamente até que formem uma totalidade coesa.
Bem, foi assim que “Logo Eu” nasceu, com todos os traços que uma canção de verdade deve ter. Mas só no papel! Como fazer para que ela ganhe concretude e chegue aos ouvidos do público? Teria que dar conta de outro elemento fundamental do processo de compor: a criação de uma performance. E isso, caro leitor, mostrou-se um desafio ainda maior.
Há muito já vinha me preocupando com os desafios da performance. Sua dimensão estética é de uma importância tamanha que precisa ser colocada entre os elementos estruturais de qualquer canção – melodia, letra, harmonia e performance. Compreendi então que, por mais que me esforçasse, os ouvintes precisariam fazer concessões demais para perceber a obra da maneira como ela fora concebida no papel e estava consolidada na minha cabeça. Não havia outra coisa a fazer senão desenvolver uma performance satisfatória. Teria que aprender a cantar e a tocar com expressividade.
É o que continuo tentando fazer até hoje! O vídeo que apresento neste blog foi gravado pouco tempo após a conclusão da canção e fiz questão de deixar registrados os erros de gravação, para mostrar o caráter amador da minha proposta.
Ao me dispor a escrever esse registro detalhado – e com isso expor-me às críticas e desnudar minhas pretensões como criativo – estava mais interessado em dividir angústias e atenuar a ansiedade por ver minha composição “divulgada”. Mas, agora que chego ao final da narrativa, espero ter contribuído para ao menos lançar uma discussão sobre os processos criativos. Espero ter ajudado outros aventureiros a refletir sobre os prazeres e as desventuras do fazer musical.
Para concluir: se algum compositor renomado e tarimbado, com obras relevantes no currículo, tivesse dedicado um pouco de tempo para narrar seus percalços na profundidade em que tentei aqui mergulhar, me encontraria no primeiro lugar da fila na noite de autógrafos.




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