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Eu Sou a Lenda: um filme que diz muito em época de pandemia

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Eu Sou a Lenda: filme dirigido por Francis Lawrence RUAS DESERTAS, SILÊNCIO PERTURBADOR, O VENTO SOPRANDO... ACHO QUE JÁ VI ESSE FILME! Assim que surgiu a pandemia do Covid19, Ludy e eu nos trancafiamos no apartamento por duas semanas. O governo do estado impôs um confinamento draconiano, que julgamos excessivo, mas como não vimos necessidade de sair – consigo atender meus clientes a partir do home office e minha mulher está aposentada – preferimos ficar espiando o desenrolar dos acontecimentos pela televisão. No começo, ficamos preocupados com nossas mães já idosas, com nossa filha morando sozinha na cidade de São Paulo, com a necessidade de ir ao supermercado, com as aglomerações... Mas depois, como qualquer cinéfilo que se preza, relaxei e resolvi assistir aos filmes e séries na TV. Decidi me alienar!           Ah, o verbo alienar! Como ele é cruel quando usado para rotular os cinéfilos. Nos faz parecer fúteis, desligados do mundo,  hipnotizados por uma espécie de feitiço audiovisua

Onde os Fracos Não Têm Vez: no final, os irmãos Coen conseguem surpreender

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Onde os Fracos Não Têm Vez: direção de Ethan e Joel Coen HÁ ALGO QUE VOCÊ JAMAIS ENXERGARÁ NESSE FILME Há toneladas de críticas, resenhas, especulações e até dossiês completos na internet sobre o  filme  Onde os Fracos Não Têm Vez , dirigido em 2007 pelos irmãos Coen. Não estamos falando de um mero filme de sucesso. Trata-se de um verdadeiro objeto de culto, que reúne adoradores e detratores das mais variadas facções. Confesso que relutei antes de escrever uma crônica sobre esse filme. Não queria ser repetitivo, nem cair no lugar comum, então decidi comentar sobre aquilo que pode ter passado despercebido pela maioria dos espectadores.         Na hora de avaliar a qualidade de um filme, as pessoas costumam examinar certos parâmetros: desempenho dos atores, qualidade da fotografia, pertinência da trilha sonora, cuidados com a produção, realismo dos efeitos visuais... Porém, na saída do cinema, a soma das notas dadas a cada critério não consegue fechar a conta! E a razão é simples: de na

Guerra Mundial Z: é "Z" de Zumbi mas tem muito "A" de ação!

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Guerra Mundial Z: filme dirigido por Marc Forster BASTAM DEZ SEGUNDOS PARA O VIRUS INFECTAR E POUCAS CENAS PARA CAPTURAR SUA ATENÇÃO Resolvi comentar aqui na Crônica de Cinema sobre o filme Guerra Mundial Z , uma produção americana de 2013 estrelada por Brad Pitt. – Ora, mas é um filme de zumbis! – reclamariam aqueles mais interessados em ler sobre produções autorais e edificantes. Confesso que relutei em assistir a esse filme. Zumbis sempre foram repugnantes e deveriam ficar restritos aos trash movies. Mas, depois que embarquei no enredo que ele descreve, adorei a experiência!           Em Guerra Mundial Z os zumbis são produto de um vírus desconhecido, que se alastra com rapidez assombrosa – em apenas dez segundos a vítima se transforma em um voraz transmissor da doença, cujo único propósito é disseminar o vírus. A velocidade e o sentido de urgência assumem o comando do filme logo nas primeiras cenas e somos conduzidos assim até o final, num ritmo impecável.

Parasita: um drama grotesco, que vai da comédia à tragédia

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Parasita: filme dirigido porBong Joon-Ho RICOS E POBRES, ESPERTOS E OTÁRIOS, COMÉDIA E SUSPENSE... O FOCO É NO  DUALISMO ORIENTAL  Há tempos não acompanhava a festa do Oscar, mas em 2020 a curiosidade foi maior que o meu desprezo pelo desfile das celebridades. Na disputa havia um filme sul-coreano feito com uma mistura de vários gêneros, um filme de guerra encenado como uma ópera, num palco gigantesco e em tempo real, um filme de super-heróis onde só o vilão aparece, um filme onde Hitler e o nazismo são abordados em tom de comédia, um filme cujo título faz merchandising para duas marcas da indústria automobilística, um filme dirigido por um brasileiro falando sobre um Papa argentino... Entre cochilos, vi a premiação transcorrer como sempre: surpresas aqui e ali, barbadas confirmadas e estatuetas distribuídas a rodo entre todos os setores da indústria do cinema. O grande vitorioso foi o filme Parasita , dirigido em 2019 por Bong Joon-ho e o resultado forneceu munição para uma saraiva

No Escuro da Floresta: duas irmãs sobrevivendo ao apocalipse

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No Escuro da Floresta: filme dirigido por Patricia Rozema O APOCALIPSE SE TORNA INTIMISTA AO GANHAR UM TOQUE FEMININO – Não dá pra se guiar pela sinopse. Esse filme é muito melhor do que dizem – reclamou Ludy, apertando o passo para ultrapassar o casal de idosos à nossa frente. Enquanto a seguia pela pista movimentada do parque, retruquei:         – Ah, mas pense que é difícil resumir um filme inteiro em pouquíssimas palavras. Ainda mais um tão denso!         – Não tem desculpa! Quem escreve essas sinopses só pode ser um estagiário!         Minha mulher estava indignada. Por pouco deixamos de assistir ao filme  No Escuro da Floresta , escrito e dirigido em 2016 pela canadense Patricia Rozema. Classificado no serviço de streaming como drama e descrito rapidamente como um filme pós-apocalíptico, não causou empolgação quando nos deparamos com ele na lista de sugestões. O que me motivou mesmo foi a capa do filme, ilustrada com a foto de Ellen Page e Evan Rachel Wood, duas atrizes conhecid

Transformers - O Filme: o primeiro da franquia

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Transformers: filme dirigido por Michael Bay OS FILMES DE AÇÃO ESTÃO NOS DEIXANDO DISTRAÍDOS Alice tem 4 anos. É o xodó da família e foi o centro das atenções em nosso último encontro festivo. Filha de nossa afilhada, desperta em Ludy, minha mulher, o ímpeto de tia-avó coruja. Quanto a mim, me divirto com suas tiradas engraçadas, que misturam ingenuidade com a lógica peculiar das crianças muito pequenas e adoráveis. A mais recente travessura que Alice aprontou foi na praia, enquanto fazia um castelo de areia com um amiguinho. Proibidos de se aproximar do mar, em dado momento decidiram inundar o fosso do castelo, mas precisavam de água. Como obtê-la? Ela foi logo traçando um plano:         – Vou distrair meu pai. Enquanto isso, você vai no mar e enche o balde de água. – Alice só se esqueceu de sussurrar no ouvido do amiguinho. Ingenuamente, tramou a conspiração em voz alta, bem ao lado do pai, que estava de vigia. Depois de tudo combinado, Alice virou-se para o pai, arregalou os olhos e

Ferrugem: filme rodado em Curitiba

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Ferrugem: filme dirigido por Aly Muritiba É SOBRE JOVENS, PARA JOVENS, MAS CONVERSA COM OUTRAS GERAÇÕES Ludy e eu tínhamos um forte motivo para assistir ao filme Ferrugem , dirigido em 2018 por Aly Muritiba. Nada a ver com o fato de ter sido rodado em Curitiba – cidade onde vivemos – nem com as críticas favoráveis que circulavam na mídia. Naquela fria noite de quarta-feira, fomos a um cinema de shopping por um único motivo: prestigiar nosso sobrinho, que participara da produção como assistente de direção.         Sim, leitor, pode me acusar de nepotismo! Mas, se entrei naquela sala de cinema pelo motivo errado, quando me levantei da poltrona, ao final da projeção, estava redimido.  Ferrugem é um ótimo filme e festejei a oportunidade de tê-lo visto na telona, em sua plenitude. Tem roteiro bem costurado – assinado pelo próprio Aly Muritiba e por Jessica Candal. Traz ótimas interpretações, segue num ritmo envolvente e tem uma direção segura. O filme aborda um tema relevante e universa

Oscar 2020

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OSCAR: MUITA GENTE QUESTIONA, MAS TODO MUNDO ACOMPANHA  Oscar 2020: boa safra de filmes             Acordei muito cedo e me levantei atordoado de sono. Mesmo assim fui arrastado a contragosto para a caminhada matinal pelas ruas do bairro. Ludy não teve pena:             – Quem mandou ficar até tarde vendo a entrega do Oscar?             – O pior é que não consegui ir até o fim... Fiquei com sono. Capotei no sofá!             Minha mulher balançou a cabeça e sorriu. Não viu nisso nada de novo.             Há muito deixei de acompanhar a festa do Oscar, mas neste ano a curiosidade foi maior que o meu desprezo pelo desfile das celebridades. Na disputa havia um filme sul-coreano feito com uma mistura de vários gêneros, um filme de guerra encenado como uma ópera num palco gigantesco e em tempo real, um filme de super-heróis onde só o vilão aparece, um filme onde Hitler e o nazismo são abordados em tom de comédia, um filme dirigido por um brasileiro falando sobre um Papa argentino... A safra

Fernando Meirelles no Roda Viva

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EM ENTREVISTA AO RODA VIVA, FERNANDO MEIRELLES FALA SOBRE A AVENTURA DE FIMAR DOIS PAPAS             Tinha 18 anos e estagiava numa pequena agência de propaganda. Tudo era novidade! Queria ser ilustrador e certo dia tive a oportunidade de acompanhar o Diretor de Arte na criação de um cartaz usando aerógrafo. Empolgado, puxei meu banquinho para a prancheta dele e o enchi de perguntas.– Ah! Nem vem... Não sou professor e não sei ensinar – avisou ele, mostrando sua impaciência com fedelhos curiosos.             – Mas eu sei aprender! Vai fazendo aí, que eu observo – Minha resposta soou um tanto insolente, mas veio ligeira e desconcertou o Diretor de Arte. Ele acabou tendo que trabalhar a tarde toda comigo em seus calcanhares.             Os anos se passaram e continuei acreditando que poderia aprender qualquer coisa neste mundo. Bastaria ter vontade e oportunidade. Quando a internet chegou, as oportunidades explodiram e eu aproveitei. Artigos, vídeos, tutoriais, dicas... Vasculhei sobr

Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer

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Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer: dirigido por Alfonso Gomez-Rejon É ÓTIMO TROPEÇAR NUM FILME CRIATIVO E SENSÍVEL – Já passou da hora de cancelar a TV por assinatura – sentenciou Ludy, esbanjando convicção. Estávamos apenas começando nossa caminhada matinal, mas já havíamos encontrado um motivo de discussão.        – Vamos dar mais um mês, pelo menos – retruquei, sem a mesma confiança, ainda tentando formar uma opinião sensata. Mas minha mulher insistiu:        – Hoje em dia tá tudo no streaming! Quem é que ainda vê TV?        – Eu, ora!        A minha geração tem um caso sério com a televisão. Fomos criados na frente dela. Por meio dela fomos alfabetizados na linguagem do cinema. Há uma ligação afetiva... uma espécie de cordão umbilical, ligando nossa poltrona ao aparelho de TV. Romper com ele significa nascer para uma outra forma de consumir entretenimento.        – Pra que tanta celeuma? É só a mídia que está se transformando, o conceito de TV continua o mesmo – diriam os d

Viver Duas Vezes: sobram razões emocionais para assistir a esse drama

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Viver Duas Vezes: filme dirigido por Maria Ripoli COMO NÃO SE EMOCIONAR COM UM FILME QUE FALA DE ALLZHEIMER?         O filme  Viver Duas Vezes tira do pedestal qualquer um que se meta a fazer crítica de cinema. Se o sujeito se mantém frio, analisando as técnicas e os recursos, avaliando as atuações e as técnicas narrativas, termina sem viver a imensa variedade de emoções que o enredo suscita. Por outro lado, ao se envolver emocionalmente, fica cego para o cinema que acontece diante dos seus olhos.           – Ora, se é para ignorar o cinema, vá ler um romance sobre o tema – diriam os cinéfilos tecnicamente engajados. Também tenho que concordar com esses. Então, só me resta emitir uma declaração de impedimento. Sim, confesso que sou emocionalmente comprometido para julgar o filme  Viver Duas Vezes . Fui pego de jeito!           A senha que abriu a caixa de emoções – e que me levou às lágrimas – foi a palavra Alzheimer. A diretora espanhola Maria Ripoll manipulou o tema com sensibilida