Crítica | Marjorie Prime: drama intimista sobre a vida e a morte

Cena do filme Marjorie PrimeMarjorie Prime: filme dirigido por Michael Almereyda

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL A SERVIÇO DO BOM CINEMA

Quem aprecia cinema de qualidade e exige mais do conteúdo que consome, não se contenta com a infantilidade dos super-heróis, com a superficialidade das comédias para adolescentes ou com os dramas rasos que evitam os assuntos polêmicos. Cinéfilos compenetrados precisam perder tempo garimpando os catálogos dos serviços de streaming, à procura de preciosidades. Marjorie Prime, filme de 2017 escrito e dirigido por Michael Almereyda, é um desses achados que merecem ir direto para a  nossa coleção, guardado na prateleira dos que merecem ser vistos e revistos de tempos em tempos.

Ficção científica em doses homeopáticas 

        O primeiro aviso a respeito de Marjorie Prime é que o filme foi adaptado da peça de teatro com o mesmo nome, escrita pelo dramaturgo americano Jordan Harrison e lançada em 2014; foi premiada e consagrada pela crítica especializada por abordar com sutiliza o tema da inteligência artificial, que hoje domina o nosso dia a dia. O segundo aviso é mais um alerta para os incautos à procura de entretenimento ligeiro: ao contrário do que sugere a sinopse no serviço de streaming, não se trata propriamente de um filme de ficção científica com cenas de ação, nos moldes do que a indústria cinematográfica costuma produzir em abundância. Vejamos então uma sinopse mais elaborada:

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Cena do filme Marjorie Prime
Marjorie Prime: o próximo nível da inteligência artificial

Conversas com a versão digital do falecido marido

        A protagonista, Marjorie Prime (Lois Smith), é uma violinista octogenária que começa a manifestar o Mal de Alzheimer. Vive com a filha, Tess (Geena Davis) e o genro. Jon (Tim Robins). Ela passa os dias em conversas com a versão digital do falecido marido, Walter (Jon Hamm), que é projetada na sua sala de estar. O holograma, controlado por uma poderosa inteligência artificial, emula à perfeição a fala, os trejeitos e a personalidade do retratado. É como se o próprio estivesse ali, sentado no sofá, disponível o tempo todo para conversar. Memórias, rusgas, frustrações, confissões... uma vida inteira de convívio continua a fluir entre Majorie e o falecido. Enquanto isso, a realidade segue paralela no cotidiano da filha e do genro, que tentam levar a vida enquanto assumem o papel de cuidadores da octogenária Marjorie.

Projeção dos mundos internos dos personagens

        Em Marjorie Prime, a história de todos os membros da família é revelada aos poucos, por meio das linhas de diálogo densas e longas que dominam todo o filme. Percebemos emergir sentimentos e emoções em profundidade, que desenham os personagens em detalhes. Porém, qualquer coisa que se diga a mais sobre tais desdobramentos, fatalmente resultará em spoilers. Mas posso, ajudar você a formar uma opinião sobre esse belo e sensível filme, explicando a sua ideia central: mais do que apenas interagir com verossimilhança, a cópia inteligente do marido morto aprende a se comportar como o falecido a partir dos ensinamentos que recebe dos parentes. Ora, você já percebeu então que a palavra projeção cai aqui como uma luva!

Cena do filme Marjorie Prime
Marjorie Prime: personagens projetando seus mundos internos

Praticamente uma sessão de terapia

         O holograma torna-se uma projeção do mundo interno de cada um que se dispõe a ensiná-lo: comporta-se como o marido interno que está na memória falha de Marjorie, como o pai interno que a filha guarda com ela, como o sogro idealizado... É nesse jogo de projeções que os diálogos seguem fluentes, num texto muito bem construído e adaptado para o cinema. O tom e o ritmo impostos pelo diretor insinuam aqueles de uma sessão de terapia. A trilha sonora é belíssima e envolvente. As atuações de Lois Smith, Jon Hamm, Tim Robbins e Geena Davis não são teatrais. Ao contrário, eles jogam o tempo todo com a câmera, que está sempre posicionada com discrição, para captar o cotidiano dos personagens.

O sentido da vida e da morte

        A maior parte da ambientação é interna e a mise-en-scène não privilegia a mobilidade. Ainda assim o diretor Michael Almereyda mostra saber o que faz: cinema! Quando retirou a história dos palcos, deu a ela a luminosidade que não consegue ter no teatro; a luz do dia, macia e sempre muito brilhante, enche a tela de vida. As poucas cenas externas são arejadas e permitem que os personagens respirem, talvez para que tenham fôlego para discutir sobre a vida e a morte. É disso que se trata o filme Marjorie Prime, uma oportunidade para falar da vida e da morte, com inteligência, sensibilidade e maturidade. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Michael Almereyda, a adaptação muito bem escrita, a atuação compenetrada de um elenco entrosado, a fotografia impecável e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: o diretor soube tirar proveito do confinamento imposto pela linguagem ancorada basicamente nas linhas de diálogo, mas também aproveitou os recursos do audiovisual para expandir a construção de cada personagem.

Acima da média. É entretenimento de qualidade.

Ficha técnica do filme Marjorie Prime

Data de produção: 2017
Direção: Michael Almereyda
Roteiro: Michael Almereyda

Elenco:
  • Lois Smith
  • Hannah Gross
  • Jon Hamm
  • Tim Robbins
  • Geena Davis
  • Stephanie Andujar
  • Leslie Lyles

Comentários

  1. Foi uma ótima análise em relação as produções atuais, nos permitindo a estagnação, pois, atualmente, muitos filmes, parecem plágios dos anteriores. Um total non sense, já que não há nada para comentar após assisti-lo, como fazíamos outrora. Tem sido cada vez mais raros, os filmes que após assistirmos, nos permite uma análise inteligente, reflexiva, etc...
    Quanto ao filme, por você citado (Marjorie Prime), infelizmente, ainda não assisti, mas tentarei encontrar em uma locadora, ou mesmo obter uma cópia. Parabens pelo seu precioso e analítico trabalho sobre a filmografia de outrora e a atual. um abraço.

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    Respostas
    1. Muito obrigado, amigo! Gosto muito de cinema e estou empolgado em poder compartilhar informações sobre o tema. Quanto ao filme Marjorie Prime, assisti no serviço de streaming Now. Está disponível na programação do canal Film&Arts. Um abraço!

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