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Mostrando postagens com o rótulo Baseado em Literatura

Medo da Verdade: no final, um dilema moral se impõe

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Medo da Verdade: direção de Ben Affleck UM ROMANCE DENSO GANHA UMA ADAPTAÇÃO ENXUTA O que os filmes Sobre Meninos e Lobos , Ilha do Medo e Medo da Verdade têm em comum? Os três contam histórias gestadas na mente de Dennis Lehane, um dos escritores policiais mais festejados entre os americanos. Seus romances se dedicam a retratar uma certa atmosfera sombria que ele enxerga pairando sobre a cidade de Boston, sua terra natal – que ele esmiúça com certo bairrismo... Crônica exclusiva para apoiadores. Para continuar lendo, torne-se um apoiador.   APOIE QUEM GERA CONTEÚDO DE QUALIDAE Com apenas R$8,00 você participa da minha campanha na  Apoia.se  e me ajuda a continuar escrevendo novas crônicas. Clique aqui!

Ligações Perigosas: a versão de 1988 continua exuberante

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Ligações Perigosas: dirigido por Stephen Frears NUNCA É APENAS SOBRE GANHAR OU PERDER A obra-prima da literatura erótica do Século XVIII nos chegou pela pena de Pierre Choderlos de Laclos, que escreveu o romance epistolar intitulado Les Liaisons Dangereuses . O formato literário, onde a narrativa se dá por meio da transcrição de cartas trocadas entre os personagens, era bastante popular na época, mas aqui se mostrou especialmente oportuno! O leitor tem a sensação de penetrar na intimidade dos nobres ociosos e endinheirados, de compartilhar seus segredos e confissões, de fazer parte de suas conspirações. Quando foi lançado em 1782, o romance era tão escandaloso quanto impertinente, por fazer provocações em torno de questões morais e também por instigar a curiosidade dos enxeridos e interessados em bisbilhotar a vida privada dos nobres, acompanhando de uma distância segura seus infames jogos de sedução.           O romance rendeu várias adaptações para as telas, mas a que motivou esta cr

À Espera dos Bárbaros: baseado no romance de J.M. Coetzee

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À Espera dos Bárbaros: filme dirigido por Ciro Guerra DIRETO DA LITERATURA PARA AS TELAS Nas páginas de um livro, uma história segue no ritmo ditado pelo leitor. O autor pode combinar as palavras, buscando uma sugestão de cadência na sonoridade que elas evocam. Também pode forçar a pontuação para impor as pausas e marcar a tomada de fôlego. Mas é na leitura que a obra se abre para interpretações. Já no cinema, esse pacote vem pronto. O ritmo é dado pela duração das imagens e dos sons, mas também pelos gestos dos atores, seus olhares, linguagem corporal, tom de voz, pronúncia... Lembro disso para destacar que, no filme, a criação coletiva acaba com a ditadura do autor, que perde o controle absoluto da sua história. John Maxwell Coetzee o escritor sul-africano ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2003, resistiu o quanto pôde, tentando segurar as rédeas da sua obra. Em À Espera dos Bárbaros , ele mesmo assina o roteiro para a adaptação do romance que escreveu em 1980, dirigida em 201

Ataque dos Cães: entenda o significado do ponto de virada desse western sombrio

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Ataque dos Cães: filme dirigido por Jane Campion UM ESPETÁCULO AUDIOVISUAL REFINADO E FLUENTE Então, com a próxima temporada do Óscar atiçando a sede por indicações, eis que os serviços de streaming se animam a encher nossas telas com cinema de verdade. Ataque dos Cães , filme de 2021 escrito e dirigido pela cineasta neozelandesa Jane Campion é um filme e tanto. Um espetáculo audiovisual que nos traz um melodrama sólido, com narrativa fluente, atuações marcantes, uma temática envolvente e vocação para ensejar diferentes interpretações. Para formar uma opinião crítica a respeito dessa produção é preciso ponderar diferentes elementos. Primeiro, vamos começar falando da diretora.           Jane Campion tornou-se célebre depois que dirigiu o filme O Piano em 1993, o que lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes – a primeira mulher a receber o prêmio – e o Óscar de melhor roteiro original. Credenciada como grife de cinema criativo e maduro, sua assinatura nos créditos é motivo suficiente para d

Dersu Uzala: poesia audiovisual de Akira Kurosawa

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Dersu Uzala: dirigido por Akira Kurosawa QUANDO O CINEMA GANHA EXPRESSÃO POÉTICA Em Curitiba, nos anos 1970, havia um grande portal para o espaço-tempo. Costumava usá-lo com rotineira frequência – praticamente todos os finais de semana. Era enorme, daqueles com um imenso saguão de entrada, plateia e primeiro balcão. Usava-o para acessar mundos distantes e épocas remotas, passadas e futuras. Como é da natureza dos portais, havia pouco o que reparar nele. Todas as atenções se voltavam para a janela que se abria e o crucial momento da travessia. Enquanto isso, as expectativas eram vencidas com a ajuda de um saquinho de pipocas ou uma caixinha de balas Mentex. Apesar de perceber pessoas ao meu redor, as jornadas nas quais embarcava eram sempre solitárias e de esforço pessoal. Ainda hoje me sinto conectado com aquele lugar. E nesse momento em que escrevo, tal conexão é real! Palpável. Consigo me ver sentado numa das poltronas vermelhas, com o olhar vidrado. Encantado! Com a mente desconecta

O Cântico dos Nomes: uma ode imaginativa e original

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O Cântico dos Nomes: filme de François Girard UM DRAMA MUSICAL FICTÍCIO AGARRADO NAS VERDADES SOBRE O HOLOCAUSTO           Antes de mais nada é preciso deixar claro: O Cântico dos Nomes,  produção de 2019 dirigida pelo canadense François Girard é um filme sobre o Holocausto. É um drama ficcional, com personagens inventados e situações imaginárias, mas traz uma camada de autenticidade capaz de transmitir verossimilhança e credibilidade, a ponto de parecer ter sido inspirado em fatos. A produção é uma adaptação do romance com o mesmo título, escrito em 2002 pelo crítico musical britânico Norman Lebrecht, autor que conhece os bastidores do mundo da música erudita como poucos – ele mantém o blog de música clássica chamado Slipped Disc. A história que ele nos conta é comovente e combina um profundo respeito pela fé religiosa, pelos valores familiares e pela linguagem musical.           O Cântico dos Nomes conta a história de Martin Simmonds, que quando garoto ganhou um irmão adotivo: o pro

O Despertar de uma Paixão: um filme que no final deixa muitas reflexões

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O O Despertar de Uma Paixão: dirigido por John Curran QUANDO CAI O VÉU DE ILUSÃO QUE COBRE UM RELACIONAMENTO O romance The Painted Veil , escrito em 1925 por William Somerset Maugham é intimista e um tanto sombrio. Conta uma história de amor às avessas, onde a paixão só vem muito depois do casamento e, ainda assim, atribulada por acontecimentos trágicos. Rendeu três adaptações para o cinema: em 1934, com o filme The Painted Veil , estrelado por Greta Garbo e Herbert Marshal, em 1957, no filme The Seventh Sin , com Bill Travers e Eleanor Parker e em 2006, no filme O Despertar de Uma Paixão , estrelado por Edward Norton e Naomi Watts. Esse último remake é resultado do empenho de Edward Norton, que desde 1999 planejava produzi-lo, mas apenas tomou forma em 2001, quando Naomi Watts entrou no projeto também como produtora.           O Despertar de Uma Paixão , dirigido por John Curran, é um daqueles filmes com vocação para “cinemão”. Tem ascendência nobre e é tratado pelos anglo-saxões de f

A Cor Púrpura: o filme fala da força de superação da sofredora Celie

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A Cor Púrpura: filme de Steven Spielberg FALTOU FOCO NAS CARTAS DE MISS CELIE Eis que, em 1985, Steven Spielberg se vê às voltas com seu primeiro drama, depois vencer como diretor de grandes sucessos de bilheteria. Certamente foi colocado à frente do projeto para transformar A Cor Púrpura em um arrasa-quarteirão. E conseguiu, mas conseguiu também mergulhar em um mar de polêmicas e críticas desfavoráveis. Revisitei o filme recentemente e continuo achando que o diretor errou a mão, embora tenha nos entregado uma produção caprichada, com uma narrativa ágil e envolvente.           Mas antes de cutucar nos problemas, vamos falar um pouco do livro que originou o filme. Trata-se do romance A Cor Púrpura , escrito em 1983 por Alice Walker. Esse estrondoso sucesso, que rendeu a ela o Prêmio Pulitzer, traz uma característica importante: é construído por meio das cartas escritas pela protagonista – endereçadas ao Querido Deus e à sua irmã Nettie. Segue um formato literário popular nos Séculos XV

Laranja Mecânica: um clássico que já foi proibido

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Laranja Mecânica: filme dirigido por Stanley Kubrick UMA HISTÓRIA SOBRE A VIOLÊNCIA, O CONTROLE DO ESTADO E A LINGUAGEM COMO INSTRUMENO DE TRANSFORMAÇÃO Era um garoto de dez anos quando Laranja Mecânica foi realizado por Stanley Kubrick em 1971. Por volta dos quinze, fiquei sabendo da existência do polêmico filme, porque a mídia o abordava em frequentes reportagens – o próprio diretor, vejam só, havia pedido para banir a película das salas de exibição na Inglaterra, por ser hiperviolenta e sexualmente apelativa. Além disso, as estrelas do rock britânico estavam sempre fazendo referências ao filme, mantendo acesa a curiosidade do resto do mundo. Enquanto isso, no Brasil, Laranja Mecânica estava proibido de pôr os pés.           Por óbvio, minha curiosidade se voltou primeiro para o título do filme. Que serventia teria um tal mecanismo em forma de laranja? Mais tarde descobri se tratar de uma expressão criada pelo autor do livro, Anthony Burgess, para se referir ao sujeito que, por for

Doutor Jivago: uma história de amor ofuscando a revolução russa

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Doutor Jivago: filme dirigido por David Lean CINEMA ELEGANTE QUE CONTINUA IRRADIANDO EXUBERÂNCIA Quando me dei por gente, Doutor Jivago já era um dos maiores clássicos da história do cinema. Sabia praticamente nada sobre o filme, apenas o que ouvia de minha mãe e de minhas tias, quando conversavam sobre filmes, romances açucarados e a vida das atrizes e atores de Hollywood – tudo muito chato para um garoto mais interessado em ação e aventuras. No entanto, conhecia muito bem a música do filme. Volta e meia o Tema de Lara estava na vitrola da sala, nos programas de rádio e nos assobios da minha mãe enquanto pendurava para secar as roupas no varal. Virou lembrança de infância, mais associada às preferências e ao gosto de outras gerações.           Quando finalmente assisti ao filme, já era adulto – apto a apreciar e compreender o gosto e as preferências das outras gerações. Fiquei surpreso com essa obra de 1965 dirigida por David Lean. Não me deparei com as cenas emboloradas, textos ultr

Guerra dos Mundos: filme de Steven Spielberg

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Guerra dos Mundos: filme dirigido por Steven Spielberg A HISTÓRIA QUE FORMATOU A FICÇÃO CIENTÍFICA COMO GÊNERO LITERÁRIO Baseado no clássico da ficção científica escrito por Herbert George Wells  –  publicado pela primeira vez em 1897 na Inglaterra  –  o filme  Guerra dos Mundos , dirigido em 2005 por Steven Spielberg, foi realizado para ser um blockbuster. Podemos dizer que é fruto da parceria do diretor com o ator Tom Cruise, nascida durante a realização do sucesso Minority Report – A Nova Lei . Para seguir a mesma trilha, os dois perceberam que essa nova adaptação cairia como uma luva nas mãos do astro de Hollywood e do cineasta com histórico de sucessos em filmes de... extraterrestres.           Invasão alienígena já era assunto batido, além do mais, o livro de H.G. Wells narra uma história sombria, trágica e com passagens repletas de horror. Spielberg precisaria encontrar uma mensagem auspiciosa, para ressaltar o lado bom do ser humano, que aflora diante das grandes tragédias. Par

Cavalo de Guerra: um livro infantil que virou filme de Steven Spielberg

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Cavalo de Guerra: filme dirigido por Steven Spielberg UMA OBRA MADURA, ADAPTADA DE UM LIVRO INFANTIL De um filme sobre a Primeira Guerra Mundial dirigido por Steven Spielberg, os mais apressados podem esperar por momentos de horror e violência, numa abordagem gráfica crua e realista. Nada disso! Cavalo de Guerra , realizado em 2011, é um filme para toda a família, baseado em um livro infantil escrito por Michael Mopurgo. A guerra, em toda a sua tristeza, é retratada como pano de fundo, mas o foco de Spielberg vai para os personagens, seus dramas e suas trajetórias.           Cavalo de Guerra conta a história de Joey, um cavalo que pertence a Albert Narracott, garoto cuja família humilde vive numa pequena propriedade em Devon, na Inglaterra. Estamos às portas da Primeira Guerra e os fortes laços emocionais entre o garoto e seu cavalo são postos à prova quando Joey é vendido para o Exército e destacado para as batalhas na França. Mortes, doenças, violência extrema e uma exte

Um Sonho de Liberdade: o filme fala de redenção!

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Um Sonho de Liberdade: filme dirigido por Frank Darabont UM FILME DE PRESÍDIO QUE NÃO EXALTA A FAÇANHA DA FUGA Redenção. Eis a palavra que falta no título em português desse filme. Sua omissão rouba uma boa fatia de significado e nos leva a sentar na poltrona esperando acompanhar a saga de personagens ansiosos tão somente por liberdade. E para complicar, em se tratando de um filme sobre a vida num presídio, a palavra liberdade também vem amputada de significados e parece pronunciada apenas como antônimo de cárcere. Mas Um Sonho de Liberdade , filme de 1994 dirigido por Frank Darabont, está longe de ser um filme de presídio feito para exaltar a façanha da fuga. É um filme sobre... redenção!           Baseado no conto Rita Hayworth and Shawshank Redemption , escrito por Stephen King e publicado no livro Quatro Estações , o filme se tornou uma das mais celebradas produções do cinema e conquistou uma legião de fãs de todas as idades. Seu fracasso nas bilheterias, atribuído à co