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O Quarto do Pânico: um thriller ágil e envolvente

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O Quarto do Pânico: direção de David Fincher NARRATIVA VISUAL COMPLEXA PARA UM ROTEIRO ENXUTO Depois de trabalhar nos roteiros de grandes sucessos de bilheteria, como A Morte lhe Cai Bem , Jurassic Park e Missão Impossível , David Koepp se tornou um dos roteiristas mais requisitados de Hollywood. No início dos anos 2000, ele tropeçou em algumas reportagens sobre os tais quartos do pânico, que ganhavam espaço nas casas dos milionários preocupados com segurança; no caso de invasão por assaltantes ou malfeitores, era lá que eles se enfurnavam, até a chegada da polícia. Na mente de um roteirista talentoso, no entanto, as coisas jamais aconteceriam assim, de maneira tão simples. Certamente haveria complicações!           O conceito do quarto do pânico é óbvio e já bastante difundido: constrói-se um cômodo em local de fácil acesso, com portas reforçadas, isolamento acústico e blindagem nas paredes, teto e piso; instalam-se monitores, para mostrar as imagens das ...

Cidade das Mulheres: cinema em estado puro!

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Cidade das Mulheres: direção de Federico Fellini AH, O FASCÍNIO PELO SER FEMININO! As mulheres sempre foram – e sempre serão – o assunto principal dos homens. Política, religião e futebol são divertidos e oferecem farta munição para os debates acalorados nas mesas dos bares; ao contrário do mulherismo, no entanto, tais assuntos podem ser facilmente sistematizados, estudados e compreendidos. Entre copos de cerveja e doses seguidas de Steinhaeger, costumávamos, meus amigos e eu, todos com vinte anos, travar acirradas batalhas verbais para tentar garantir a salvação do mundo que herdaríamos. Mas quando as mulheres entravam em discussão, nunca era no plenário; era no final da noitada, com o amigo da cadeira ao lado, em voz baixa, confessional e pastosa de tão etílica.           Cada amigo tinha uma inclinação diferente. Júlio era predador. Álvaro era colecionador. Jorge era romântico. É bem verdade que todos nós, em proporções diferentes, éramos compostos dos m...

A Morte Lhe Cai Bem: humor negro e computação gráfica

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A Morte lhe Cai Bem: direção de Robert Zemeckis UM FILME À FRENTE DO SEU TEMPO! Em 1992, minha calvície ainda não dava sinais de que sairia vencedora. Precisava ir de vez em quando ao barbeiro – geralmente nas manhãs de sábado – para dar aos cabelos algum corte que me salvasse a aparência. Era sentar-me na cadeira e pronto: alguém jogava nas minhas mãos um exemplar da Revista Caras, para que me distraísse com a vanglória dos ricos e famosos. Num mundo sem celulares e sem redes sociais, publicações desse tipo eram as únicas janelas disponíveis para quem desejasse bisbilhotar a vida alheia. Com o advento da internet, o jogo virou: todo mortal agora pode manter a pose e se camuflar de celebridade.           Em tempos analógicos, havia duas possibilidades: ou você estava nas páginas de Caras, ou não estava. Se estivesse, era um vencedor; se não estivesse, que continuasse tentando. Hoje, as possibilidades são infinitas, já que todas as páginas na internet podem ...

Josey Wales, o Fora da Lei: um western revisionista

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Josey Wales, o Fora da Lei: direção de Clint Eastwood NARRATIVA VISUAL ENXUTA E MODERNA Estava com dezesseis anos quando entrei no cinema para assistir a Josey Wales, o Fora da Lei , filme de 1976 dirigido por Clint Eastwood. O astro de Hollywood tinha o nome colado ao cinema de ação e o gênero western já me soava desinteressante – naquela época já me considerava um cinéfilo exigente, com horas de voo suficientes para lançar olhos de predador sobre os filmes em cartaz. Então, reparei que o nome de Clint Eastwood aparecia duas vezes nos créditos: como ator e como diretor. Como não havia opção melhor para aquele sábado à tarde, encontrei aí uma boa desculpa para conferir.           O filme ao qual assisti naquele dia era envolvente e oferecia certa densidade dramática. Era recheado de violência e se agarrava a fortes valores morais. A fotografia era sombria e o visual flertava com o realismo. E o mais curioso: tinha algo de moderno, ainda que revirasse uma hi...

Presságio: mistério, catástrofe e muita ação

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Presságio: direção de Alex Proyas OS DOIS PRIMEIROS ATOS FUNCIONAM. O ÚLTIMO É UMA BOBAGEM! Na juventude, fui um cinéfilo mais criterioso. Só entrava numa sala de exibição se o filme valesse o preço do ingresso. Além disso, tinha que escolher entre uma lista reduzida de títulos – Curitiba contava com dezena de cinemas, onde os lançamentos ficavam em cartaz por poucas semanas. Para decidir com sabedoria onde gastar meu suado dinheirinho, a solução era vasculhar os cadernos de cultura dos jornais e as revistas especializadas; lia muito sobre cinema e quando me sentava na plateia, já sabia o que esperar.           Hoje, a oferta de filmes beira o infinito. Nas plataformas de streaming, o valor da assinatura é o mesmo, caso você assista a um único filme por mês ou a cinco por dia! Tornei-me um cinéfilo mais impulsivo. Aperto o play com facilidade, pois sei que posso mudar de ideia ao primeiro sinal de arrependimento. Foi com esse espírito armado que comecei a a...

As Pontes de Madison: amor romântico e maduro

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As Pontes de Madison: direção de Clint Eastwood O FILME ELEVOU O ALCANCE DO LIVRO As Pontes de Madison nasceu como livro. Não um livro qualquer, mas um estrondoso sucesso comercial que chacoalhou o mercado editorial dos anos 1990, quando virou best seller instantâneo; até hoje, já foram impressos mais de 50 milhões de exemplares em todo o mundo. A quantidade, porém, passou longe de validar a qualidade: os críticos torceram o nariz, dadas a falta de substância literária e a pouca profundidade dos personagens. O autor, Robert James Waller, falecido em 2017, jamais se deixou perturbar pelas críticas negativas; escreveu outros romances que também entraram para as listas dos mais vendidos e ajudaram a consolidar sua carreira. Fenômeno comparável aconteceu com Cinquenta Tons de Cinza , romance da inglesa Erika Leonard James, que explodiu em sucesso nos anos 2010 – esse acendeu uma chama erótica bem mais intensa do que aquele, entretanto, reduziu ainda mais a qualidade literária.   ...

De Olhos Bem Fechados: uma jornada erótica, onírica e fantasiosa

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De Olhos Bem Fechados: direção de Stanley Kubrick SEXO, MELANCOLIA E VAZIO EXISTENCIAL Em vida, Stanley Kubrick permaneceu confinado ao século XX; concluiu seu último filme, De Olhos Bem Fechados , em 1999, cinco dias antes de sofrer um ataque cardíaco letal. Sua odisseia criativa, entretanto, o levou a visitar outros séculos, enquanto estabelecia os mais altos padrões de excelência para o fazer cinematográfico. Assistir ao seu filme de despedida – só os espectadores têm consciência dessa condição, já que o cineasta não dava qualquer sinal de que pretendia baixar a guarda – é também um exercício de nostalgia; ficaremos em definitivo sem seus planos geometricamente precisos, seus movimentos de câmera calculados, seus cenários minuciosos, sua iluminação controlada fóton por fóton, sua habilidade em usar a música erudita... Stanley Kubrick fez cinema para a posteridade e seus filmes ainda têm muito a dizer para os cinéfilos do século XXI.           De Olhos Be...

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