Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Thriller

Coração Satânico: desconfortável e assustador

Imagem
Coração Satânico: direção de Alan Parker CINEMA COM SINTAXE DE PURO PESADELO Não sei se já aconteceu com você, mas comigo é frequente: assisto a um filme tantas vezes, em partes, por inteiro, pausadamente... Até que meu objeto de estudo se esfarela em banalização. Vira massa homogênea de obviedades, que decido deixar descansando, coberta por um pano de prato, antes de levar ao forno. E fica lá, esquecida, até que decido retomar de onde parei. É quando recupero a memória e me dou conta dos motivos que me levaram a ver, rever, pausar, adiantar, voltar... Meu Deus! Como pude esquecer um filme desses? Nada tem de banal. Nem de óbvio! Coração Satânico , filme de 1987 dirigido por Alan Parker é desse tipo de filme. Gosto de saboreá-lo de tempos em tempos, aproveitando que já virou lembrança embaçada na minha mente de cinéfilo – talvez para ter a sensação de estar aproveitando uma iguaria recém-saída do forno.           Ah, quando chegou às salas de cinema, Coração Satânico exalava novidade!

Amnésia: sem memória recente, não há realidade

Imagem
Amnésia: direção de Christopher Nolan DELÍRIOS SOBRE FOTOS, ANOTAÇÕES E TATUAGENS Sabe quem está enfrentando problemas para lidar com memórias recentes? O mundo! Quando deixamos embolorar as páginas da história, só conseguimos ler aquelas escritas há pouco. Ontém, enxergávamos as de uma década. Antes disso, as de 50 anos, um século, duzentos anos... Atualmente, parece que só as dos últimos cinco anos são legíveis. Quer um exemplo? Vou dar um muito bobo, mas simbólico. Quando era rapaz, adorava ouvir rock e fingir que estava tocando a guitarra na hora do solo. Fazia caras e bocas e me divertia. Chamava isso de... fingir que estava tocando guitarra. Os jovens que me sucederam batizaram a prática de Air Guitar – chegaram a criar concursos e campeonatos mundiais da modalidade! Os jovens que sucederam a esses jovens, se esqueceram desse nome criativo. Outro dia tropecei num post na rede social, onde um deles dizia gostar de... fingir que está tocando guitarra na hora do solo! O que foi que

Sangue e Ouro: uma espécie de western germânico

Imagem
Sangue e Ouro: direção de Peter Thorwarth CONTRIBUIÇÃO DOS ALEMÃES PARA O CINEMA DE AÇÃO Os filmes de bangue-bangue espaguete foram uma invenção inusitada no início dos anos 1960. Rodados na Sicília e na Espanha por diretores italianos em busca da mesma atmosfera dos westerns americanos, trouxeram um sopro de renovação para o gênero, além de toques de um humor mais... mediterrâneo. E trouxeram também a certeza de que outras nacionalidades poderiam ousar seus próprios faroestes, apropriando-se dos clichês narrativos consolidados por cineastas como Sergio Leone e seus seguidores.           Dentre todos os países, o mais improvável de tal ousadia seria a Alemanha. Não por incompetência, é claro! Seu cinema de peso e repleto de contribuições significativas para a construção da sétima arte está nítido na mente de todo cinéfilo. Mas porque é dos alemães que nos costumam chegar algumas das produções mais compenetradas. Títulos como Metrópolis , O Enigma de Kaspar Hauser e Asas do Desejo  , j

Atirador: ação ágil, envolvente e catártica

Imagem
Atirador: direção de Antoine Fuqua TEM COISAS QUE SÓ CONSEGUIMOS RESOLVER A BALA! Depois de um dia intenso de trabalho, são diversos os motivos que nos fazem deitar no sofá e assistir a um filme. O mais comum é a busca por diversão – que tal qual a busca pela felicidade, é sempre uma jornada individual. Porém, às vezes, levamos sorte e topamos com cinema de qualidade, aquele que surpreende e entrega mais do que mero entretenimento. Traz reflexões, provocações, dúvidas, elevação intelectual, regozijo estético... Atirador , filme de 2007 dirigido por Antoine Fuqua, definitivamente não é esse tipo de filme. Mas traz um bônus valioso: catarse!           Não me refiro ao efeito que os psicólogos adoram provocar nos seus pacientes, cutucando o inconsciente para fazer jorrar as emoções traumáticas que ficaram represadas desde a infância. A catarse aqui é justamente aquela aristotélica, que tem função purificadora e purgatória, usada desde a tragédia grega para trazer alívio ao espectador, liv

Treze Dias Que Abalaram o Mundo: a crise dos mísseis cubanos

Imagem
Treze Dias Que Abalaram o Mundo: direção de Roger Donaldson POLÍTICA É UM PROBLEMA, MAS TAMBÉM É A SOLUÇÃO! John F. Kennedy foi aquele presidente americano que teve um caso com a loira Marilyn Monroe e acabou morto enquanto passeava de conversível com a Jaqueline Onassis, ao levar um tiro na cabeça disparado por Lee Harvey Oswald. Resumi de forma tosca? Sim! Mas é praticamente tudo o que o grande público de hoje guarda na memória sobre um dos presidentes mais populares dos Estados Unidos. É curioso como ninguém mais se refere a esse personagem glamouroso como um político. Como tal, era dado a politicagens e badalações, mas sua curta carreira não foi uma festa permanente. Kenedy precisou lidar com o estresse de um dos episódios mais tensos da Guerra Fria. É assim que ele aparece em Treze Dias Que Abalaram o Mundo , filme de 2000 dirigido por Roger Donaldson.           O filme vai se esgueirando pelos bastidores da crise dos mísseis de Cuba, que em 1962 colocou o mundo à beira de uma gue

O Pacto: será uma história é real?

Imagem
O Pacto: direção de Guy Ritchie NÃO SENTI FALTA DA TRADICIONAL EXTRAVAGÂNCIA DO DIRETOR No agitado mundo dos filmes de ação, o diretor britânico Guy Ritchie é uma usina de criatividade a serviço da diversão e do entretenimento. Desde que surgiu em 1998 com seu ótimo Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes , dirigiu vários sucessos, entre eles Sherlock Holmes , Snatch: Porcos e Diamantes , O Agente da U.N.C.L.E. e mais recentemente, Esquema de Risco - Operação Fortune . A narrativa sempre ágil e envolvente, os letreiros invadindo a tela, os diálogos afiados e o humor inteligente se tornaram suas marcas registradas. Esperava ver todos esses elementos reunidos em O Pacto , filme que ele dirigiu em 2023, mas não! Ao invés disso, assisti a um thriller de guerra compenetrado, com boa profundidade dramática, um enredo sólido e altas doses de tensão.           Devo dizer que a tradicional extravagância de Guy Ritchie não faz a menor falta em O Pacto . Ao invés dela, o diretor preferiu ressalt

Vidas em Jogo: thriller envolvente com a grife David Fincher

Imagem
Vidas em Jogo: direção de David Fincher O JOGO MAIS ESTIMULANTE É AQUELE ENTRE O DIRETOR E O ESPECTADOR Onde estava em 1997? Deixe-me ver... Estava aqui mesmo, em Curitiba. Ocupado demais tentando ganhar a vida numa agência de publicidade que acabara de fundar com outros dois sócios. A paixão pelo cinema estava em segundo plano, dadas as circunstâncias estressantes – a ousadia de virar empresário cobrava seu preço e os filmes viraram artigo de luxo, presentes apenas nos poucos momentos em que podia relaxar. Numa época sem internet e com a TV a cabo recém-nascida, acompanhar as novidades do cinema era uma dificuldade. Por isso não assisti a Vidas em Jogo , dirigido naquele ano por David Fincher. Por isso nem sequer tomei conhecimento da existência desse filme.           – Mas que cinéfilo de araque – diriam os enciclopédicos, diante das minhas desculpas esfarrapadas. Ao invés disso, prefiro dizer que sou um cinéfilo redimido! Dia desses, zapeando pelo serviço de streaming, tropecei no t

O Plano Perfeito: enaltecendo a esperteza de um reles ladrão

Imagem
O Plano Perfeito: direção de Spike Lee O DIRETOR FICOU REFÉM DE UM ROTEIRO IMPERFEITO Um assalto à filial de um grande banco em Nova Iorque, que envolve reféns e acaba se tornando um espetáculo midiático, mexe com a imaginação dos nova-iorquinos. Não, não se trata de Um Dia de Cão , dirigido em 1975 por Sidney Lumet. O objeto desta crônica é O Plano Perfeito , dirigido em 2006 por Spike Lee. Apesar das referências – e da franca homenagem ao trabalho de Lumet – esse filme traz diferenças substanciais. Ao invés de partir de um evento destrambelhado para nos revelar personagens complexos, destrincha uma sequência de acontecimentos bem planejados, sem se preocupar em investigar os personagens para além das camadas epidérmicas. É um thriller policial ágil e envolvente, estrelado por nomes famosos, mas sem fôlego para deixar a sala de cinema. Vale o preço do ingresso, porém oferece conteúdo esquecível.           É verdade que este cronista tem uma certa implicância com histórias que enaltece

Os Infiltrados: Scorsese finalmente pôs as mãos num Óscar

Imagem
Os Infiltrados: direção de Martin Scorsese UMA TRANSPOSIÇÃO CULTURAL E CINEMATOGRÁFICA Conflitos Internos , dirigido em 2002 pela dupla Andrew Lau e Alan Mak foi um estrondoso sucesso em Hong Kong. Filme de ação, bem ao gosto do público asiático, traz aquele tipo de cinema frenético e estilizado, produzido em grande escala para proporcionar entretenimento descartável. Com toques de melodrama, conta a história de dois personagens em lados opostos da lei. Um é policial e se infiltra no crime organizado, para tentar acabar com a festa dos bandidos. O outro foi recrutado pelo crime organizado, para se tornar policial e tentar proteger os interesses dos bandidos. A existência de ambos é descoberta, mas não suas identidades. O jogo que se inicia, então, é aquele de gato e rato, com direito a lances violentos e todo tipo de dissimulações, até que um deles seja desmascarado por primeiro e eliminado.           O ator Brad Pitt se uniu ao produtor Brad Gray e os dois compraram os direitos dessa

Inimigo Íntimo: o último filme de Alan J. Pakula

Imagem
Inimigo Íntimo: direção de Alan J. Pakula CINEMA SUFICIENTE PARA COMPORTAR DOIS PROTAGONISTAS O diretor americano Alan J. Pakula realizou uma extensa filmografia, mas é lembrado de imediato por títulos como Todos os Homens do Presidente e A Escolha de Sofia , que alcançaram lugar de destaque entre os grandes filmes de Hollywood. Sua última obra foi Inimigo Íntimo , realizada em 1997, um ano antes da sua morte. Na época do seu lançamento, o filme veio cercado de polêmicas, alimentadas pela mídia em torno de uma suposta guerra de egos travada nos bastidores pelos astros Brad Pitt e Harrison Ford. Se ela aconteceu, evaporou-se em irrelevância, passando despercebida pelos cinéfilos que hoje visitam o filme para fruir seu cinema de qualidade e sua história muito bem contada.           Porém, quero mencionar aqui o embate entre os atores, porque talvez ele tenha contribuído para deixar essa história envolvente ainda mais densa. Os críticos especializados costumam ressaltar as qualidades do

A Viatura: respiramos a mesma atmosfera dos westerns spaghetti

Imagem
A Viatura: filme dirigido por Jon Watts UM CONTO CRIADO PARA AS TELAS, FILMADO COM NATURALIDADE Procurar um filme para assistir no serviço de streaming é uma atividade arriscada. Por mais que os algoritmos se esforcem para “adivinhar” suas preferências, eles acabam indicando uma diversidade muito grande de filmes. Alguns são facilmente descartáveis, a maioria não empolga e alguns poucos atiçam a curiosidade. Mas há aqueles que nos põem diante de um dilema: a sinopse é de filme B, mas a embalagem insinua que pode haver algum cinema que se aproveite. Foi essa a minha dúvida quando dei de cara com A Viatura , filme de 2015 dirigido por Jon Watts. Motivado pela presença do ator Kevin Bacon, decidi correr o risco, mas segui temeroso de que assistiria apenas a cenas de ação desenfreada e violência gratuita. Para minha satisfação, não foi nada disso! O filme é bem realizado e traz uma história formatada para as telas com precisão, onde a narrativa visual fluente remonta à atmosfera de tensão

As Duas Faces de um Crime: o final é surpreendente

Imagem
As Duas Faces de um Crime: direção de Gregory Hoblit A PRESENÇA MEMORÁVEL DE UM COAJUVANTE TALENTOSO Nos anos 1990, a indústria cultural fabricava um produto com grande saída junto ao público americano: o telefilme. O formato era um pouco diferente daquele adotado nas produções para o cinema. A estrutura dos atos era construída de modo a acomodar os vários intervalos comerciais, deixando espaço para que os patrocinadores pudessem vender seus peixes. As cenas e sequências eram captadas em planos mais próximos, privilegiando closes dos atores, para que ficassem mais visíveis nas telinhas da TV. E os temas eram apresentados com dramaticidade atenuada, já que, em casa, os sofás das salas estavam ocupados por famílias inteiras. Telefilmes eram produtos de segundo escalão, mas nem por isso menos populares. Um diretor que se adaptou muito bem ao formato, tornando-se um dos principais nomes da TV dos Estados Unidos, foi Gregory Hoblit. Quando migrou para a tela grande, estreou com um estrondos

O Espião Inglês: história real de um homem comum colhido pela guerra fria

Imagem
O Espião Inglês: direção de Dominic Cooke UM THRILLER ORIGINAL E MEMORÁVEL Serviços investigativos sempre me deixam esgotado. O pior deles é sentar diante da TV e investigar a oferta nos serviços de streaming, até encontrar um bom filme. Na maioria das vezes acabo me detendo num título conhecido, ao qual já assisti uma ou duas vezes, mas que é confiável o bastante para garantir momentos de agradável entretenimento. Raramente me deparo com algo novo, que desperte minha empolgação. Outro dia tive sorte: encontrei a capa de O Espião Inglês , dirigido em 2020 por Dominic Cooke, onde reconheci a foto do ator Benedict Cumberbatch.           – Esse talvez valha a pena conferir! – pensei, enquanto dedilhava no celular em busca de mais informações.           Foi um grande erro! Caí num desses sites de cinema apressados, que pautam suas críticas por algum viés ideológico, onde rotularam esse filme como... esquecível. Apesar de envolvente, dizem eles, não inova. Senti-me provocado. Fui para outro

Siga a Crônica de Cinema