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Mostrando postagens com o rótulo Comédia Dramática

Cidade das Mulheres: cinema em estado puro!

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Cidade das Mulheres: direção de Federico Fellini AH, O FASCÍNIO PELO SER FEMININO! As mulheres sempre foram – e sempre serão – o assunto principal dos homens. Política, religião e futebol são divertidos e oferecem farta munição para os debates acalorados nas mesas dos bares; ao contrário do mulherismo, no entanto, tais assuntos podem ser facilmente sistematizados, estudados e compreendidos. Entre copos de cerveja e doses seguidas de Steinhaeger, costumávamos, meus amigos e eu, todos com vinte anos, travar acirradas batalhas verbais para tentar garantir a salvação do mundo que herdaríamos. Mas quando as mulheres entravam em discussão, nunca era no plenário; era no final da noitada, com o amigo da cadeira ao lado, em voz baixa, confessional e pastosa de tão etílica.           Cada amigo tinha uma inclinação diferente. Júlio era predador. Álvaro era colecionador. Jorge era romântico. É bem verdade que todos nós, em proporções diferentes, éramos compostos dos m...

Crítica | O Artista: Michel Hazanavicius fez um filme mudo eloquente e emocionante. Mais que isso, fez uma obra de arte!

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O Artista: direção de Michel Hazanavivius CINEMA NUM FORMATO HÁ MUITO ABANDONADO O Artista , dirigido em 2011 por Michel Hazanavicius, é um filme mudo; tem formato de tela mais estreito e é inteiro em preto e branco. Ou seja, é um filme como aqueles feitos até o final dos anos 1920. Um cinéfilo distraído talvez não se dê conta de que se trata de um produto do século XXI; o ritmo, os enquadramentos, a iluminação, a performance dos atores... Tudo parece genuíno, até que começamos a reconhecer alguns atores e atrizes frequentadores de filmes mais modernos. A grande pergunta que fica, então, é: por que raios alguém gastaria seu tempo realizando um filme... mudo? Uma obra de arte           Quando dei o play em O Artista , já imaginava a resposta: seria por puro experimentalismo. Esperei ansioso pelo momento em que tudo viraria um divertido exercício de metalinguagem, com tiradas inteligentes sobre o próprio fazer cinematográfico e sobre a evolução técnica que no...

Crítica | Melhor É Impossível: como numa sitcom, James L. Brooks nos apresenta a personagens com trajetórias previsíveis

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Melhor É Impossível: direção de James L. Brooks CINEMA COM SOTAQUE DE SITCOM Tenho preguiça de assistir a certos filmes. Talvez seja puro preconceito, ou rabugice, sei lá! N o caso de Melhor É Impossível , filme de 1997 dirigido por James L. Brooks, o que me fez evitá-lo por anos foi  a foto no pôster promocional, mostrando a estampa cínica de Jack Nicholson com um cãozinho nos braços. Além disso, havia aquela curta explicação de que ele interpreta um escritor nova-iorquino antissocial e repugnante. Some-se a reputação de James L. Brooks como diretor e roteirista de séries para a TV – é o nome por trás de Os Simpsons – e a presença de uma Helen Hunt com brilho contido. Pronto! Intuí todo o enredo! Deduzi o arco do protagonista          Continuei meu raciocíio: é  claro que James L. Brooks tem experiência de sobra e se decidiu se aventurar no cinema, é porque tem um belo texto escondido na manga! A presença de Jack Nicholson também diz muito; que outro...

Crítica | Os Rejeitados: Alexander Payne realiza mais uma comédia dramática ancorada no ótimo desempenho de Paul Giamatti

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Os Rejeitados: direção de Alexander Payne UM BELO EXEMPLAR DE COMÉDIA DRAMÁTICA Numa comédia dramática, o mais importante é aquilo que os anglo-saxões chamam de “timming”. Se o diretor se descuidar, num estalar de dedos, o molho pode desandar!  No filme Os Rejeitados , dirigido em 2023 por Alexander Payne, o molho é saboroso e saciou o meu apetite por cinema de qualidade. Trata-se de uma comédia dramática sensível e envolvente, nos moldes do que o cineasta já nos ofereceu em outros filmes, como Pequena Grande Vida , Sideways - Entre Umas e Outras e As Confissões de Schmidt . Indicado para o Óscar, saiu da festa com a estatueta de melhor atriz coadjuvante, para Da'Vine Joy Randolph. Nos serviços de streaming , é um prato cheio para quem busca uma história fictícia, mas baseada em personagens verossímeis e bem construídos. Vamos examinar a sinopse: Sinopse: tomando conta dos rejeitados           Ambientado em 1970, o filme conta a história de Paul Hunha...

Crítica | Ficção Americana: Cord Jefferson faz um elegante exercício de cinema e acerta logo no seu primeiro longa

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Ficção Americana: dirigido por Cord Jefferson CINEMA ENVOLVENTE, ELEGANTE E INTELIGENTE Com o olhar difuso, miro algum ponto focal dentro da minha mente e bebo outro gole de café. Tal gesto mecânico denuncia: opero no modo divagação, enquanto tento preencher a tela em branco do computador. Desta vez, meu esforço é para compreender os fatores críticos que me trouxeram até aqui e determinaram a vida que levo; que estabeleceram quem sou, o que tenho, o que posso, o que me resta... Gostava de pensar que a minha inteligência está no ponto zero; a partir dela, tudo o mais se deriva: meus desejos, meus humores, meus amores, minhas capacidades, meus talentos... Em razão disso, cultivar conhecimento e exercitar os neurônios sempre foram essenciais no meu modo de vida.           Com a idade, percebi que nem todos se medem pela mesma régua. Alguns elegem a fé como ponto zero, outros, escolhem a sensualidade. Há quem considere mais importante ter e exercer o poder, que...

Campeões: um remake à altura do original espanhol

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Campeões: direção de Bobby Farrelly AUTÊNTICOS, DESCOLADOS E HILÁRIOS – Ora, isso vai ser politicamente incorreto! Ou não? Talvez caia na lacração! O que acha de apertar o play e conferir?           – Já topei! – Ludy não ligou para minha hesitação. Sentiu-se à vontade com a foto promocional de Campeões , filme de 2023 dirigido por Bobby Farrelly, com o qual tropeçamos no serviço de streaming . Minha mulher se deixou levar pela curta sinopse e pela promessa de assistir a uma comédia leve e engraçada. Quanto a mim, impliquei com o nome do diretor, um dos irmãos Farrelly, responsáveis por comédias escrachadas de grande sucesso, mas contaminadas de besteirol, como Debi & Loide , Quem Vai Ficar com Mary? e Eu, Eu Mesmo & Irene . Se bem que seu irmão, Peter, já havia feito uma incursão bem-sucedida pelo universo dos filmes mais... sérios, ao dirigir o excelente Green Book: O Guia . Talvez Bobby tivesse gostado da ideia! Mais um remake hollywoodiano de ...

Crítica | Crescendo Juntas: Kelly Fremon Craig faz a adaptação do livro de Judy Blume e agrada as fãs do mundo inteiro

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Crescendo Juntas: direção de Kelly Fremon Craig A ATEMPORALIDADE DA ADOLESCÊNCIA Sou brasileiro, tenho 65 anos, casado, pai de família... Um sujeito comum, nascido e crescido no habitat conservador que moldou os homens da minha geração. Que raios fazia sentado no sofá da sala, diante do filme Crescendo Juntas , dirigido em 2023 por Kelly Fremon Craig? Nos primeiros minutos me senti um alienígena em visita a um planeta esquisito, mas o desconforto passou ligeiro; como cinéfilo inveterado, senti o cheiro de bom cinema e tratei de aproveitar. Que filme delicioso! Hollywood ainda sabe fazer filmes deliciosos           Optei por escrever tal introdução para deixar claro que esse filme diz respeito ao universo feminino e que os homens – e os meninos! – talvez não se disponham a visitá-lo. Diante da TV, dividi o sofá com Ludy e agora posso dar meu testemunho: já nem lembrava mais que Hollywood era capaz de produzir filmes assim, tão sensíveis, leves, refrescantes,...

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