Crítica | Milagre da Cela 7: é o cúmulo da pieguice!

O Milagre da Cela 7: filme dirigido por Mehmet Ada Öztekin
NÃO HÁ MILAGRE QUE SALVE ESSE FILME
Se o filme Milagre da Cela 7, dirigido em 2019 por Mehmet Ada Öztekin fosse mexicano, bastaria classificá-lo como mais um daqueles dramalhões caricatos que já fazem parte do anedotário popular. Como se trata de um filme turco – remake de um filme coreano com o mesmo nome – prefiro enquadrá-lo como uma obra contaminada de pieguice. Sei que muitos cinéfilos compram de imediato o apelo fácil de colocar em cena dois personagens fofos e submetê-los às mais violentas injustiças, para que só no final encontrem as recompensas por tanto sofrimento. Como as lágrimas vêm fartas, o consideram emocionante. Aqui, porém, a emoção é circunstancial e rasa. Não emerge das profundezas de personagens transformados pelo contexto dramático; tudo se resume a uma maçaroca de tristeza, raiva e sofrimento.Dois protagonistas estereotipados
Os dois personagens fofos que protagonzam Milagre da Cela 7 são Memo e sua filhinha encantadora, Ova. O primeiro é um adulto cujo déficit cognitivo o coloca no mesmo nível de maturidade de uma criança de cinco anos. O ator que o interpreta, Aras Bulut Iynemli, construiu seu personagem para ser apenas isso mesmo: um adulto retardado; atua de forma caricata e não consegue comunicar nada além de inocência e ingenuidade. A garotinha encantadora Nisa Sofiya Aksongur, que interpreta Ova, tem olhos tão tristes que nos deixam penalizados. Sem a menor cerimônia, o diretor usa sua estampa luminosa o tempo todo, justamente para que, na plateia, continuemos sempre penalizados.
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Milagre da Cela 7: excesso de sentimentalismo, sem consistência dramática
Sucessão de clichês
O roteiro assinado por Kubilay Tat e Özge Efendioglu é rudimentar. Desfia uma sequência de cenas lineares, articuladas de forma maniqueísta, para apresentar uma série de estereótipos previsíveis: o militar autoritário e desumano, a avó sabia e sofredora, a professorinha meiga e generosa, os carcereiros desalmados, os prisioneiros nefastos... Para complicar, os roteiristas não têm escrúpulo algum em manipular o espectador: esticam o final da trama com cenas dúbias, só para criar algumas oportunidades a mais de levá-lo às lágrimas.
Uma história inverossímil
É tanto sofrimento em sequência, e tamanha desesperança a cada revés, que chegamos a acreditar que o tal milagre prometido ocorrerá pela intervenção divina, numa cena improvisada, nos moldes daquelas antigas gambiarras teatrais conhecidas como Deus ex Machina. Mas não! A conversão milagrosa de todo o núcleo malvado da trama acontece de repente, quando todos são tocados pela força da inocência e da ingenuidade dos personagens principais. Um resultado inverossímil, para dizer o mínimo. Tudo para trazer redenção e alívio, num final feliz.
Milagre da Cela 7: só sofrimento, do começo ao fim
Cinema apelativo
Ao contrário do que ouvi por aí, Milagre da Cela 7 não é um filme edificante. Seus ensinamentos morais não são novidade nem mesmo para crianças em idade pré-escolar. Não há esforço de superação dos personagens, que permanecem o tempo todo passivos, à espera do tal milagre. Tudo o que o diretor consegue é nos confrontar com a injustiça; nos faz sentir pena, raiva e vontade de que o final chegue de uma vez por todas. Mehmet Ada Öztekin é um diretor sem receio de usar e abusar dos clichês. E faz isso o tempo todo, ao som de uma trilha sonora apelativa e nada sutil. Seus planos enquadram personagens pensativos, que encaram o vazio sem insinuar qualquer subtexto. E demoram mais que o necessário. O diretor mostrou que prefere conjugar o verbo “dramatizar” ao pé da letra em todas as cenas
Um filme para ser evitado
Milagre da Cela 7 é uma obra irrelevante. Descer a lenha num filme como esse chega a ser catártico! Agora que me sinto mais tranquilo, consigo me lembrar qual foi a última vez em que assisti a um personagem tão brutalmente maltratado, a ponto de me deixar penalizado, em total estado de empatia com a trama. Foi quando assisti a John Wick – De Volta ao Jogo. Doeu muito ver o cachorrinho do protagonista ser morto com brutalidade, mas pelo menos os desalmados que fizeram isso receberam o troco! Se você quer de dicas de bons filmes, que realmente valham a pena, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!Veredito da crônica de cinema
★☆☆☆☆(1 / 5 estrelas)
O que brilha: muito pouco. Talvez algumas poucas cenas bem fotografadas.
O que decepciona: quase tudo. E a culpa, certamente, é do diretor.
Esqueça. Há opções melhores nas plataformas de streaming.
Ficha técnica do filme Milagre da Cela 7
Ano de produção: 2019
Direção: Mehmet Ada Öztekin
Roteiro: Kubilay Tat e Özge Efendioglu
Elenco:
- Aras Bulut İynemli
- Nisa Sofiya Aksongur
- Celile Toyon
- İlker Aksum
- Mesut Akusta
- Deniz Baysal
- Yurdaer Okur
- Sarp Akkaya
- Yıldıray Şahinler
- Deniz Celiloğlu
- Ferit Kaya
- Serhan Onat
- Emre Yetim
- Gülçin Kültür Şahin
- Cankat Aydos
- Doğukan Polat
- Hayal Köseoğlu
Assisti Milagre da Cela 7, mas a versão coreana. E confesso que gostei. Concordo que é um filme de emoção fácil. Ainda assim o considerei uma boa diversão para domingo à tarde. Abraço!
ResponderExcluirSim, Jorge! É uma boa diversão. Assisti ao filme inteirinho! Pelo título e pela construção inicial do filme, já sabemos que o personagem vai se dar bem no final, então, é relaxar e curtir. No meu caso, o problema é depois do filme, na hora de analisar a forma além do conteúdo. Abtração!
ResponderExcluirNão consegui passar dos 30 minutos de filme e nem quero. Um boa sujestão de cinema turco é o intrigante Sono de inverno.
ResponderExcluirAh, muito obrigado pela dica. Vou ver!!!!
ExcluirConcordo com você. Não consegui ir até o fim por ser extremamente apelativo.
ResponderExcluirAh, como sou teimoso, fui até o final, até mesmo para poder escrever sobre o filme depois!!!!
ExcluirConcordo que é muito apelativo mas, para uma sessão da tarde é um dramalhão como muitos que passam na Globo. 😃😃😃😃
ResponderExcluirAh, de fato, não podemos ter nada contra os dramalhões, desde que saibamos manter o espírito crítico.
ExcluirÀs vezes, precisamos apenas de histórias mesmo que pouco verossímeis. Eu, ao contrário, não adivinhem o fim logo no começo. Fiquei esperando mais e mais sofrimento. Mas o final feliz realmente é pouco cível mas o título já diz. Só por um milagre mesmo!
ResponderExcluirTem razão! No final, o que resta é mesmo o conceito do milagre! O final feliz é um alento.
ExcluirApesar de ser óbvio, eu gostei do filme, não é meu estilo, mas esse tem lá seus encantos.
ResponderExcluirO filme é eficiente em pôr as cartas na mesa e focalizar no sofrimento dos seus personagens. Como sabemos que haverá um milagre, ficamos envolvidos e dispostos a ir até o final. É onde encontramos o encantamento.
ExcluirEu assisti e gostei. Tem muito exagero ali mesmo. Muito de inverossímil. Mas de vez em quando história com rostinhos ingênuos ajudam a gente a ver o tempo passar em meio a tantas verdades ou mentiras incômodas . Às vezes, derramar lágrimas ajuda a por.para fora tristezas antigas ou recentes
ResponderExcluirConcordo. Acho que essa é uma das funções do cinema: nos pôr em sintonia com as nossas emoções!!
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