Crítica | Perfume de Mulher: Al Pacino em grande atuação, num remake repleto de cenas memoráveis

Cena do filme Perfume de Mulher
Perfume de Mulher: filme dirigido por Martin Brest

QUANDO UM CEGO CONSEGUE ENXERGAR A SI MESMO

Dia desses, estava divagando sobre a busca pelo autoconhecimento –tema que volta e meia ressurge na mídia – quando me lembrei de Perfume de Mulher, dirigido em 1992 por Martin Brest. Trata-se de um filme famoso, cujos detalhes estão disponíveis com fartura na internet, ao alcance de poucos cliques. Basta mencionar o título para que os cinéfilos atentos visualizem a memorável cena do tango, onde Gabrielle Anwar e Al Pacino dançam ao som de Por Una Cabeza. O protagonista angustiado, que se exibe para a garota e tenta superar as limitações da cegueira, na verdade está em busca de respostas para um questão crucial: ainda vale a pena estar vivo?

Dois filmes baseados no mesmo romance

        Perfume de Mulher narra uma jornada desesperada em busca pelo autoconhecimento. Mas antes de continuar minha divagação, quero lembrar que se tratam de dois filmes, o Perfume de Mulher de 1974, realizado por Dini Risi e esse de remake 1992, dirigido por Martin Brest. O filme italiano foi estrelado por Vittorio Gassman e o americano por Al Pacino. Ambos têm origem no romance A Escuridão e o Mel, escrito pelo jornalista Giovanni Arpino, que colaborou no roteiro do primeiro filme. A sinopse é conhecida: um militar, aposentado depois do acidente que o cegou, parte numa última jornada, para tentar descobrir se ainda há algum motivo para não se suicidar. O jovem que contrata para acompanhá-lo, inexperiente e cheio de vida, é ao mesmo tempo o instrumento e o entrave para a concretização dos seus planos.

Cena do filme Perfume de Mulher
Perfume de Mulher: dois personagens em busca de autoconhecimento

Personagens que se revelam

        O roteiro parte do desprezo mútuo que brota entre os personagens e estabelece arcos de transformação previsíveis, que se desenham conforme os conhecemos melhor. O militar revela mais conteúdo do que deixa entrever em sua postura arrogante e rabugenta; o jovem desinteressado mostra ter alcance para desligar-se do próprio umbigo e percebe que está, afinal, acumulando experiência de vida. Terminamos capturados pelos dois, enquanto torcemos para que acumulem um bom tanto de autoconhecimento.    

Dois estilos de fazer cinema

        O filme italiano e o norte-americano seguem estilos diferentes. No primeiro percebemos maior intensidade dramática, bem ao gosto da índole latina. No segundo, degustamos um cinema mais fast food, onde o final é feliz e as abordagens psicológicas ficam apenas ao nível comportamental. O diretor Martin Brest segue o protocolo hollywoodiano: nada de ousar nos movimentos de câmera, nos planos, nem no ritmo; suas lentes apontam para os atores e é deles que retiram a essência do filme. 

Cena do filme Perfume de Mulher
Perfume de Mulher: uma coleção de cenas memoráveis

No remake, cenas memoráveis

        Al Pacino está perfeito. Pelo trabalho, ganhou seu Óscar de melhor ator (o que foi justo). Atuou de forma meticulosa e aproveitou todas as brechas para projetar seu carisma e seu talento. Chris O'Donnell soube marcar território e valorizar seu personagem; compreendeu sua função dramática e passou credibilidade. Em seu roteiro, Bo Goldman conseguiu enfileirar várias cenas emblemáticas, entre elas a do tango no restaurante – a impressão é que todos nela envolvidos, no momento em que a realizavam, já tinham a consciência de que ela se tornaria antológica!

Um passo na direção do autoconhecimento

        Ao final do filme, o tenente-coronel Frank Slade, cego depois que uma granada explodiu enquanto fazia uma brincadeira de mau gosto, parece conseguir enxergar melhor a si mesmo. Deu um passo importante na direção do autoconhecimento. O que fará com ele, bem... aí já é spoiler! Apesar de Perfume de Mulher ser um filme bastante conhecido, não vou me arriscar; não pretendo antecipar conclusões. Primeiro, porque são dois filmes, o italiano e o americano – e ambos têm finais diferentes. Segundo, porque muitos leitores vão assistir aos filmes novamente, buscando enxergá-los com ... outros olhos!

Cena do filme Perfume de Mulher
Perfume de Mulher: Al Pacino em grande atuação

Como alguém pode se autoconhecer?

        Encarando-se no espelho e examinando o próprio umbigo? Escavando a própria alma para investigar suas diversas camadas? A resposta é: vivendo! Reagindo ao mundo e tomando decisões cruciais. O problema é que viver sempre será uma aventura incerta. Ninguém garante que seremos confrontados com todas as experienciais necessárias. Alguns não conhecerão a chama do amor romântico, outros sofrerão com a dor da traição. Alguns cometerão erros e pagarão na prisão, outros jamais terão que ser condescendentes ou caridosos. Alguns arriscarão, outros não se atreverão... Quando digo que a resposta está no cinema, alguns duvidam!

Assistindo a um bom filme!

        Sempre defendi que os filmes trazem experiência emocional verdadeira; nos ensinam por meio do exemplo, ao nos confrontar com situações que normalmente não viveríamos no cotidiano. Enquanto assistimos a um filme, nos vestimos com a pele dos mais variados personagens; exercitamos a tal empatia; descobrimos as diferentes formas de reação que podemos ter diante de imprevistos; aprendemos a avaliar quais são as escolhas possíveis e prever que consequências terão... A cada filme, vivenciamos acontecimentos surpreendentes e amadurecemos.

Veredito da crônica de cinema

★★★☆☆(3 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção inteligente de Martin Brest, o roteiro bem costurado de Bo Goldman e a atuação excelente de Al Pacino. 

O que decepciona: a falta de profundidade dos personagens que orbitam o protagonista cobra um preço alto na dramaturgia, que as cenas memoráveis não conseguem compensar.

Vale a pena. É entretenimento de qualidade.

Ficha técnica do filme Perfume de Mulher

Data de produção: 1992
Direção: Martin Brest
Roteiro: Bo Goldman

Elenco:
  • Al Pacino
  • Chris O'Donnell
  • James Rebhorn
  • Gabrielle Anwar
  • Philip Seymour Hoffman
  • Gene Canfield
  • Richard Venture
  • Bradley Whitford
  • June Squibb
  • Frances Conroy
  • Rochelle Oliver
  • Margaret Eginton
  • Tom Riis Farrell
  • Nicholas Sadler
  • Todd Louiso
  • Matt Smith
  • Ron Eldard
  • Margaret Eginton
  • Sally Murphy
  • Michael Santoro
  • Julian e Max Stein
  • Leonard Gaines

Comentários

  1. Muito bom! Muito bem notado. Sempre há algo para se notar nos filmes vistos mais de uma vez.

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    1. Sim, Katia, há filmes que merecem ser vistos mais de uma vez, especialmente aqueles mais densos. E também aqueles muito emocionais, pois cada visitação nos pega num momento diferente.

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  2. Fora do ar por algum tempo, retorno pra aplaudir sua crônica sobre este filme que me encanta toda vez que o assisto. E sim, cada vez o vejo com "outros olhos " 👏👏👏

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    1. Valeu, Elvira!!!!! Perfume de Mulher é assim mesmo: de tempos em tempos tem que ser revisitado!!!!

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  3. PERFUME DE MULHER, esplendoroso...AL PACINO ...mais uma vez, esbanja talento e competência e me parece, que AL PACINO, não usa as lentes de contato para não enxergar, atua sem qq, tipo de artefato para se fazer de INCAPAZ VISUAL...APLAUSOS...AL PACINO um monstro um ícone ...

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    1. Sim, William, penso que o grande talento de Al Pacino não foi o de se passar por cego, mas o de mostrar ao público o que seu personagem está enxergando em seu próprio mundo interno. Ele parece estar, o tempo todo, olhando para dentro de si mesmo!

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  4. Show Pacino de qualidade
    Bom roteiro
    Bem desenvolvido com mensagem positiva ao contrário do original italiano protoganizado por Vittorio Gassman.
    Boa diversão
    Ótimo filme
    Oscar merecido para um verdadeiro mito de intérprete de uma Hollywood cada vez mais difícil com tanto identitarismo cercando a sociedade americana.

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    1. Concordo, Alexander. Um ótimo filme, que entrega o que promete. Traz cenas memoráveis, que entraram para a cultura pop e fizeram brilhar o talento de Al Pacino.

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    2. Adoro a tua capacidade de nos levar a enxergar os detalhes que nos levam a desejar assistir ao filme novamente Obrigada por dividir tua visão

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    3. Ah, sou eu quem agradece!!!! Viva o cinema!

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