Crítica | Rosa e Momo: Sophia Loren irradia emoções verdadeiras num filme envolvente

Cena do filme Rosa e Momo
Rosa e Momo: Edoardo Ponti

CINEMA ITALIANO INTENSO, MADURO E CONDUZIDO COM OBJETIVIDADE

Vez ou outra, enquanto estou concentrado em escrever sobre filmes para alimentar a Crônica de Cinema, Ludy se dedica a uma atividade que me faz contorcer de inveja: ela assiste aos filmes! Aqui em casa, foi minha mulher quem primeiro degustou Rosa e Momo, produção de 2020 lançada pela Netflix; depois, durante nossa caminhada, ela fez um saboroso relato, que me despertou a fome de cinema.
        – Ela está ótima! Tem quase noventa anos e olha... Dá conta do recado – empolgou-se Ludy, descrevendo como a presença magnética da lendária Sophia Loren enriqueceu o filme.
        – Como é mesmo o título?
        – É Rosá e Momô – respondeu Ludy. Caprichou na acentuação para me ensinar a pronúncia correta dos nomes dos personagens.

Antecedentes literários

        Antes de assistir ao filme, fui fazer a lição de casa. Uma rápida pesquisa na internet revelou se tratar de uma produção dirigida pelo italiano Edoardo Ponti, que vem a ser filho do lendário produtor Carlo Ponti e da própria Sophia Loren. Rosa e Momo, portanto, é cinema de boa família, que nos chega com ótimas referências. O longa é baseado no livro A Vida Pela Frente, publicado em 1975 pelo escritor francês Romain Gary – que usou o pseudônimo Émile Ajar; essa obra já havia rendido uma adaptação para o cinema em 1977, intitulada Madame Rosa – A Vida à Sua Frente, dirigida por Moshe Mizrahi e estrelado por Simone Signoret. O filme francês ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro em 1978.

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Cena do filme Rosa e Momo
Rosa e Momo: Sophia Lorem volta às telas dirigida pelo filho Edoardo Ponti

O efeito Sophia Loren

        Quando dei o play nessa nova versão italiana, minhas expectativas eram mornas; imaginei que assistiria a uma mera abordagem woke, mais preocupada com inclusões sociais, questões migratórias e ataques ao conservadorismo. Mas o que vi foi o bom senso em manter o foco no drama dos personagens. O efeito Sophia Loren é imediato: assim que ela aparece em cena, deixamos de enxergar qualquer outro elemento. Aos poucos, porém, ela nos mostra que é mesmo a grande atriz consagrada; quem passamos a ver é a Madame Rosa, a quase nonagenária sobrevivente do holocausto, que virou prostituta e agora, na velhice, dedica-se a cuidar dos filhos de outras prostitutas. Em poucas cenas descobrimos como sua vida se cruza com a de Mohamed – que faz questão de ser chamado de Momo –, um garoto senegalês de 12 anos, órfão, que vive como imigrante muçulmano na Itália.

Por um punhado de euros

        A Nápoles que serve de cenário para o filme não é aquela cidade romântica, que preenche o imaginário dos turistas; é permeada das mesmas pobrezas e feiuras urbanas que encontramos em qualquer grande cidade. O cotidiano sonolento dos comércios de rua e a rotina mau cheirosa do mercado de peixes deixa entrever a presença de personagens incômodos: os traficantes de drogas. É entre eles que Momo voa rasante, feito aviãozinho, deixando-se aliciar por um punhado de euros, aqui e ali. De um lado, o garoto é cercado pelas forças obscuras, que o querem cooptado; de outro, abraçado pelas forças luminosas, que o querem autônomo e confiante.

Cena do filme Rosa e Momo
Rosa e Momo: o embate entre asa forças luminosas e a escuridão

Cinema objetivo e sintético

        Madame Rosa mostra cansaço e desesperança. Momo mostra raiva e vive num estado de revolta que nos faz temer por seu destino. Para o espectador, logo vem a vontade de que ambos se ajudem mutuamente; o diretor trata de fazer com que eles se envolvam rapidamente, sem floreios. Essa objetividade chega a ser desconcertante – tanto é que o filme acaba rápido demais! Mas o estilo sintético de Edoardo Ponti não é demérito; ao contrário, é alcançado sem qualquer prejuízo à densidade dramática. Rosa e Momo contém todas as cenas que esperamos ver em um drama sobre amadurecimento e consegue trabalhar emoções verdadeiras, manifestadas por personagens verossímeis.

Um subtexto extenso

        Aqui podemos desfrutar de cinema italiano intenso e maduro, sem de exageros sentimentais. O roteiro de Ugo Chiti, cirurgicamente preciso, corre linear para nos ajudar a conhecer os personagens e suas vidas pregressas. É assombroso o quão pouco é dito sobre o passado de Madame Rosa, mas é como se pudéssemos construir na mente um filme inteiro sobre sua vida de desventuras. É incrível como quase nada é revelado sobre a infância de Momo, mas ficamos tão íntimos dele que reunimos material suficiente para rodar na mente um outro filme.

Cena do filme Rosa e Momo
Rosa e Momo: uma vida inteira pela frente

Destaque para a trilha sonora

        Rosa e Momo é a prova de que para funcionar, uma boa história não precisa estar alicerçada apenas no conflito entre os personagens; pode ser construída com fragmentos do mundo interno de cada um, que em alguns momentos são tensos e introspectivos e em outros são alegres e vibrantes – como na cena em que Madame Rosa dança ao som da brasileiríssima canção Malandro, de Jorge Aragão e Jotabê, interpretada por Elza Soares, cujo alto astral gostosamente acende o filme.

A provocação do título original

        O final é previsível? Não exatamente! O espectador logo percebe como o filme vai terminar, mas a provocação escondida no título original deixa escapar que essa história se estenderá para além dos créditos finais. É quando em nossas mentes, mais uma vez, um filme inteiro começa a ser projetado. Em vez de Rosa e Momo, o título desse filme em português ficaria melhor se seguisse o título do romance original: A Vida pela Frente. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção objetiva e segura de Edoardo Ponti, a adaptação bem escrita, a atuação de Sophia Loren e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: com as lentes cravadas no drama dos personagens, o diretor não se deixa desviar por caminhos desimportantes. Seu filme dura apenas uma hora e meia, mas o subtexto abraça toda uma vida!

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Rosa e Momo

Título original: La Vita Davanti a sé
Ano de produção: 2019
Direção: Edoardo Ponti
Roteiro: Edoardo Ponti e Ugo Chiti

Elenco:
  • Sophia Loren
  • Ibrahim Gueye
  • Abril Zamora
  • Renato Carpentieri
  • Babak Karimi
  • Massimiliano Rossi

Comentários

  1. Realmente Fábio,.um filme sensível com personagens marcantes, todos ! Gostei muito !!!!!!!

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  2. Imperdível esse filme solto nas ofertas da plataforma. Sensível e artístico. Muito bem analisado pela sua sempre criteriosa análise. Muito bom…

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    1. Muito obrigado, Julio. De fato, é muito bom encontrar esse filme disponível nos serviços de sttreaming. Abração!

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  3. Seus comentários são excelentes, companheiro! Gostaria que evitasse também filmes de Buñuel e Godard. Obrigado!

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    1. Perdão o erro...editasse...

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    2. Ah, Silva, muito obrigado. Sim, Buñuel e Godard precisar ter crônicas editadas aqui no blog. Vou trabalhar nisso. Obrigado pela lembrança. Abraço!

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  4. Esse filme me encantou pelos personagens, pela estoria, pela atuação da grande estrela Sofia. Apreciei com vontade o trabalho da atriz maravilhosa.

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    1. Sim, a presença de Sofia Loren é um atrativo, mas o filme tem qualidades que nos prendem do começo ao fim.

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