Crítica | A Festa de Babette: Gabriel Axel realiza um filme com notável valor artístico, sobre o significado da gastronomia para o espírito

Cena do filme A Festa de Babette
A Festa de Babette: filme dirigido por Gabriel Axel

UM FILME MADURO, REALIZADO COM GRANDE COMPETÊNCIA ARTÍSTICA

Quem disse que a arte precisa estar submissa à ditadura da visão e da audição? Há muito material artístico para ser fruído por meio de outros sentidos, como por exemplo, o paladar. É disso que nos fala o filme A Festa de Babette, escrito e dirigido em 1987 pelo dinamarquês Gabriel Axel. O filme ficou consagrado como uma ode à gastronomia e foi a primeira produção dinamarquesa a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro. Ainda hoje encanta os cinéfilos por sua abordagem poética.

Um conto de Karen Blixen 

        A Festa de Babette é a adaptação de um conto publicado pela escritora dinamarquesa Karen Blixen, mais conhecida pelo seu pseudônimo Isak Dinesen. Festejada em toda a Escandinávia, a autora se popularizou internacionalmente em 1985 quando teve seu livro autobiográfico, Entre Dois Amores, adaptado para as telas pelo cineasta Sidney Pollack, numa produção premiadíssima, estrelada por Meryl Streep e Robert Redford. Dois anos depois, Gabriel Axel traz Karen Blixen novamente para as telas, dá um tratamento reverente e respeitoso à sua obra e permanece fiel ao seu espírito literário.

Cena do filme A Festa de Babette
A Festa de Babette: Gabriel Axel adapta um conto de Karen Blixen

A sinopse: uma cozinheira misteriosa

        A história se passa no final do século XIX, numa pequena, remota e gélida vila de pescadores escandinavos, onde um pastor viúvo criou uma sólida comunidade religiosa. Depois da sua morte, suas filhas Martine (Birgitte Federspiel) e Philippa (Bodil Kjer) dão continuidade ao seu legado e empregam como cozinheira a francesa Babette Harsant (Stéphane Audran), que misteriosamente aparece no vilarejo. A vida austera e regida pela sisudez se impõe num cotidiano enfadonho. Então, a narrativa recua décadas para mostrar como as irmãs eram belas e cortejadas por pretendentes. Tinham a a oportunidade de expandir suas vidas, mas escolheram permanecer no vilarejo; envelhecem e continuam sua rotina, dedicadas às obras de caridade e aos encontros religiosos com o pequeno grupo de seguidores, também idosos.

Cena do filme A Festa de Babette
A Festa de Babette: personagens bem construídos

        Ocorre que o destino traz a sorte grande para a cozinheira Babette. Um bilhete de loteria premiado coloca em suas mãos 10 mil francos, uma quantia vultosa, que poderia bancar sua volta a Paris. Mas em vez disso, o que faz Babette? Gasta tudo para oferecer aos 12 integrantes do grupo de religiosos um jantar luxuoso e requintado. No cardápio, os pratos mais sofisticados que se possa imaginar, com as iguarias e as bebidas mais caras que ela manda trazer direto da França. Tudo é preparado por ela com arte e perícia, e quando posto à mesa, transforma a vida dos velhos religiosos, que jamais se permitiram tamanho banquete. O único entre os convidados capaz de compreender a dimensão gastronômica da festa é o agora idoso oficial de cavalaria Lorens Löwenhielm (Jarl Kulle) que também poderá revelar o passado da misteriosa cozinheira.

Gastronomia para cultivar a espiritualidade

        A produção esmerada de A Festa de Babette ressalta a arte da gastronomia e nos leva a acompanhar, intrigados, a transformação dos personagens. Antes, eram totalmente entregues à austeridade, crentes de que aquilo que nos chega pelo paladar é um pecado e está restrito ao mundano e ao carnal. Agora, percebem que degustar aromas e sabores, suas combinações e contrates, é uma forma elevada de cultivar a espiritualidade, os relacionamentos e – por que não – o regozijo estético. Quem criou os pratos apresentados no filme foi o chef do restaurante La Cocotte de Copenhague, Jan Cocotte-Pedersen, que publicou as receitas e transformou algumas delas em clássicos da culinária internacional.

Cena do filme A Festa de Babette
A Festa de Babette: cardápio criado por Jan Cocote-Pedersen

Apuro artístico notável

        Aliás, é preciso ressaltar que A Festa de Babette vai além do elogio à gastronomia. Percebemos grande apuro artístico quando reparamos, por exemplo, nas pinturas do mestre holandês Vermeer que ornam as paredes da sala onde acontece o elegante jantar. Ou quando nos arrepiamos com a excelente trilha sonora composta por Per Nørgård ou as várias e excelentes performances musicais apresentadas no filme. Já li especulações sobre um possível remake que seria dirigido por Alexander Payne, mas pelo que sei o projeto ainda não vingou. Uma tal ousadia, se for concretizada, terá que estar à altura do requinte artístico estabelecido por Gabriel Axel; seu filme carrega conteúdo suficiente para encantar por muito tempo ainda.

Respeito ao idioma

        Um elemento que me incomodou foi a narração em off, que num primeiro momento me pareceu desnecessária e em dissonância com a linguagem do cinema. Mas depois compreendi que o trato com os idiomas escandinavos, suas pronúncias e peculiaridades, tornara-se indissociável do contexto literário da obra. Além disso, o diretor Gabriel Axel, sensível e maduro – contava 69 anos ao realizar A Festa de Babette – não tiraria do público a oportunidade de “ouvir a voz” da autora Isak Dinesen.

Veredito da crônica de cinema

★★★★★(5 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Gabriel Axel, o roteiro bem construído, a concepção visual impecável, a trilha sonora envolvente e o trabalho competente do elenco.

O que surpreende: o diretor conseguiu manter o contexto literário da obra e realizou um filme com grande apuro artístico, repleto de performances musicais.

Imperdível. É cinema de alta qualidade.

Ficha técnica do filme A Festa de Babette

Título original: Babettes gæstebud
Ano de produção: 1987
Direção: Gabriel Axel
Roteiro: Gabriel Axel

  • Elenco:
  • Stéphane Audran
  • Bodil Kjer
  • Hanne Stensgaard
  • Birgitte Federspiel
  • Vibeke Hastrup
  • Jean Philippe Lafont
  • Jarl Kulle
  • Gudmar Wivesson
  • Bibi Andersson
  • Bendt Rothe
  • Lisbeth Movin
  • Preben Lerdorff Rye
  •  Cay Kristiansen
  • Axel Strøbye
  • Erik Petersen
  • Ebbe Rode
  • Ebba With
  • Pouel Kern
  • Else Petersen
  • Finn Nielsen
  • Holger Perfort
  • Asta Esper Andersen
  • Therese Højgaard Christensen
  • Lars Lohmann
  • Tine Miehe-Renard
  • Thomas Antoni
  • Gert Bastian
  • Viggo Bentzon
  • Tina Kiberg
  • Kim Sjøgren
  • Ghita Nørby

Comentários

  1. Nossa!!! Quantas informações que eu não tinha e que vc nos presenteou com sua crônica maravilhosa. Amo esse filme e já assisti 4 vezes e com certeza, assistirei novamente. Obrigada por seu trabalho primoroso.

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    1. Sou muito grato por seu feedback. Isso me deixa animado para continuar escrevendo!

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  2. Vi e vejo sempre este filme, vccomo sempre magistral em suas Crônicas de Cinema ela nos ajuda e verei outra vez depois de sua explanação Parabéns

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    1. Obrigado! Também costumo revisitar esse filme sempre quer posso.

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  3. Excelentes suas Crônicas, depois de ler nos impulsiona a rever o filme sempre esclarecedor. Aguardando seu Cadernos de Cinema. ABS

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    1. Ah, obrigado! Quanto aos cadernos... Ainda preciso dedicar um tempo a eles, mas estão nos meus planos! Valeu pelo interesse!

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  4. Um filme inesquecível e sua crônica com detalhes me fez ter vontade de assistí- lo novamente.

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  5. Magnifica resenha desse filme fantástico . Obrigada

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