Crítica| Batman: Robert Pattinson traz novo fôlego para o vigilante mascarado

Cena do filme Batman
Batman: filme de Matt Reeves

UM PERSONAGEM AFERRADO À SUA CONCEPÇÃO GRÁFICA

De tempos em tempos, o homem-morcego reaparece triunfante, para mexer com o imaginário dos consumidores de cultura pop. Dessa vez é no filme Batman, dirigido em 2022 por Matt Reeves, onde ele vem enraivecido, na pele de um esforçado Robert Pattinson. Seu propósito é o mesmo de sempre, porém, aqui ele não dispõe dos superpoderes infantilizados que seus pares exibem em outras produções do gênero. Talvez por isso seu brilho nos cinemas tenha sido breve: foi despachado às pressas para o streaming! O filme é tratado como uma peça descolada do quebra-cabeça de super-heróis, que é essa guerra por audiência entre a DC e a Marvel. É um dos seus acertos.

O personagem, como nos seus primórdios

Outro acerto foi a escolha de Robert Pattinson para encarnar o Homem-Morcego. O ator conseguiu incorporar um Zeitgeist pós-pandêmico. Liquidifica uma mistura de raiva, insegurança, arrogância e uma demora para escolher entre o que é melhor e o que é certo. A escalação de Matt Reeves para dirigir o filme também foi acertada. Com a experiência que adquiriu na condução de dois ótimos Planeta dos Macacos, o de 2014 e o de 2017, ele chegou com gana de fazer cinema de qualidade e lançou mão das boas referências que encontrou em clássicos dos anos 1970 e 80. Acertou no ritmo, na atmosfera e na concepção visual apurada, que resgatou o início das aventuras do Batman, quando Bruce Wayne era tão somente a sua identidade secreta.

Gosta de analisar os filmes em profundidade?

Se você prefere as resenhas detalhadas, com indicações de bons filmes, adoraria lhe enviar a minha newsletter gratuita. Toda semana tem um texto novo e exclusivo, que você pode receber direto no seu e-mail. Junte-se à comunidade da Crônica de Cinema!

Inscreva-se grátis clicando aqui

Cena do filme Batman
Batman: Matt Reeves ressaltou a natureza gráfica do personagem

Eram dois homens-morcego

Na minha infância, o Batman dos quadrinhos era mais raivoso e sombrio. O da TV, mais engraçado e irreal. Contudo, havia apenas uma Gotham City, habitada por três tipos de gente: os bandidos, que só se excitavam com a violência e a ganância; os políticos, que só se excitavam com o poder e a ganância; e os cidadãos comuns, que não se excitavam com nada e deixavam tudo por conta dos políticos e bandidos. Gotham City era uma cidade triste, que se deteriorava a cada dia. A população omissa e acomodada, bem que fazia por merecer: apenas pagava impostos, para que o estado se incomodasse com seus problemas. Diante do caos, todos achavam que alguém tinha que fazer alguma coisa. Quando esse alguém surgiu, na forma de um morcego, a maioria criticou. Batman não era uma unanimidade.

Cidade das cabras

Conforme cresci, ficou claro que Gotham City existia: era Nova Iorque! Descobri que Gotham era o apelido daquela cidade no início do século XIX, criado por um autor chamado Washington Irving. Ele resgatou uma tradição literária da Inglaterra medieval, quando vários contos usavam a palavra para se referir a uma fictícia “Vila da Cabra” – goat, em inglês –, habitada apenas por gente simplória e estúpida. Nas histórias do homem-morcego, a tal vila virou megalópole, mas a tacanhice permaneceu intacta! É a estreiteza de valores e a mesquinharia que enxergamos nas pessoas que circulam por suas ruas sujas e escuras.

Cena do filme Batman
Batman: Robert Pattinson faz um vigilante furioso

Vigilante implacável e também detetive

No filme, o prefeito de Gotham City é assassinado por um certo Charada (Paul Dano), que promete acender o fogo sob o caldeirão de caos que se tornou a cidade – é interessante observar como Gotham City jamais é retratada como uma distopia, mas como uma expressão sombria do nosso aqui e agora! Quem investiga o crime é o tenente James Gordon (Jeffrey Wright), que conta com o auxílio luxuoso de um Batman em começo de carreira. O mascarado, enquanto se reveza como detetive e vigilante implacável, envolve-se com a sedutora Selina Kyle (Zoë Kravitz), uma Protomulher-Gato que trabalha nos bastidores do submundo. E a história segue a trilha de sempre; hipnotiza pela expressão gráfica e pela certeza arquetípica de que a justiça é sempre uma conquista individual.

Alguma coisa no caminho!

O roteiro de Batman é assinado pelo diretor, em conjunto com o roteirista Peter Craig, um veterano dos filmes de ação (ele escreveu Herança de Sangue, Imperdoável, 12 Heróis e Bad Boys para Sempre). A escrita é bem realizada, mas não traz inovações narrativas – algo que os fãs dos quadrinhos consideram mais uma decisão acertada. Talvez a maior ousadia de Matt Reeves tenha sido a de sustentar sua linha de criação na canção Something in the Way, de Kurt Cobain. A atmosfera que evapora de um Nirvana em começo de carreira, é poderosa o suficiente para durar até os créditos finais. Quando assisti a esse Batman, tinha grandes expectativas: encontrar a mesma concepção madura empregada por Todd Philips no seu filme Coringa, de 2019. Não foi dessa vez, mas quem sabe numa próxima...

Cena do filme Batman
Batman: desconectado do restante do universo dos filmes de super-heróis

Herói dos quadrinhos

Batman nasceu em 1939. Surgiu nos quadrinhos e demorou para chegar aos cinemas. Quando o fez, seu traje de guerra parecia mais uma fantasia inverossímil; o habitat natural do homem-morcego era mesmo as páginas impressas! O personagem foi criado para a Detective Comics pelo artista gráfico Bob Kane, que por décadas levou os créditos sozinho; recentemente, teve que dividi-los com Bill Finger – o roteirista sempre alegou que muito dessa história tinha o seu... dedo! Afirmou, inclusive, ter sido ele o criador do nome Gotham City, para designar aquela cidade violenta, caótica e habitada por gente tacanha e leniente. Uma cidade desesperançada, que abriu espaço para o surgimento de um vigilante mascarado, ávido por fazer justiça.
        Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★☆☆(3 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção criativa de Matt Reeves, a atuação de Robert Pattinson, a concepção visual apurada e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: o diretor soube encontrar as referências gráficas certas e agregou um poderoso elemento ausente nos quadrinhos: a trilha sonora do Nirvana!.

Vale a pena. É entretenimento sem excessos de... infantilidade.

Ficha técnica do filme Batman

Ano de produção: 2022
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves e Peter Craig

Elenco:
  • Robert Pattinson
  • Zoë Kravitz
  • Paul Dano
  • Jeffrey Wright
  • John Turturro
  • Peter Sarsgaard
  • Andy Serkis
  • Colin Farrell

Comentários

  1. Não aprovei essa nova versão que atende determinada faixa etária de público com seu gosto e tendência para o horror psicológico (tanto que o ator escolhido vem dessa vertente de sucesso, infelizmente)
    Muito DARK que se arrasta num suspense angustiante e clichê cat /bat se emoldura mais uma vez.
    Esse Batman não exala dupla personalidade, que é sua característica mais contundente. Esse é uma coisa só sem ou com armadura.
    NÃO agradou me
    Estão na verdade adaptando tudo que existe ao momento do gosto público como um confeite já pronto pra gula destes.
    Nem comento o enredo (óbvio)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Este filme traz um Batman para as novas gerações, mas realizado dentro de alguns critérios. Já imaginou o mascarado embalado por uma trilha sonora à base de... Funk carioca? A questão é que o personagem já tem 83 anos e angariar fãs por gerações. Pelo jeito ainda vai conquistar mais algumas.

      Excluir
    2. Estava pensando em responder sobre o novo filme, até mesmo, já colocando um invólucro imaginário do "não gostei", porém lendo a observação sua, é por aí mesmo. O Batman foi criado há 83 anos. Portanto a geração dele ficou lá e a nova, precisa se adequar aos jovens atual. Realmente, eu nos meus 70 anos, sinto sim a falta dele, mesmo porque li muitos gibis, aliás o que mais adoro,porque os hinos nos traz a história verdadeira, sei lá!! Mas, temos sempre que ter em mente: - "O novo sempre vem"...


      Excluir
  2. Também não gostei.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Confira também:

Crítica | À Espera de Um Milagre: um clássico emocionante de 1999

Crítica | O Melhor Lance: o amor está a venda?