Crítica | Criaturas Extraordinariamente Brilhantes: Sally Field se destaca, num filme emocionante e encantador


Cena do filme Criaturas Extraordinariamente Brilhante
Criaturas Extraordinariamente Brilhantes: direção de Olivia Newton

BASEADO EM VERDADES EMOCIONAIS

Observar a si mesmo, de uma distância segura, enquanto toma suas decisões e reage às decisões dos outros, é um velho truque terapêutico. Abre a oportunidade para perceber o espectro emocional ao qual você está exposto e assim entender suas dinâmicas comportamentais. Esse truque também funciona no coletivo – nos filmes onde alienígenas escancaram as nossas humanidades, ou nas fábulas onde os animais ganham o dom da fala para nos julgar. É esse o truque usado em Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, dirigido em 2026 por Olivia Newman; um filme envolvente, criativo e profundamente emocional.

Um incrível sucesso editorial

        Por trás desse filme encantador, há um incrível fenômeno editorial, chamado Shelby Van Pelt. Aos 42 anos, a escritora americana escreveu seu primeiro romance, intitulado Remarkably Bright Creatures, que foi publicado em 2022; encantou os leitores e vendeu mais de 4 milhões de exemplares. Não é de se surpreender, portanto, que a Netflix tenha se empenhado em produzir uma adaptação para o cinema. Van Pelt abraçou a causa com entusiasmo; atuou como produtora do filme e examinou todo o processo de criação do roteiro, preservando assim a sua visão pessoal da obra.

Cena do filme Criaturas Extraordinariamente Brilhante
Criaturas Extraordinariamente brilhantes: Sally Field é a grande força dramática do filme

O ponto de vista de um molusco

        Criaturas Extraordinariamente Brilhantes é aquele filme do polvo! Conta a história de Tova Sullivan (Sally Field), uma viúva septuagenária que trabalha de faxineira num aquário, na fictícia cidade de Sowell Bay, no estado de Washington. É lá que ela mantém diálogos imaginários com Marcellus (na voz de Alfred Molina), um velho polvo gigante do pacífico, aprisionado num tanque para distração da criançada impertinente. Quando chega à pequena cidade o jovem Cameron Cassmore (Lewis Paulman), um pretenso músico à procura de um misterioso homem que lhe deve algum dinheiro, as vidas dos três se cruzarão: Tova ainda tentando elaborar a morte do filho; Cameron às voltas com o abandono dos pais e o polvo Marcellus se esforçando para os ajudar a resolver seus problemas.

Abordagem realista

        O mais importante a dizer sobre Criaturas Extraordinariamente Brilhantes é que o filme não foi realizado como uma fantasia, nem recebeu um tratamento infantilizado. Ao contrário, os personagens e suas dores são verossímeis, postos com autenticidade para que possamos acompanhar o seu processo de cura. A presença do polvo perspicaz e eloquente é o que torna a narrativa mais leve e notavelmente focada. As cenas são sempre objetivas e tem seus beats emocionais pontuados com precisão. Os personagens coadjuvantes que aparecem na tela têm função narrativa e são tratados com uma certa profundidade.

Cena do filme Criaturas Extraordinariamente Brilhante
Criaturas Extraordinariamente Brilhantes: uma abordagem leve e emocionante

Imagens exuberantes

        O que primeiro salta aos olhos é a fotografia luminosa e exuberante assinada pela experiente Ashley Connor. Muito da leveza do filme se deve às belas imagens da vida marinha exibidas o tempo todo, captadas pelo documentarista John Roney, que licenciou parte do seu acervo para a produção. As belas locações, na pequena cidade de Deep Cove, ao norte de Vancouver, e os cenários cuidadosos também contribuem para moldar o tom realista do filme.

Cena do filme Criaturas Extraordinariamente Brilhante
Criaturas Extraordinariamente Brilhantes: polvo gerado por computador

Computação gráfica inteligente

        O polvo Marcellus, é claro, assume o posto como principal elemento visual de Criaturas Extraordinariamente Brilhantes. Foi gerado em CGI, mas com um notável realismo. Seus movimentos foram aprimorados a partir de filmagens de vários outros polvos, para sustentar as necessidades narrativas do filme. Outro detalhe importante: as imagens digitais do molusco são sempre sobrepostas a cenários reais, dessa forma, a diretora Olivia Newman garantiu o realismo; não caiu na armadilha de gerar cenários em computação gráfica, que certamente trariam um forte caráter fantasioso e – provavelmente - infantilizado.

Atores incrivelmente brilhantes

        Além de muita sensibilidade artística, Olívia Newton mostrou que sabe extrair o melhor dos seus atores. Se bem que, em se tratando de Sally Field, a força dramática jorra abundante; com seu inegável talento, a atriz chega a roubar a cena do polvo Marcellus, que tanto encantou os leitores de Criaturas Extraordinariamente Brilhantes. Nas telas, o que ganha estatura é o drama humano. A narração em off – executada com sobriedade e respeito por Alfred Molina – só faz torná-lo ainda mais emocionante. Cabe lembrar aqui o ótimo trabalho do ator Lewis Pulman, que trabalha em perfeita sintonia com Sally Field.

Cena do filme Criaturas Extraordinariamente Brilhante
Criaturas Extraordinariamente Brilhantes: filme leve, mas muito emocionante!

Máxima empatia

        Criaturas Extraordinariamente Brilhantes pode ser apresentado como um filme leve, mas é preciso deixar o alerta: é incrivelmente emocionante. Há toques de humor e há momentos tristes, mas na medida em que os personagens vão se revelando – e suas histórias vão sendo desvendadas – reconhecemos verdades emocionais que compartilhamos com os demais humanos. Assistimos aos personagens tentando lidar com elas e nos perguntamos: como faríamos isso no lugar deles? É o velho truque terapêutico em ação, dessa vez executado por um molusco inteligente e observador.

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Olivia Newman, a adaptação bem escrita, a atuação excelente de Sally Field e Lewis Pulman e a fotografia exuberante.

O que surpreende: os realizadores souberam trazer as emoções para o primeiro plano e transformaram o personagem do polvo num recurso narrativo elegante.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Criaturas Extraordinariamente Brilhantes

Título original: Remarkably Bright Creatures
Ano de produção: 2026
Direção: Olivia Newman
Roteiro: Olivia Newman, John Whittington e Shelby Van Pelt

Elenco:
  • Sally Field
  • Lewis Pullman
  • Colm Meaney
  • Joan Chen
  • Kathy Baker
  • Beth Grant
  • Sofia Black-D'Elia
  • Donald Sales
  • Mapuana Makia
  • Laura Harris
  • Anthony Harrison
  • Dan Payne
  • Shauna Johannesen
  • Chris William Martin
  • David Parent
  • Michael Delleva
  • Noah Craig

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