Crítica | Ensaio da Orquestra: Fellini celebra a música de Nino Rota num filme despretensioso

Ensaio de Orquestra: direção de Federico Fellini
DESPRETENSIOSAMENTE MUSICAL
Desde o período Romântico, quando ganhou a configuração que tem hoje, a orquestra sinfônica virou uma metáfora para o trabalho em equipe: um amontoado de músicos, cada qual com seu instrumento, aferrados a uma mesma partitura, seguindo os ditames de um maestro todo-poderoso. Na plateia, boquiabertos, nem conseguimos compreender como é possível que consigam produzir a complexidade de sons exigidos ao longo de uma sinfonia inteira. Só mesmo à custa de muito ensaio! Em 1978, Federico Fellini apropriou-se de tal clichê para realizar Ensaio de Orquestra, um filme despretensioso, produzido para a televisão estatal da Itália.Uma parábola sobre a política italiana
Em Ensaio de Orquestra, Fellini nem chega perto do seu ambiente tradicional: as memórias de infância, as incursões oníricas, os devaneios surrealistas... O diretor parece disposto a finalmente fazer crítica política, talvez motivado pela realidade conturbada que enxergava à sua volta naquele final dos anos 1970. Sim, não há como ignorar que no subtexto desse filme satírico – um “documentário lírico”, como o próprio Fellini definiu – há referências ácidas à caótica política italiana e ao fascismo, representado pelo maestro totalitarista com sotaque tedesco, interpretado pelo ator alemão Balduin, que enfrenta a revolução dos seus músicos insatisfeitos – feito militantes raivosos eles picham palavras de ordem nas paredes e erguem os punhos exigindo a renúncia do ditador.Gosta de analisar os filmes em profundidade?
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Ensaio de Orquestra: Fellini faz um filme dentro de um filme
A sinopse: a revolta dos músicos
A alegoria política de Fellini assume a forma de um filme sobre um filme: uma equipe de filmagem realiza um documentário sobre a orquestra que gravará a trilha sonora de uma produção. O diretor (a voz que ouvimos é a de Fellini) entrevista os músicos, enquanto cada um deles tenta explicar por que o instrumento que toca é o mais importante do que os demais. Quando descobrem que não receberão pagamento extra, os músicos se revoltam. O caos toma conta do ensaio, até que os músicos trazem um metrônomo gigante (o diretor não consegue ficar sem lançar mão dos recursos surrealistas!) é instalado para substituir a tirania do maestro. Para complicar, uma gigantesca bola de demolição começa a pôr todo o prédio abaixo.O filme não quer dar respostas
Ainda que muitos espectadores não o reconheçam, Fellini está fazendo humor. Não fica claro quais são suas intenções: criticar os ímpetos autoritários dos governantes? Estimular algum tipo de revolução? Enaltecer a necessidade de uma liderança forte num trabalho em equipe? Ressaltar que toda ação coletiva invariavelmente termina e caos? Como cinéfilo, penso que buscar as respostas é desperdiçar tempo; o melhor é aproveitar o cinema plástico, fluente e sintético que Fellini nos oferece. Ensaio de Orquestra dura apenas 70 minutos e segue num ritmo delicioso, pontuado pela prosódia musical do idioma italiano.
Ensaio de Orquestra: uma celebração à música erudita
A alma do filme está na própria música
E por falar em música, é hora de mencionar a bela partitura escrita por Nino Rota. Ensaio de Orquestra marca a última colaboração entre Fellini e seu compositor preferido, que morreu poucos meses depois do lançamento do filme no Festival de Cannes. A música de Nino Rota é mais do que um estímulo para assistir ao filme; ela é a sua principal razão de ser! Quando os trechos mais musicais afloram, o longa se acende gostosamente, numa bem-vinda celebração à música erudita. Aliás, o compositor da trilha sonora se envolveu diretamente na produção, marcando presença nos sets de filmagem para instruir os músicos; em vários momentos, Nino Rota interferiu na própria condução narrativa da obra.Uma espiadela no fazer musical
Ainda que muitos se dediquem a identificar os símbolos e significados plantados aqui e ali pelo diretor, enfatizando as intenções políticas e o alcance social da obra, o fato é que Ensaio de Orquestra exige muito pouco da plateia; apenas que se entregue ao entretenimento e se renda ao poder narrativo da música. No discurso audiovisual, o fazer musical encontrou uma função de enorme relevância, tão essencial quanto à desempenhada pelos fotógrafos e diretores de arte. Fellini parece intrigado com o fato de que a música surge como resultado da interação entre um número enorme de artistas – músicos, produtores e técnicos –, todos trazendo para o primeiro plano as suas próprias convicções e interesses pessoais. Não é incrível que, no final, eles consigam dar forma a uma única e sólida construção sonora, imaginada por um único compositor?
Ensaio de Orquestra: metáfora para a caótica política italiana
Fellini querendo ser apenas divertido
Às vezes, Ensaio de Orquestra tem essa cara de documentário. As tiradas engraçadas, com os músicos quebrando a quarta parede para tentar cooptar o espectador, dão um leve tom de descontração. Em outros momentos, o que vem à tona é a abordagem metalinguística: um filme sobre uma orquestra que executa a música de um filme, criticando a própria dinâmica interna de uma orquestra. Além disso, o metrônomo gigante e a bola de demolição no lembram que estamos diante de uma obra de Fellini, sempre pronto para nos surpreender com algum elemento surreal. Eis aqui um filme despretensioso, para assistir por pura diversão. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção criativa de Federico Fellini, a concepção visual bem elaborada e a música de Nino Rota.
O que surpreende: por mais que Fellini insinue interesse em cutucar questões políticas, seu cinema segue focado no indivíduo.
Imperdível. É cinema de alta qualidade.
Ficha técnica do filme Ensaio de Orquestra
Título original: Prova d'OrchestraAno de produção: 1978
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini e Brunello Rondi
Elenco:
- Balduin Baas
- Clara Colosimo
- Elizabeth Labi
- Ronaldo Bonacchi
- Ferdinando Villella
- Franco Iavarone
- David Maunsell
- Francesco Aluigi
- Andy Miller
- Sibyl Amarilli Mostert
- Franco Mazzieri
- Daniele Pagani
- Luigi Uzzo
- Cesare Martignon
- Umberto Zuanelli
- Filippo Trincaia
- Claudio Ciocca
- Angélica Hansen
- Heinz Kreuger
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