Crítica | Vidas Passadas: como entender as escolhas deles?

Vidas Passadas: direção de Celine Song
CINEMA MADURO, COMO SEUS PERSONAGENS
Para nós, brasileiros agarrados aos preceitos cristãos, especular sobre a reencarnação é praticamente um entretenimento. Brincamos com a possibilidade, imaginando quem poderíamos ter sido e quais aventuras teríamos experimentado em outros existências. Para os adeptos das religiões orientais, porém, o assunto é tratado com seriedade. Por isso, quando me deparei com Vidas Passadas, dirigido em 2023 por Celine Song, logo imaginei que o filme estaria centrado nos temas místicos. Além disso, a foto do casal de orientais ilustrando a capa do filme, pareceu-me uma referência aos tais doramas sul-coreanos, que infestam as plataformas de streaming. Apertei o play com o espírito armado e, em poucos minutos, fui conquistado por um cinema inteligente, sensível e artisticamente relevante.Nada de especulações místicas
Vidas Passadas irradia romantismo, mas não daquele tipo governado pelas fantasias amorosas, que trata dos apaixonados com a mesma condescendência que dedicamos aos desbravadores e aventureiros. Aqui, o ímpeto açucarado é contido e a pieguice nem foi convidada. Os protagonistas estão interessados em desvendar os segredos do amor, mas não abdicam da sensatez enquanto se arriscam pelos seus corredores escorregadios. Maduros e munidos de autoconhecimento, preferem contemplar a beleza dos sentimentos puros. Preferem primeiro compreender as extensões do que já viveram, para só então especular sobre o que poderiam ter vivido diante de escolhas diferentes.Gosta de analisar os filmes em profundidade?
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Vidas Passadas: filme de estreia da dramaturga Celine Song
E se as escolhas tivessem sido outras?
O filme conta a história de Na Young (Seung Ah Moon), uma sul-coreana vivaz que, na infância, sentia-se atraída pelo colega de classe, Hae Sung (Seung Min Yim). O destino os separa quando a família da menina se muda para o Canadá. Passados doze anos, ela agora se chama Nora (Greta Lee) e trabalha em Nova Iorque para ser uma dramaturga. Fuçando as redes sociais, acaba retomando o contado com Hae Sung (Teo Yoo), que estuda engenharia em Seul. Os sentimentos da infância encontram espaço para florescer nos meios digitais, mas nenhum deles se atreve a abandonar os planos que já traçaram para suas vidas.
Vidas Passadas: o filme vai além do simples triângulo amoroso
Mais doze anos se passam até que os dois retomem os contatos pela internet. Nora agora está casada com Arthur (John Magaro), um escritor em ascensão; Hae Sung terminou com a namorada e agora parece disposto a revisitar os sentimentos do passado. Ele decide tirar férias e vai dar uma de turista em Nova Iorque; ela o acolhe e o deixa conhecer um pouco da vida que leva com Arthur. Nenhum deles sabe exatamente o que esperar, mas ambos têm a coragem e o atrevimento para permitir que o reencontro lhes revele o que poderiam ter vivido e o que desejam viver pelos próximos anos.
Uma cineasta estreante
Não espere pelas angústias, trapalhadas e reviravoltas de um triângulo amoroso. Vidas Passadas é um drama romântico autoral, escrito com talento por uma cineasta estreante, mas com experiência de sobra nas artes teatrais. Ela tem pleno domínio da narrativa e jamais perde o foco dos seus personagens – e ainda se atreve a pintar Nova Iorque também como uma personagem deslumbrante, ainda que revelada apenas no pano de fundo. A diretora sobe combinar belas imagens, música envolvente, diálogos verossímeis e silêncios eloquentes, para criar um subtexto denso. É assim que consegue pôr o espectador num modo permanente de introspecção e reflexão. Ou seja: faz cinema maduro e relevante.
Vidas Passadas: personagens tratados com respeito e inteligência
Uma narrativa envolvente
Celine Song abre seu filme com uma cena provocativa: mostra os protagonistas em um bar, conversando em coreano, enquanto um sujeito deslocado fica de lado, desconfortável por não conhecer o idioma e aflito por estar sendo guardado numa espécie de geladeira emocional. O espectador então é conduzido por suas vidas passadas, para que compreenda quem são aqueles três e o que os levou até aquele momento constrangedor. Quando esta mesma cena é retomada, lá no final, já temos uma noção precisa de quem é Nora, Hae Sung e Arthur; mais que isso, estabelecemos empatia com os três e estamos em condições de discutir e opinar sobre suas escolhas. Ou seja: como eles, também amadurecemos um pouco mais.Cinema proveitoso
Com Vidas Passadas, Celine Song nos envolve num cinema belo e fluente, habitado por personagens autênticos, que irradiam verossimilhança. A cineasta sabe como colocá-los em cenários vistosos, tirando proveito da fotografia luminosa de Shabier Kirchner. Ela também tem um notável senso de ritmo e sabe usar a trilha sonora como um poderoso recurso narrativo, sem tentar conduzir as emoções do espectador. Aliás, o que temos aqui é um filme bastante respeitoso, para com a verdade emocional dos seus personagens e para com a inteligência do espectador. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura de Celine Song, o roteiro bem escrito, a atuação competente do elenco, a fotografia exuberante e a trilha sonora envolvente.
O que surpreende: além de não perder o foco dos seus personagens, a diretora aproveita todas as oportunidades para encontrar a beleza e tratá-la com respeito e sensibilidade artística.
Imperdível. É cinema de qualidade.
Ficha técnica do filme Vidas Passadas
Título original: Past LivesAno de produção: 2023
Direção: Celine Song
Roteiro: Celine Song
Elenco:
- Greta Lee
- Seung Ah Moon
- Teo Yoo]
- Seung Min Yim
- Ji Hye Yoon
- Choi Won-young
- Min Young Ahn
- John Magaro
- Jonica T. Gibbs
- Emily Cass McDonnell
- Federico Rodriguez
- Conrad Schott
- Kristen Sieh
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