Somos Marshall: drama esportivo baseado em fatos

Somos Marshall: direção de McG
É PREVISÍVEL, POR ISSO FUNCIONA MUITO BEM
Sempre evitei os filmes sobre futebol americano. Não tenho qualquer familiaridade com esse esporte – desconheço as regras, os ídolos, os times importantes e os campeonatos conduzidos pelas várias ligas esportivas. Tudo o que sei é que os jogadores usam pesados equipamentos de proteção, porque disputam cada ponto com impressionante truculência. Ah, e sei também que o esporte tem uma relação de simbiose com a vida universitária americana; para serem aceitos como jogadores, os estudantes precisam obter boas notas no boletim; para galgar até as ligas profissionais, precisam passar pelo futebol universitário.Para ganhar a minha torcida, filmes sobre futebol americano precisam ir além do futebol; precisam exibir cinema de qualidade. Somos Marshall, dirigido em 2006 por McG, não é nenhuma obra-prima do gênero, mas tem elementos de sobra para prender a atenção do espectador e provocar picos acentuados emocionais. Baseia-se numa história real vivida pelos moradores da cidade de Huntington, na Virgínia Ocidental, que mantém a tal Universidade Marshall, uma instituição como tantas outras nos Estados Unidos, com seu próprio time de futebol adorado por todos os moradores locais.
Em 1970, um pavoroso acidente pôs a cidade em choque: o avião que transportava os Thundering Herd, o time da Universidade Marshall, caiu na cabeceira da pista e matou 75 pessoas: 37 jogadores, dirigentes, treinadores, torcedores e toda a tripulação. Enlutada, a cidade mergulhou numa tristeza tão profunda que não deixou dúvidas: aquele time de futebol tão amado jamais se reergueria das cinzas. Seguiu-se, então, uma notável trajetória de superação, na medida em que os habitantes venceram o penoso processo de luto.
Dia desses, quando comecei a assistir a Somos Marshall, não pude deixar de fazer um paralelo com o triste caso da Chapecoense, o carismático time de Santa Catarina que disputaria a final da Copa Sul-Americana de 2016, na Colômbia, mas foi dizimado em um pavoroso acidente aéreo. Das 77 pessoas a bordo, apenas seis sobreviveram; morreram 19 jogadores, integrantes da comissão técnica, dirigentes e jornalistas. Que tragédia! Imediatamente me pus solidário aos habitantes de Huntington, assim como me solidarizei na época com os chapecoenses.
Logo me dei conta de que o filme seguiria por trilhas emocionais previsíveis, com grande probabilidade de escorregar no melodrama fácil e apelativo. Mas um fator imprevisível, chamado Matthew McConaughey, apareceu para... mudar o jogo. O ator encontrou o tom certo e soube explorar os bons momentos do seu personagem, aumentando o interesse do espectador. Antes de seguir com meus argumentos, deixe-me apresentar a sinopse:
Em Somos Marshall, depois da tragédia que chocou a cidade, vemos como o reitor Donald Dedmon (David Strathairn) está decidido a interromper as atividades do time de futebol. Alguns estudantes, liderados por Nate Ruffin (Anthony Mackie), insistem em ressuscitar o time, em homenagens aos amigos mortos. A tarefa não será fácil, já que nenhum treinador quer assumir o pesado encargo; até que Jack Lengyel (Matthew McConaughey) aceita o desafio e assume como treinador principal, contando com a ajuda de Willian Dawson (Matthew Fox), um dos técnicos auxiliares que escapou da morte porque não embarcou no avião. Reconstruir o time não será fácil e muitos problemas terão que ser resolvidos. Além disso, os dramas pessoais de cada personagem se somarão, criando barreiras emocionais difíceis de serem superadas. É para ver como todos se sairão que vamos até os créditos finais.
O filme nasceu na cabeça do roteirista Jamie Linden, quando frequentava os bancos da universidade em 2000; conheceu a história do time da Universidade Marshal e foi descobrindo as várias histórias pessoais por trás da tragédia. Encontrou os personagens certos e descobriu a melhor forma de narrar a trajetória de superação que percorreram; soube lidar com as inevitáveis cenas emocionais, nas quais todo cinéfilo espera tropeçar quando se dispõe a assistir um filme do gênero.
O diretor McG, um ex-produtor musical com experiência na produção cinematográfica – trazia no currículo a direção do filme As Panteras –, encarou o projeto com competência. Sua direção é protocolar e em vários momentos flerta com a linguagem óbvia dos telefilmes, mas soube extrair o melhor do seu competente elenco, deixando que as atuações brotassem orgânicas na tela. Como já antecipei, Matthew McConaughey encontra muito espaço dramático entre as várias linhas de diálogo bem escritas. Observe, caro leitor, que o diretor não se preocupou em demonstrar sensibilidade artística, nem se incomodou com a pouca profundidade psicológica dos seus personagens; seu ímpeto é puramente comercial!
Somos Marshall tem um grande mérito: consegue nos manter atentos do começo ao fim, ainda que saibamos exatamente o que esperar em cada sequência. É claro que as intermináveis cenas de futebol americano podem incomodar os não iniciados, mas mesmo esses terão que reconhecer que elas se desenrolam com propriedade dentro do contexto dramático. É um filme despretensioso, mas proveitoso para quem se dispõe a se solidarizar com seus personagens.
Resenha crítica do filme Somos Marshall
Título original: We Are MarshallTírulo em Portugal: Universidade Marshall
Ano de produção: 2006
Direção: McG
Roteiro: Jamie Linden
Elenco: Matthew McConaughey, Matthew Fox, Ian McShane, Anthony Mackie, January Jones, Kimberly Williams-Paisley, Brian Geraghty, David Strathairn, L. Warren Young, Arlen Escarpeta, Kate Mara, Mike Pniewski e Robert Patrick
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