Crítica | Um Homem de Sorte: Bille August adapta o romance de um Nobel de Literatura e o resultado é deslumbrante
Um Homem de Sorte: filme dirigido por Bille August

Um Homem de Sorte: Bille August faz um cinema primoroso

Um Homem de Sorte: Esben Smed interpreta um personagem complexo

Um Homem de Sorte: o cinema dinamarquês com estofo de superprodução
FORA DOS PADRÕES DE HOLLYWOOD
Já começo esta crônica com um aviso: o filme que analisarei aqui não é aquele em que um soldado encontra a foto de uma garota no campo de batalha, depois sai à procura dela quando volta para casa. O homem sortudo sobre o qual escreverei é aquele apresentado pelo diretor Bille August no seu filme de 2018, também intitulado Um Homem de Sorte. Trata-se de um homônimo dinamarquês e vem recheado com qualidades cinematográficas mais consistentes. Tem quase três horas de duração, mas passa num lampejo!Visual deslumbrante
Escrito, dirigido e estrelado por gente desconhecida para nós, brasileiros, Um Homem de Sorte impressiona. Primeiro, pelo espetáculo visual que oferece. Retrata a Dinamarca do final do século XIX com uma direção de arte que emana bom gosto e sofisticação. Os figurinos e os cenários são exuberantes. A fotografia se esbalda numa luminosidade natural e os planos abertos são sempre generosos. O filme nos deixa apreciar de relance o melhor das paisagens nórdicas – de relance, porque ficamos mais focados na trama que se desenrola minuciosa e envolvente.

Um Homem de Sorte: Bille August faz um cinema primoroso
Narrativa ágil e precisa
O filme foi estruturado a partir de um roteiro preciso, escrito com sólidas linhas de diálogo, para nos contar a história de forma linear, com agilidade e precisão. Em Um Homem de Sorte as cenas nunca são longas demais e nenhuma delas está ali sem que haja um propósito dramático; não há a necessidade de criar suspense, nem de sugerir um clima de mistério por meio da omissão de informações que deveriam chegar ao espectador. Tudo o que temos é um personagem, suas escolhas e as consequências dos seus atos.Será sorte ou genialidade?
E que personagem! Um Homem de Sorte conta a história de Per Sidenius, o sortudo do título, que deixa a cidade natal no interior da Dinamarca – e a família ultra-religiosa liderada por um pai fanático – para estudar engenharia em Copenhague. Com evidente gênio criativo, em pouco tempo ele está às voltas com projetos megalômanos e seus financiadores multimilionários, que lhe trazem ascensão social e prestígio. Ao redor dele, orbitam personagens os mais diferentes, que ajudam costurar uma trama densa e convincente. Sonhos, frustrações, trabalho intenso, obstinação, valores éticos... O sortudo Per Sidenius experimenta o sucesso e vive um romance intenso com Jakobe Salomon (Katrine Greis-Rosenthal), mas encara desafios que poucos ousariam. Sortudos somos nós, que podemos ter esse excelente vislumbre de um personagem tão multifacetado.

Um Homem de Sorte: Esben Smed interpreta um personagem complexo
Um diretor em ótima forma
O diretor e roteirista Bille August esbanja experiência e competência – outro filme seu que vale a pena conferir é 55 Passos. Em Um Homem de Sorte ele sempre sabe onde colocar sua câmera para captar as expressões certas, no momento certo. Tem perfeito controle da mis-em-scène e não deixa que a narrativa se arreste desnecessariamente. Realiza um cinema transparente, que oculta de nós todo o aparato cinematográfico, apenas para nos manter hipnotizados. E prefere colocar-se a serviço do elenco, encabeçado pelo excelente Esben Smed.Baseado num Nobel da literatura
Um Homem de Sorte me deixou boquiaberto. Fui pego de surpresa, pois nada sabia sobre o personagem e seu contexto. Tive que singrar a internet para me informar. Descobri que o filme é uma adaptação do livro intitulado Lykke-Per (O Sortudo Per), escrito pelo dinamarquês Henrik Pontoppidan – vencedor do Nobel de Literatura de 1917. Trata-se de um dos mais importantes escritores do seu país, que fez sucesso com esse romance inspirado em parte na sua própria biografia e em parte no desejo de expressar sua crença nas ideias liberais e no individualismo.

Um Homem de Sorte: o cinema dinamarquês com estofo de superprodução
Um personagem multifacetado
Como qualquer espectador, fui inspirado pelo título do filme. Segui Per Sidenius com entusiasmo, certo de que presenciaria sua trajetória pautada pela sorte rumo ao sucesso. Porém, na medida em que os percalços aparecem e são vencidos com tenacidade, percebemos que sorte nada a ver com suas proezas! Ele segue decidido a vencer, mas quando os dilemas morais e éticos se interpõem, o ambicioso engenheiro se mostra por inteiro. Seu universo interno se revela complexo, por vezes incompreensível, tristemente perturbado. Não é um homem raso e superficial. Não merece o apelido que lhe trouxe notoriedade – sortudo, aliás, é algo depreciativo para alguém que, como ele, acredita tão somente na própria capacidade e na força de realização.
Um autêntico filme dinamarquês
O cinema de primeira qualidade que tive a oportunidade de apreciar em Um Homem de Sorte fez com que esquecesse de um detalhe crucial: trata-se, afinal, de um filme dinamarquês, realizado sem a preocupação de seguir os padrões hollywoodianos. Assim, o espectador pode – e deve – esperar qualquer desfecho. É isso que nos leva a passar três horas com os olhos grudados na tela.Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a estética audiovisual impecável, a direção primorosa de Bille August, o roteiro preciso, a narrativa ágil e a atuação do elenco afiado.
O que surpreende: o filme irradia uma atmosfera épica e não distrai com a exuberância do visual. Ao contrário, a usa como artifício para desenvolver os personagens e ampliar o subtexto.
Imperdível. É cinema de alta qualidade.
Ficha técnica do filme Um Homem de Sorte
Título original: Lykke-Per
Ano de produção: 2018
Diretor: Bille August
Roteiro: Bille August e Anders August
- Elenco:
- Esben Smed
- Katrine Greis-Rosenthal
- Benjamin Kitter
- Julie Christiansen
- Tommy Kenter
- Sophie-Marie Jeppesen
- Tammi Øst
- Rasmus Bjerg
- Sara Viktoria Bjerregaard
- Elsebeth Steentofts
- Anders Hove
- Jens Albinus


Excelente crônica!! Sua acuidade para os diversos aspectos dos filmes que você comenta é um deleite para os cinéfilos. Mesmo para mim, uma cinéfila de araque! Rsrsrs... Obrigada!!
ResponderExcluirValeu, Jane! É muito bom poder compartilhar ideias com gente que gosta de cinema. Muito obrigado pelo incentivo!!!!
ExcluirSimplesmente algo para a gente descobrir e degustar fora dos padrões convencionais. Obrigado
ResponderExcluirSim, Chico. Esse film dinamarquês não tem compromissos com o padrão Hollywoodiano de fazer cinema.
ExcluirRealmente como você disse, o filme é tão gostoso de assistir que nem percebemos que ele dura quase três horas.
ResponderExcluirSim, Priscila Farias. E se você considerar que o final foge aos padrões hollywoodianos, onde as histórias sempre acabam bem, esse efeito é ainda mais surpreendente.
ExcluirObrigado por mais essa crônica Senhor Fábio. Escreve tão bem, consegue prender nossa atenção de modo leve, com frases curtas, mas dotadas de muita sensibilidade. Gosto muito de sua escrita.
ResponderExcluirPuxa, Jadilson, muito obrigado por esse importante feedback. Fico motivado para continuar escrevendo!!!! Valeu!
ExcluirFilme magnífico! Gostaria de saber o nome da música que foi usada como trilha Ahhh e os comentários acompanham a qualidade fo filme.
ResponderExcluirMuito obrigado! Quanto à trilha sonora, o tema principal composto especialmente para o filme é assinado por Lorenz Dangel.
ExcluirAssisti a esse filme recentemente, realmente é diferente das produções Hollywoodianas. Parabéns pela página.
ResponderExcluirAh, Renata, muito obrigado! É ótimo poder compartilhar informações e também, é claro, a paixão pelo cinema.
ExcluirRealmente é um filme vem diferente dos de Hollywood . Como eu não entendo das técnicas de cinema só posso dizer que achei um filme bem feito. Mas achei bastante enfadonho. É bom ler sua crônica e me dar conta do quanto sou impaciente e tenho dificuldade vem apreciar filmes longos e arrastados. Se não fosse tão longo verdade novo. Desta vez com olhos despertados por seus comentários.
ResponderExcluirAh, que bom que acompanha minhas crônicas. Fico agradecido. Quanto ao filme, quem sabe calhe de você estar no estado de espírito certo para vencer o arrastado do ritmo.
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