Um Homem de Sorte

PARA NOSSA SORTE, ESTE NOBEL DE LITERATURA CAIU NAS MÃOS DE UM DIRETOR COMPETENTE

Crítica do filme Um Homem de Sorte escrita por Fabio Belik para a Crônica de Cinema
Um Homem de Sorte: filme dirigido por Bille August

         Ah, já vi esse filme! É aquele do soldado que encontra a foto de uma garota e quando volta da guerra sai à procura dela...
        
 Não, não! Esse tem o mesmo nome, mas é um outro homem de sorte.
        
 E pode isso? Dois filmes com o mesmo nome?
        A pergunta de Ludy foi pertinente, mas não encontrei uma resposta apropriada. Apenas dei de ombros. Em poucos minutos estávamos assistindo ao filme dinamarquês Um Homem de Sorte, com os olhos tão fixos na tela que esquecemos o assunto do título. E ficamos, minha mulher e eu, tão concentrados que sequer vimos passar suas 2 horas e 47 minutos de duração.
        Escrito, dirigido e estrelado por gente desconhecida para nós, brasileiros, esse homem de sorte impressiona. Primeiro, pelo espetáculo visual que proporciona. Retratando a Dinamarca do final do século XIX, a direção de arte emana bom gosto e sofisticação. Os figurinos e os cenários são exuberantes. A fotografia se esbalda numa luminosidade natural e límpida. Os planos abertos são sempre generosos e nos deixam apreciar o melhor das paisagens nórdicas.
        O texto é muito bem escrito e o roteiro ágil vai desfiando uma história envolvente, contada de forma linear, com muita precisão. As cenas nunca são longas demais e nenhuma delas está ali para tapar buracos. Não há a necessidade de criar suspense, nem de criar clima de mistério omitindo informações ao espectador. Tudo o que temos é um personagem, suas escolhas e as consequências dos seus atos.
        E que personagem! Per Sidenius é o sortudo do título, que deixa a cidade natal no interior da Dinamarca – e a família ultra religiosa liderada por um pai fanático – para estudar engenharia em Copenhague. Criativo e genial, em pouco tempo está às voltas com projetos megalômanos e financiadores multimilionários, que lhe trazem ascensão social e prestígio. Ao redor dele orbitam personagens os mais diferentes, e começa a se costurar uma trama densa, convincente e dramática. Romances, frustrações, trabalho intenso, obstinação, orgulho, valores éticos... Sortudos somos nós, que podemos ter um excelente vislumbre de um personagem tão multifacetado.
        Bille August, o diretor e roteirista, é de uma competência notável. Sempre sabe onde colocar sua câmera para captar as expressões certas nas horas certas. Tem perfeito controle da mis-em-scène e não deixa que a narrativa se arreste desnecessariamente. Realiza um cinema transparente e nos faz esquecer do aparato cinematográfico do qual se vale. E coloca todos esses recursos à serviço dos atores, que, encabeçados pelo excelente Esben Smed, passam muito bem o recado.
        Um Homem de Sorte me deixou de queixo caído. Fui pego de surpresa pois nada sabia sobre o personagem e seu contexto. Tive que singrar a internet para me informar – ah, se não fosse a internet! Descobri que o diretor Bille August baseou seu roteiro no livro intitulado Lykke-Per (O Sortudo Per), escrito pelo dinamarquês Henrik Pontoppidan, nada menos do que o vencedor do Nobel de Literatura de 1917. Trata-se de um dos mais importantes escritores do seu país, que fez sucesso com esse romance, inspirado em parte na sua própria biografia e em parte no desejo de expressar sua crença nas ideias liberais e no individualismo.
        Mas voltemos ao filme! Como qualquer espectador, fui inspirado pelo seu título. Segui Per Sidenius com entusiasmo, certo de que presenciaria sua trajetória rumo ao sucesso. Na medida em que os percalços foram aparecendo e sendo vencidos com tenacidade, minha crença no personagem só aumentou. Mas, quando os dilemas morais e éticos passam a se interpor e o ambicioso engenheiro se mostra por inteiro, seu universo interno se revela complexo, por vezes incompreensível, tristemente perturbado. Não é um homem raso e superficial. Não merece o apelido que lhe trouxe notoriedade – sortudo, aliás, é algo depreciativo para alguém que acredita tão somente na própria capacidade e na sua força de realização.
        O cinema de primeira qualidade que tive a oportunidade de apreciar fez com que esquecesse de um detalhe crucial: trata-se de um filme dinamarquês, realizado sem a preocupação de seguir os padrões hollywoodianos. Assim, o expectador pode – e deve – esperar qualquer desfecho. É isso que nos leva a passar três horas com os olhos grudados na tela.


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Comentários

  1. Excelente crônica!! Sua acuidade para os diversos aspectos dos filmes que você comenta é um deleite para os cinéfilos. Mesmo para mim, uma cinéfila de araque! Rsrsrs... Obrigada!!

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    1. Valeu, Jane! É muito bom poder compartilhar ideias com gente que gosta de cinema. Muito obrigado pelo incentivo!!!!

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  2. Simplesmente algo para a gente descobrir e degustar fora dos padrões convencionais. Obrigado

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    1. Sim, Chico. Esse film dinamarquês não tem compromissos com o padrão Hollywoodiano de fazer cinema.

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