Crítica | Psicose: com esse filme, Alfred Hitchcock deixou um legado de inovação

Cena do filme Psicose
Psicose: filme dirigido por Alfred Hitchcock

O PRIMEIRO FILME DE TERROR MODERNO

Meus pais assistiram no cinema ao filme Psicose, dirigido em 1960 por Alfred Hitchcock. Vivenciaram o retumbante impacto que ele provocou na época do seu lançamento e se arrepiaram com a história forte e chocante que trazia. Isso aconteceu no mesmo ano em que nasci, portanto, só tive a oportunidade de conferir o filme muitos anos depois, ao me deparar com ele na sessão de clássicos da locadora. É óbvio que no meu videocassete a história não pareceu assim tão forte, nem chocante!

Terror no Motel Bates

        Mas nenhum cinéfilo que se preze passa incólume por Psicose. O título marcou gerações e mudou a história do cinema, dentro e fora das salas de exibição, na frente e por trás das câmeras. Para começar a falar sobre ele, vamos a uma rápida sinopse: Marion Crane, interpretada por Janet Leigh, rouba 40 mil dólares da imobiliária onde trabalha. É sexta-feira e ela decide dirigir sem rumo pelas estradas. Imagina que seu crime só será descoberto na segunda-feira. Para em um sombrio Motel, onde conhece Norman Bates (Anthony Perkins), o proprietário. Os dois conversam. Ele fala sobre sua vida e seus desentendimentos com a mãe, que mora na casa dos fundos. Ela, depois de esfriar a cabeça, se mostra arrependida do seu deslize e decide que irá devolver o dinheiro.

Cena do filme Psicose
Psicose: Anthony Perkins sob a direção de Alfred Hitchcock

Uma imagem icônica

        E de repente, vem o ponto de virada! É desnecessário dar qualquer aviso de spoiler, já que se passaram 60 anos desde o lançamento do filme – e já que a cena onde Marion é esfaqueada no chuveiro, ao som de um violino estridente e perturbador, tornou-se um dos maiores ícones do cinema mundial. Para horror da plateia, ela é assassinada com uma violência nunca antes vista no cinema. Desorientado com a morte da estrela na metade do filme, o espectador acompanha a irmã de Marion e seu namorado. Tenta desvendar seu desaparecimento com a ajuda de um detetive. Mas Hitchcock reserva ainda muitas surpresas e reviravoltas nessa história.

O livro foi mantido em sigilo!

        O roteiro de Psicose foi escrito por Joseph Stefano, baseado no romance homônimo de Robert Bloch, por sua vez baseado na história real do assassino Ed Gein. Hitchcock comprou os direitos de adaptação do livro e também todas as cópias disponíveis nas livrarias, para assegurar que ninguém o lesse. Manteve o final em sigilo! Essa foi a primeira jogada de marketing do mestre do suspense. Muitas outras viriam na sequência, para garantir o enorme sucesso nas bilheterias.

Cena do filme Psicose
Psicose: de repente, a personagem da estrela Janet Leigh morre

Preto e branco para evitar o jorro de sangue

        A violência gráfica e a provocação sexual apresentadas em Psicose foram de encontro aos costumes da época e testaram os limites da censura. A película foi filmada em preto e branco, não apenas como forma de cortar custos – sem o engajamento dos grandes estúdios, receosos quanto á recepção do público, Hitchcock teve que bancar parte do orçamento – mas também para conter o impacto das cenas encharcadas de sangue. Era inimaginável no início dos anos 1960 que o sangue vermelho simplesmente espirrasse na cara do público. Mas depois que o diretor abriu a porteira, esse tabu caiu por terra e passou a jorrar abundante nas telas de cinema.

Um mestre da improvisação

        A câmera de Hitchcock segue sempre os personagens principais, para criar uma narrativa em primeira pessoa. O objetivo é estabelecer a empatia do público para com eles. Conseguiu assim criar suspense e ampliar o impacto nos pontos de virada. O estilo improvisado do diretor, que gostava de tomar decisões no set de filmagem, a despeito do que estava inicialmente planejado no roteiro – em parte para evitar vazamentos de informações – influenciou na versão final que chegou às salas de exibição.

Cena do filme Psicose
Psicose: jovem, simpático e... psicopata!

Um Norman Bates repaginado

        Psicose inovou também na estrutura narrativa. Na abertura, o roteirista Joseph Stefano apresenta Marion como protagonista. No entanto, sua morte prematura exigiu que fizesse outras mudanças em relação ao romance original. Como o público teria que desenvolver empatia por Norman Bates, que a partir daí conduziria a narrativa, ele foi caracterizado como um jovem simpático e de boa aparência, ao contrário do estereótipo do vilão descrito no livro.

Uma trilha sonora memorável

        Outro ponto de destaque em Psicose está na sua trilha sonora. É de arrepiar! Seu autor, Bernard Herrmann, ajudou a moldar a linguagem musical do cinema. Foi ele quem primeiro usou o ataque das cordas em semínimas para criar tensão e movimento, um recurso inovador na época e que ainda hoje é carta na manga dos compositores para cinema. Seu último trabalho foi em Taxi Driver, filme de Martin Scorsese. Quem pretende compor para cinema tem que estudar a fundo a vasta obra do compositor.

Cena do filme Psicose
Psicose: um filme que funciona na sala de cinema, para o coletivo da plateia

O primeiro filme de terror moderno

        Para concluir, é preciso lembrar que Psicose já teve um remake, dirigido em 1998 por Gus Van Sant. O que ele fez foi simplesmente filmar novamente o roteiro de Joseph Stefano, onde os atores interpretam o mesmo texto, mas de forma diferente. Como proposta cinematográfica, o diretor deliberadamente decidiu não fazer um remake, mas sim, fazer praticamente o mesmo filme do ponto de vista dramático. Pode ter valor acadêmico, para os estudiosos da sétima arte, mas para os cinéfilos, não funcionou! Soou como uma perda de tempo, já que nada de novo foi acrescentado. Psicose é o primeiro filme de terror moderno. Marcou nossos pais e merece ser visitado por nossos filhos e netos.

Veredito da crônica de cinema

★★★★★(5 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção criativa de Alfred Hitchcock, o roteiro de Joseph Stefano, a trilha sonora memorável e a concepção visual aurada.

O que impressiona: Hitchcock faz um filme para as plateias e alcança o coletivo dos espectadores. Suas inovações vão além do cinema e chegam ao campo do marketing.

Imperdível. É um marco histórico.

Ficha técnica do filme Psicose

Ano de produção: 1960
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Joseph Stefano

Elenco:
  • Anthony Perkins
  • Janet Leigh
  • Vera Miles
  • John Gavin
  • Martin Balsam
  • John McIntire
  • Simon Oakland
  • Vaughn Taylor
  • Frank Albertson
  • Lurene Tuttle
  • Pat Hitchcock
  • John Anderson
  • Mort Mills

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Lendo sua crônica tão bem delineada me recordo de ter me interessado por psicologia depois de ver o comportamento de Norman Bates ( um dos personagens mais marcante de todos os tempos)!! Resumo com sua frase que já diz tudo:"Psicose é um clássico irretocável"!

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  3. Muito obrigado, Priscila. Há muito o que ser dito sobre Psicose. Inclusive a realização do filme foi dramatizada no filme Hitchcock, onde Anthony Hopkins interpretou o mestre do suspense. Vale a pena conferir!

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  4. Nossa, me despertou interesse em assistir agora

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    1. Que bom! O objetivo da Crônica de Cinema é esse mesmo: instigar e provocar o leitor para lançar novos olhares sobre os filmes.

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