Crítica | Taxi Driver: cinema visceral, realizado com garra e estilo. Continua perturbador


Cena do filme Taxi Driver
Taxi Driver: filme de Martin Scorsese

UM PERSONAGEM ATORMENTADO, UMA CIDADE CÚMPLICE E UM TEMA PARA SAXOFONE

Na foto que escolhi usar para ilustrar esta crônica sobre Taxi Driver, filme de 1976 dirigido por Martin Scorsese, vemos ao volante do yellow cab o jovem e perturbado Travis Bickle. Ele está com os olhos arregalados, revelando desconfiança e apreensão, enquanto observa pelo retrovisor o passageiro no banco de trás. O sujeito, sinistro e perturbado, pede a Travis que pare em frente a um prédio e observe, numa janela, a silhueta de uma mulher. A sua mulher! A mulher que ele sabe infiel, já que a flagrou em pleno ato de traição; descreve como pretende matá-la com requintes de perversidade! Seu tom de voz irradia tanta dor de cotovelo e desejo de vingança, que consegue incutir em Travis a noção de que, sim, é possível matar alguém, como forma de corrigir o que julga estar errado.

Ator e diretor trabalhando em parceria

        A cena retrata mais uma jornada pela madrugada nova-iorquina  um episódio banal e em aparente desconexão com a trama do filme  e pode parecer que foi escrita apenas como tentativa de causar estranhamento ou de criar uma atmosfera soturna. Não é nada disso! Ao volante, no papel de Travis, temos Robert De Niro em pleno trabalho de criação do personagem intenso e complexo que marcaria sua carreira. No banco de trás, temos o diretor Martin Scorsese, que faz uma ponta como passageiro no seu próprio filme; parece estar ali apenas para soprar ideias demoníacas na mente do personagem intenso e complexo que também marcaria sua carreira como cineasta.

Gosta de analisar os filmes em profundidade?

Se você prefere as resenhas detalhadas, com indicações de bons filmes, adoraria lhe enviar a minha newsletter gratuita. Toda semana tem um texto novo e exclusivo, que você pode receber direto no seu e-mail. Junte-se à comunidade da Crônica de Cinema!

Inscreva-se grátis clicando aqui

Cena do filme Taxi Driver
Taxi Driver: interpretação magistral de Robert De Niro

A cumplicidade de Nova Iorque

        Tentei passar aqui uma ideia da energia criativa envolvida na realização de Taxi Driver, um filme visceral, que chegou aos cinemas como um presente para os apaixonados por cinema. Há muito o que ser dito sobre essa produção, que até hoje causa arrepios; gostaria de ressaltar, em primeiro lugar, a incrível abordagem estética imposta por Martin Scorsese. Sua perspicácia em captar a vibração da cidade de Nova Iorque e fazer dela um personagem – uma eminência parda, coautora das insanidades que Travis cometerá –, em grande medida é a responsável pelo caráter atemporal do filme.

Um tema para saxofone

        Nessa tarefa em especial, o diretor contou com a ajuda da música poderosa e inesquecível de Bernard Herrmann, autor da trilha sonora. Seu tema para saxofone, assoprado o tempo todo em nossos ouvidos, evoca diferentes significados, conforme vai se imiscuindo com o campo visual; agrega os sentimentos mais diversos ao subtexto e criam uma atmosfera ao mesmo tempo tensa e intimista. Vale destacar que Bernard Herrmann foi um dos compositores que ajudaram a moldar a linguagem musical do cinema, moldando sua função narrativa e a sua capacidade de conduzir as emoções do espectador de acordo com as intenções do diretor. Mais lembrado por ter assinado a trilha sonora do filme Psicose, dirigido por Alfred Hitchcock, o compositor escreveu para Taxi Driver sua última partitura.

Cena do filme Taxi Driver
Taxi Driver: a primeira aparição de Jodie Foster

A sinopse: um psicopata enfurecido

Aos vinte e seis anos, Travis Bickle (Robert DeNiro) vai trabalhar como motorista de taxi, fazendo corridas noturnas numa Nova Iorque habitada por prostitutas, drogados e todo tipo de aventureiro solitário. Ele mesmo é um sujeito só e com dificuldades de preencher seu vazio existencial; os traços de sua mente perturbada começam a ficar nítidos na medida em que se envolve com personagens que cruzam seu caminho: a bela Betsy (Cybill Shepherd), cabo eleitoral do senador Charles Palantine (Leonard Harris), a prostituta pré-adolescente Easy (Jodie Foster em seus tenros 13 anos) e seu cafetão Sport (Harvey Keitel)... Os reveses que sofre ao tentar se relacionar, aos poucos colocam Travis em estado de fúria. Ele compra armas, treina, prepara-se fisicamente e esboça planos vagos e imprecisos, que logo deixam muito claro: alguém vai acabar morto!

Um roteirista engajado

        O roteiro de Taxi Driver foi escrito por Paul Schrader, quando ele ainda não tinha 30 anos. Já havia escrito Yakuza em parceira com Robert Towne, filme dirigido por Sidney Pollack, mas nesse projeto de Martin Scorsese acabou se envolvendo de corpo e alma. Inspirou-se no caso de Arthur Herman Bremer, condenado a 63 anos de prisão pelo assassinato de George Wallace, candidato a presidente dos Estados Unidos pelo partido Democrata em 1972. Bremer publicou, em parceira com Harding Lemay o livro intitulado Diário de Um Assassino, mas Paul Schrader afirma que escreveu seu roteiro antes que ele fosse publicado.

Cena do filme Taxi Driver
Taxi Driver: Palma de Ouro no festival de Cannes

Um considerável investimento emocional

        O fato é que o protagonista de Taxi Driver é uma criação desenhada a seis mãos: Paul Schrader foi responsável por sua psique confusa e atormentada, Martin Scorsese pela atmosfera misteriosa que o cerca e Robert De Niro por sua caracterização assustadoramente esquizofrênica e convincente. O filme recebeu quatro indicações para o Oscar, incluindo a de melhor filme. Saiu sem estatuetas, mas ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1976 e um lugar no panteão dos grandes filmes da década de 1970. Produto da determinação e da dedicação de jovens apaixonados por cinema, só foi feito porque todas as pessoas envolvidas investiram pesado, financeiramente, profissionalmente e emocionalmente.

Sempre caio na arapuca

        Há em Taxi Driver um efeito desconcertante: por mais que você já conheça a história do jovem motorista de taxi e saiba como ela vai terminar, não resiste em observar, fuçar, xeretar... Você é capturado na armadilha e se entrega a um voyeurismo despudorado. Foi assim que me senti outro dia. Aproveitei que o filme estava disponível no serviço de streaming, fiz sinal e embarquei. Foi uma viagem! Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★★★(5 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Martin Scorsese, o roteiro impecável de Paul Schrader, a atuação magistral de Robert De Niro e a trilha sonora envolvente de Bernard Herrmann.

O que surpreende: o filme não envelhece! Sua construção é tão sólida que ainda estaremos falando dele nas próximas décadas.

Imperdível. É cinema de alta qualidade.

Ficha técnica do filme Taxi Driver

Ano de produção: 1976
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Paul Schrader

Elenco:
  • Robert De Niro
  • Cybill Shepherd
  • Peter Boyle
  • Jodie Foster
  • Harvey Keitel
  • Leonard Harris
  • Albert Brooks
  • Martin Scorsese
  • Victor Argo
  • Steven Prince

Leia também as crônicas sobre outros filmes dirigidos por Martin Scorsese:

Comentários

  1. Complexo como a sofisticada metrópole como pano de fundo de um enredo que toca em vários temas existenciais dos personagens.
    Keitel, Foster, De Niro e a gata da série compõe uma alegórica análise do tecido de uma época cinzenta.
    Scorsese faz um espetáculo de ritmo lento mas que explode findando com maestria, sem retoques. Obra prima noir.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, Alexander, esse é um filme tão bem costurado que conquistou um lugar no topo, entre os melhores da história do cinema.

      Excluir

Postar um comentário

Confira também:

Crítica | À Espera de Um Milagre: um clássico emocionante de 1999

Crítica | O Despertar de uma Paixão: as diferenças entre o filme e o romance original