Crítica | Tron: Ares: Joachim Ronning conseguiu rejuvenescer o visual dos primórdios da CGI, em mais um filme de ação desenfreada

Tron: Ares: direção de Joachim Rønning
NO CINEMA, O IMPERATIVO VISUAL JÁ NÃO É O MEMSMO!
Esse terceiro filme da franquia Tron, intitulado Tron: Ares dirigido em 2025 por Joachim Rønning, é uma produção endinheirada, que se confunde com todas as outras geradas no universo dos super-heróis. Este cinéfilo criterioso já não estava interessado em conferir, mas por uma conjunção de fatores afetivos – um delicioso programa de fim de semana com toda a família é para ser aproveitado ao máximo –, decidi encarar; e devo reconhecer que não me arrependi!
Vale pelo entretenimento
Numa sala de cinema IMAX, diante da enormidade da tela e do som estrondoso, o filme encontrou sua razão de ser: Tron: Ares é um filme de ação ágil e descomplicado, que só deseja entreter, ainda que os realizadores tentem nos fazer enxergar um certo verniz tecnológico e... filosófico! Antes de seguir com o raciocínio, deixe-me lembrar da sinopse:
Tron: Ares: Joachim Ronning dirige mais um filme de ação desenfreada
Corrida contra o relógio
O que acompanhamos é a história que começou com Kevin Flynn (Jeff Bridges) e agora continua como uma guerra entre grandes corporações, que tentam percorrer o caminho inverso: usar o tal feixe de raios extrator como uma espécie de impressora 3D para trazer ao mundo real as armas e outros artefatos bélicos criados no mundo dos computadores. Uma dessas criações é o Programa de Controle Mestre Ares (Jared Leto), uma espécie de soldado infalível.
Tron: Ares: embaralhando o real e o digital
O problema é que essas criações só se materializam por 29 minutos; depois, voltam a ter existência apenas digital. A corrida do filme é para encontrar um tal de “código de permanência” e evitar que ele caia em mãos erradas, enquanto Athena (Jodie Turner-Smith), um outro programa, luta sob as ordens do vilão Dillinger (Evan Peters).
Visual rejuvenecido
Tron: Ares é bem roteirizado. Tem poucos e bons personagens, segue uma trama envolvente e não se perde em cenas expositivas; vai direto para a ação e encontra soluções dramáticas convincentes. A direção do norueguês Joachim Rønning – ele já dirigiu outros sucessos da Disney como Piratas do Caribe: A Morte Não Conta e Malévola: Dona do Mal –, é segura e competente; espertamente ele conseguiu rejuvenescer as antológicas motos de luz e até remeter ao campo visual do primeiro Tron, com a ajuda de um envelhecido Jeff Bridges.

Tron: Ares: de novo, as motos de luz brilham ligeiras
A computação gráfica ainda engatinhava
Quando foi lançado o primeiro Tron, dirigido por Steven Lisberger 1982, corri para o cinema. Já trabalhava com criação publicitária e tinha grande interesse pelo futuro da computação gráfica. Confesso, porém, que me decepcionei quando descobri que apenas 15 minutos do filme continha imagens geradas por computador (CGI) – tecnologia que engatinhava na época. A maior parte, cerca de 53 minutos, era composta por cenas filmadas com atores em cenários reais, pintadas manualmente quadro a quadro, num sofisticado processo de animação que demandou o trabalho de mais de 500 artistas e produtores. Além disso, outros 17 minutos estavam recheados de efeitos animados desenhados à mão! Bem, em se tratando de uma produção da Disney, não fiquei surpreso.
Hoje, CGI é a regra
Quando Tron: O Legado, a continuação dirigida por Joseph Kosinski chegou aos cinemas em 2010, a tecnologia digital já estava amadurecida e se impunha como regra no mundo do cinema. Hoje, nem um único frame chega aos olhos do espectador sem antes receber tratamento adequado, ainda que meramente cosmético ou corretivo. Por trás dessa ditadura, o que sempre esteve em primeiro plano era o imperativo visual; o objetivo era enganar os olhos do espectador com truques de prestidigitação: carros que se transformam em robôs gigantes, a terra que se abre em terremotos devastadores, portais estelares que deixam passar entidades alienígenas... A magia do cinema ensimesmou-se em suas infinitas possibilidades. Até que vem a Disney novamente com a sua franquia Tron e nos cutuca com novas promessas.

Tron: Ares: é fácil enxergar no protagonista uma figura messiânica
Um protagonista com ares messiânicos
Em Tron: Ares, encontrei tempo para refletir sobre as implicações filosóficas do filme. Especulei sobre a inversão de valores que mostra Ares, o deus grego da guerra, como o mocinho, enquanto Athena, a deusa da sabedoria, mais associada à inteligência, à justiça e às artes dá, uma de vilã implacável. Enxerguei na estampa de Jared Leto um esboço messiânico; uma espécie de Jesus Cristo, que se faz de Logos encarnado, mas que na verdade não passa de um anjo caído. E o mundo digital ficou mais parecido com o mundo do além, conforme entendido pelos espíritas, que é habitado por almas a espera de reencarnação.
Interferindo em nossas habilidades narrativas
Estou viajando na maionese? Talvez, mas saí do cinema com uma certeza: o campo visual já não é o imperativo do cinema. Em tempos de inteligência artificial, a tecnologia digital nos trouxe para uma nova realidade cognitiva e agora está interferindo diretamente nas nossas habilidades narrativas! Contar histórias em 2025 é uma atividade muito diferente da que era em 1982! O ChatGPT que nos diga. Se quiser mais detalhes, pergunte a ele! Eu fiz a pergunta e gostei da resposta!
Direção: Joachim Rønning
Roteiro: Jesse Wigutow
Veredito da crônica de cinema
★★★☆☆(3 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura de Joachim Ronnng, o roteiro bem costurado e o visual impecável.
O que decepciona: o filme abre espaço demais para a ação desenfreada e desperdiça a oportunidade de se aprofundar nas questões filosóficas que envolvem a inteligência artificial e a tecnologia digital em nossas vidas.
Vale a pena. É um bom entretenimento.
Ficha técnica do filme Tron: Ares
Ano de produção: 2025Direção: Joachim Rønning
Roteiro: Jesse Wigutow
Elenco:
- Jared Leto
- Greta Lee
- Miru Kim
- Evan Peters
- Jodie Turner-Smith
- Hasan Minhaj
- Arturo Castro
- Gillian Anderson
- Jeff Bridges
- Cameron Monaghan
- Sarah Desjardins
- Selene Yun
- Catherine Haena Kim
- Narsha Kim
- Aaron Paul Stewart
- Roger Cross
- Roark Critchlow
- Katharine Isabelle
- Gary Vaynerchuk
- Kwesi Ameyaw
Atena também é deusa da guerra
ResponderExcluir