Apocalypto: mais do que um filme de perseguição

Cena do filme Apocalypto
Apocalypto: direção de Mel Gibson

UM FILME SOBRE O MEDO E A VIOLÊNCIA QUE O CULTIVA

Quando as ideias econômicas dos marxistas naufragaram irrecuperavelmente, o que fizeram os pensadores da esquerda? Agarraram-se à filosofia de Jean-Jacques Rousseau, o escritor suíço do século XVI, expoente do iluminismo; suas ideias forneceram munição tanto para os liberais como para os comunistas, mas foram estes últimos que se esbaldaram na sua visão de mundo coletivista. Para Rousseau, os problemas da humanidade começaram quando decidimos conviver em sociedade e instituímos a propriedade privada. Deduziu que o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe; emplacou o conceito do “bom selvagem”, que vivia em perfeita harmonia com a natureza, sem vícios ou maldades, até que veio o processo civilizatório e infundiu-lhe todo o mal. A narrativa colou!
        Basta percorrer algumas poucas páginas da nossa história para entender que é justamente o contrário: o mal sempre esteve lá, o tempo todo fustigando nossa convivência, até que a civilização greco-romana impôs regramentos éticos e morais que viabilizaram nossa existência em sociedade. Nos anos Antes de Cristo, certas barbaridades nem eram crimes; Depois de Cristo, ficou clara a diferença entre o certo e o errado, cada indivíduo que fizesse a própria escolha.
        Enquanto isso, no Novo Mundo da virada dos anos 1500, o embate entre o bem e o mal seguia intenso entre os tais povos originários. E as guerras ente eles eram regidas por um pavoroso vale-tudo – o poder, conquistado e exercido com o uso da violência ilimitada, era o fim que justificava todos os meios; mandavam os mais fortes, obedecia quem preferia continuar vivo. O “bom selvagem” – aquele em harmonia com as questões ambientais – não exercia seu papel em tempo integral; cultivava a violência na maior parte do tempo, enquanto lutava contra perigos pavorosos – o pior deles vinha das tribos rivais.
        Quem decidiu visitar essa realidade foi o diretor Mel Gibson, no seu filme Apocalypto, realizado em 2006. Interessado em rodar um filme de perseguição com muita ação, ele inventou uma história simples e primitiva, onde conseguiu retratar o medo primordial que o homem certamente experimentou enquanto lutava para sobreviver na natureza selvagem. Mel Gibson escreveu em parceria com Farhad Safina, o produtor e diretor de TV que o ajudou na pós-produção de A Paixão de Cristo; ambientaram a história na península de Iucatã, durante o período da civilização Maia, antes da chegada dos espanhóis. Vejamos como ficou a sinopse do filme:
        Apocalypto conta a história de Jaguar Paw (Rudy Youngblood), um hábil caçador que vive numa pequena aldeia com sua mulher grávida, Seven (Dalia Hernández), e seu filhinho, Turtles Run (Carlos Emilio Báez). Eis que, sem qualquer aviso, um grupo comandado por Zero Wolf (Raoul Trujillo) invade a aldeia e promove um massacre. Jaguar Paw sobrevive, depois de esconder sua família em um poço; é feito prisioneiro junto com uns poucos sobreviventes e levado até uma cidade Maia, onde as mulheres são vendidas como escravas. Os homens, no entanto, serão levados até o topo de uma pirâmide e mortos num ritual de sacrifício macabro: terão seus corações arrancados do peito, as cabeças decepadas e os corpos atirados em uma vala comum, tudo para aplacar a fúria dos deuses que estão impondo um período de fome e doenças. Jaguar Paw terá que sobreviver e voltar para a aldeia, para tentar salvar a mulher e o filho que correm perigo. Acontece que terá no seu encalço um enfurecido Zero Wolf, que se revela o mais implacável dos perseguidores.
        Mel Gibson filmou Apocalypto nas selvas de Catemaco, no estado mexicano de Vera Cruz, em locações que permitiram contar sua história com um realismo impressionante. A produção exigiu uma infraestrutura complexa e o clima local acabou estendendo o período de filmagens para além do cronograma previsto; o resultado, entretanto, foi compensador: o filme vem carregado de tensão e aflição, mostrando que a fúria do meio ambiente só piora o desconforto, enquanto os personagens mergulham em seus delírios de crendices e simbolismos.
        Para complicar, todos os personagens falam um dialeto maia específico da península de Iucatã e a maioria dos atores jamais teve experiências anteriores diante das câmeras; foram recrutados na região pelo próprio diretor. Por tudo isso, seu filme irradia uma autenticidade assustadora, ainda que especialistas em história tenham criticado a encenação dos rituais de sacrifício humano em massa, que na verdade eram praticados pelos Astecas – embora a arqueologia tenha resgatado algum material iconográfico que mostra essa prática em menor escala pelos Maias.
        Apocalypto é um filme sobre o medo. Fala da violência como resposta ao medo que se sente em um mundo governado por forças incompreensíveis; da violência como forma de impor medo e subjugar os mais fracos. Mel Gibson evita mostrar os detalhes mais sangrentos, desviando a câmera instantes antes da violência explodir, mas a deixa implícita nas expressões dos personagens: de horror nos rostos das vítimas, de êxtase nos olhares dos vilões.
        O protagonista, no entanto, encontra coragem. Vence o medo inspirado nos ensinamentos de seu pai, que diante da morte, vislumbrou significados transcendentais no existir – um lampejo de cristandade que nos acende a esperança. Mel Gibson toma o indivíduo como ponto de partida e mostra que são as vitórias de cada um, somadas às vitórias de todos os demais indivíduos, que movem a nossa história na direção da ordem, da justiça e da liberdade. Longe de ser um “bom selvagem” rousseauniano, Jaguar Paw se mostrou uma máquina destemida, em luta para proteger sua família e os valores nos quais acredita.

Resenha crítica do filme Apocalypto

Ano de produção: 2006
Direção: Mel Gibson
Roteiro: Mel Gibson e Farhad Safina
Elenco: Rudy Youngblood, Dalia Hernández, Jonathan Brewer, Mayra Serbulo, Morris Birdyellowhead, Carlos Emilio Báez, Amílcar Ramírez, Israel Contreras, Israel Ríos, María Isabel Díaz, Iazúa Laríos, Raoul Trujillo, Gerardo Taracena, Rodolfo Palacios, Ariel Galván, Fernando Hernandez, Rafael Velez, Diana Botello, Bernardo Ruiz, Ricardo Díaz Mendoza, Richard Can, Carlos Ramos, Ammel Rodrigo Mendoza, Marco Antonio Argueta, Aquetzali García, Gabriela Marambio, María Isidra Hoil e Abel Woolrich

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