Crítica | Frankenstein: Guillermo del Toro realizou um espetáculo audiovisual irretocável

Cena do filme Frankenstein
Frankenstein: criador e criatura em busca de respostas

EXCELENTE. SÓ NÃO PRECISAVA DAQUELA NARRAÇÃO EM OFF!

Com seu livro Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno, a escritora inglesa Mary Shelley criou um mito na acepção filosófica. Pôs em palavras a angústia que a humanidade experimentava naquele comecinho de século XIX, diante de um cientificismo cada vez mais dominante; aproveitando que nos esforçávamos para exercer as funções de Deus, ela criou um monstro feito com partes de nós e o animou por meio de uma eletricidade que ainda cheirava a magia. Passados 200 anos, sua criatura continua imortal, vagando pela cultura pop com incrível vitalidade – ganhou materialidade quando assumiu as feições de um Boris Karlof, porém, jamais enganou o público: não é humano! Está mais para um arremedo de gente, que nos inspira medo, repulsa e um bom tanto de pena.
        Sim, o que Mary Shelley criou foi uma boa oportunidade para discutir sobre o que nos torna humanos, dúvida que ainda nos persegue, já que não paramos de criar homens artificiais – robôs, androides, clones, replicantes e toda sorte de seres cada vez mais moldados à nossa imagem e semelhança, porém, desprovidos de alma. A autora também foi habilidosa em nos transportar para o lado oposto daquele que costumávamos ocupar, quando raciocinávamos sobre a interação entre o criador e sua criatura – de repente, éramos nós a arcar com a responsabilidade de atender os pedidos e orações; de compreender, perdoar, amar e dar esperanças.

O raiar da ficção científica

        Ao misturar elementos do romance gótico com especulações sobre as prováveis conquistas da ciência, a autora inglesa produziu as faíscas da ficção científica. Utilizou uma técnica consagrada na literatura: a narrativa em moldura, que conta uma história envolvente dentro de outra, criada para gerar credibilidade. Seu romance, portanto, consiste nas cartas escritas pelo capitão de um navio que rumava para o Polo Norte, mas encalhou numa crosta de gelo. Primeiro ele se deparou com o tal monstro, depois, com o próprio Doutor Victor Frankenstein, encontrado já à beira da morte. Enquanto relata o que ouviu do médico – e depois dá a versão revelada pelo próprio monstro –, o capitão fascina o leitor com possibilidades plausíveis, mas avisa: elas devem permanecer encaixotadas em limites éticos, sob pena de virar pesadelo.

Retomando a visão original de Mary Shelley 

        O fato é que essa história sobre o monstro movido a fúria e violência parece ter sido criada sob medida para o cinema; o audiovisual só fez ampliar o seu impacto e a deixou mais excitante, tensa e envolvente. Dezenas de filmes foram realizados, propondo as mais diferentes versões: góticas, impressionistas, escatológicas, romanceadas, compenetradas e até cômicas. Então, em 2025, vem o premiado diretor Guillermo del Toro e nos apresenta a Frankenstein, uma versão mais próxima daquela criada por Mary Shelley, ainda que recheada com intervenções pessoais.

Cena do filme Frankenstein
Frankenstein: como no livro de Mary Shelley, começa no Polo Norte

        Como no livro, seu filme começa no Polo Norte, onde o Capitão Anderson (Lars Mikkelsen) e seus homens encontram Victor Frankenstein (Oscar Isaac) e conhecem a fúria de um mostro dotado de superpoderes – imune a tiros e explosões, mais parece ter saído de um quadrinho da Marvel! Moribundo, o médico passa a narrar sua história desde a infância; conta como, por meio do seu irmão, William (Felix Kammerer), foi financiado pelo fabricante de armas, Henrich Harlander (Christoph Waltz), e sua sobrinha, Elizabeth (Mia Goth). Depois de muito trabalho, Victor traz à vida uma criatura única (Jacob Elordi), que apesar de monstruosa é um livro em branco, a ser preenchido com o que lhe for dado viver – e a sua versão da história também será apresentada.

Mudanças pontuais, mais palatáveis para o cinema 

        Fascinado por essa história desde garotinho, o diretor Guillermo del Toro planejava realizar Frankenstein há décadas. Quando finalmente viabilizou seu projeto, percebeu que precisaria fazer algumas modificações na trama, para que ela funcionasse nas telas. Escreveu um roteiro agarrado à estrutura do livro, mas criou o personagem do rico financiador e sua sobrinha, por quem Victor Frankenstein se apaixona. Também retratou o relacionamento conturbado entre o médico e seu pai, criando um fundo psicológico para justificar as loucuras do protagonista.

Cena do filme Frankenstein
Frankenstein: a excelência visual é marca registrada de Guillermo del Toro

        O ponto forte de Frankenstein está na sua concepção visual. O filme é um espetáculo grandioso, com figurinos, cenários e objetos de cena impecáveis. Palhetas de corres escolhidas de acordo com o momento narrativo, movimentos de câmera precisos, planos calculados para colocar o espectador na distância certa dos acontecimentos... Como já vimos em outros filmes com a grife Guilhermo del Toro, como A Forma da Água, Pinocchio, O Labirinto do Fauno e até Hellboy, a direção de arte se torna, ela mesma, um elemento narrativo, com poder hipnótico sobre o espectador.

Quem é o verdadeiro monstro, afinal?

        Guilhermo del Toro decidiu humanizar o seu monstro. Interpretado com brilhantismo por Jacob Elordi, ele domina a tela com uma inesperada emotividade; sua fúria é sempre uma resposta às provocações e seu maior desejo é livrar-se da imortalidade, para assim poder levar uma vida plena. Chegamos a pensar que Victor Frankenstein é o verdadeiro monstro; enlouquecido em sua ânsia de vencer a morte, não consegue se lembrar onde está localizado o próprio coração.
        Assisti a Frankenstein com os olhos arregalados, tentando alcançar todos os detalhes que saltam da tela; suas duas horas e meia de duração passaram num piscar de olhos e, durante os créditos finais, já fazia planos para revisitar o filme. Porém, caro cinéfilo, devo confessar que um detalhe me irritou profundamente: a desnecessária narração em off que o diretor fez questão de meter ao longo de todos os atos.
        Por que raios ele insistiu na redundância e obrigou seus personagens a recitar um texto tão esnobe? A narrativa visual impecável, em conjunto com a excelente trilha sonora assinada por Alexandre Desplat, já seria suficiente para guiar o espectador. Já seria cinema suficiente para fazer jus à obra de Marry Shelley. No lugar de Guilhermo del Toro – olha só que presunção! – já pensaria em planejar um novo corte, sem a irritante narração em off.

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆ (4 / 5 estrelas)

O que brilha: a estética visual impecável e a humanidade que Jacob Elordi traz ao monstro.

O que decepciona: a narração em off redundante que subestima a inteligência do espectador.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Frankenstein

Ano de produção: 2025
Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro

Elenco:
  • Oscar Isaac
  • Christian Convery
  • Jacob Elordi
  • Mia Goth
  • Felix Kammerer
  • David Bradley
  • Lars Mikkelsen
  • Charles Dance
  • Christoph Waltz
  • Kyle Gatehouse
  • Lauren Collins
  • Sofia Galasso
  •  Ralph Ineson
  • Burn Gorman
  • Nikolaj Lie Kaas

Comentários

  1. SERGIO DANTAS01/04/2026, 18:20

    Assistirei quando puder. "Frankenstein- O prometeu moderno" de Mary Shelley é considerado por muitos especialista como o primeiro romance de ficção cientifica. Houve muitas adaptações para o cinema embora até aonde eu saiba- sempre alterando muitas coisas da historia original. Na cultura popular tornou-se comum chamar alguém de Frankenstein como insulto a sua aparência. No entanto -na historia de Shelley- o monstro NÃO tem nome- por isso esse termo é totalmente infundado em seu objetivo.

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    Respostas
    1. Ah, Sérgio, o nome Frankenstein está infiltrado na cultura pop e serve para definir qualquer coisa que tenha sido montada com partes vindas de diferentes lugares, de diferentes origens. Alguns Frankensteins podem até resultar bonitos, mas carregam uma incoerência incontornável.

      Excluir

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