Crítica | Emergência Radioativa: irradia tensão e credibilidade


Cena da minissérie Emergência Radioativa
Emergência Radioativa: minissérie criada por Gustavo Lipsztein

CINCO EPISÓDIOS HIPNÓTICOS

Anatomicamente, o cérebro de um cinéfilo tem dois hemisférios: um deles só pensa em assistir aos filmes, o outro, só pensa em refletir sobre os filmes aos quais assistiu. O prazer que um deles prioriza é desprezado pelo outro. Pobre cinéfilo! Precisa repartir o pouco tempo que tem disponível para a sétima arte entre esses dois viciados exigentes. Um deles, eventualmente, acaba amargando abstinências. Dia desses, meu lado assistidor recebeu uma overdose, quando maratonei os cinco episódios da minissérie brasileira Emergência Radioativa (2016), criada por Gustavo Lipsztein. Que ótima experiência! Acompanhei uma história envolvente, contada com agilidade e vivida por personagens densos e verossímeis. Agora, é o meu lado refletidor que vai se esbaldar!

Uma história tristemente real

        Vamos começar pelo óbvio: Emergência Radioativa é baseada em fatos, ocorridos em 1987 na cidade de Goiânia. Pessoas simples e sem conhecimento técnico – ou seja, gente como a gente! – encontraram uma máquina de radioterapia dando sopa, a desmontaram e a venderam para um ferro-velho. Aberta, a cápsula contendo Césio-137 fez o que faria qualquer artefato nuclear: espalhou radioatividade, contaminou muita gente e deixou em pânico primeiro a cidade, depois o resto do país. Na época, acompanhei o caso pela mídia e fiquei intrigado: como algo tão idiota pôde acontecer justamente aqui no Brasil? Agora, assistindo à minissérie, esperava encontrar a resposta.

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Cena da minissérie Emergência Radioativa
Emergência Radioativa: como não estavam fiscalizando isso?

Uma ameaça invisível

        Em Emergência Radioativa, catadores em busca de material reciclável tiram a sorte grande: encontram, numa clínica abandonada, uma máquina recheada de chumbo. Levam a cápsula para o ferro-velho de Evenildo (Bukassa Kabengele), que a desmonta e fica tão maravilhado com o pó luminescente que o leva para casa. Sua mulher, Antônia (Ana Costa) também se encanta, mas depois de alguns dias, quando vê que todos na família adoecem sem explicação, ela decide levar a cápsula para o escritório da vigilância sanitária.

Cena da minissérie Emergência Radioativa
Emergência Radioativa: inspirada em personagens reais

        O médico que examina a família adoecida é sagaz: percebe sintomas de contaminação radioativa e aciona seu amigo Márcio (Johnny Massaro), que por coincidência é físico nuclear e está de passagem na cidade. Com seu contador Geiger, ele logo descobre a realidade alarmante: há uma fonte radioativa exposta, que está silenciosamente devorando Goiânia. As autoridades são acionadas e quem vem para resolver o problema é Benny Orenstein (Paulo Gorgulho), à frente da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Inicia-se uma corrida contra o relógio para interromper a contaminação, isolar o material radioativo, tratar os doentes e conhecer a verdadeira extensão do estrago.

O formato de minissérie foi um acerto

Passadas quatro décadas, poucos se lembram dos detalhes dessa tragédia. Gustavo Lipsztein percebeu a oportunidade de tocar no assunto e escreveu um ótimo roteiro; teve o bom senso de concebê-lo no formato de minissérie, onde pôde desenvolver os personagens com mais profundidade, sem ficar encurralado pela grande quantidade de cenas expositivas e sem ficar refém da abordagem documental demandada num eventual longa-metragem. Sua narrativa desvenda as várias tramas paralelas que envolveram não só as vítimas, mas também os cientistas e os médicos que precisaram lidar com toda aquela lambança radioativa.

Cena da minissérie Emergência Radioativa
Emergência Radioativa: o drama dos cientistas que debelaram a crise

Uma dramatização ficcionalizada

O grande mérito de Emergência Radioativa é manter o foco no drama humano. Há, sim, uma preocupação com a precisão técnica, já que há farto material disponível, documentado pelas autoridades; os realizadores, entretanto, estavam mais interessados em fazer... cinema! A narrativa ágil e envolvente é construída com elementos ficcionalizados, vividos por personagens inspirados nos protagonistas reais – todos tiveram seus nomes alterados e muitos foram condensados em um único personagem, para se adequar à linha dramática do roteiro. O grande vilão é a ameaça invisível que paira do começo ao fim, amedrontando, atordoando e criando uma atmosfera densa de incertezas e desconfianças.

Em ritmo de thriller

Até chegar ao formato narrativo de cinco episódios, o time que assina o roteiro de Emergência Radioativa precisou pesquisar bastante. Entrevistaram muita gente e fizeram um trabalho minucioso de reconstituição. Os diretores Fernando Coimbra e Iberê Carvalho conseguiram impor um ritmo preciso, conduzido sempre como uma corrida contra o relógio. Também souberam deixar que os atores fizessem a sua parte; o elenco competente irradia credibilidade e consegue emocionar. Há, é claro, os inevitáveis momentos melodramáticos, mas são tratados com pertinência.

Cena da minissérie Emergência Radioativa
Emergência Radioativa: o drama dos médicos pegos de surpresa

Que isso sirva de lição!

A tragédia retratada em Emergência Radioativa aconteceu em Goiânia, mas poderia ter sido em qualquer outra do planeta. Os danos foram contidos, graças à ação rápida e eficaz das autoridades. Oficialmente, tivemos quatro mortes imediatas, dezenas de outros, contudo, devem ter morrido ao longo dos anos por causa dos efeitos crônicos da radioatividade. Para cientistas nucleares do mundo inteiro, o episódio foi um aprendizado: os protocolos de proteção que temos hoje é resultado direto do trabalho heroico dos profissionais brasileiros. Se você quer mais dicas de bons filmes e séries, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Fernando Coimbra, o roteiro bem costurado, a atuação do elenco entrosado, a concepção visual precisa e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: os realizadores contornaram as armadilhas melodramáticas e souberam focalizar no drama humano com certa profundidade, aproveitando as oportunidades de um tema envolve.

Acima da média. É entretenimento de qualidade.

Ficha técnica da minissérie Emergência Radioativa

Ano de produção: 2026
Número de episódios: 5
Criação: Gustavo Lipsztein
Direção: Fernando Coimbra e Iberê Carvalho

Roteiro:
  • Gustavo Lipsztein
  • Fernando Coimbra
  • Rafael Spínola
  • Stephanie Degreas
  • Fernando Garrido

Elenco principal:
  • Johnny Massaro
  • Paulo Gorgulho
  • Tuca Andrada
  • Bukassa Kabengele
  • Ana Costa
  • Clarissa Kiste
  • Antonio Saboia
  • Alan Rocha
  • Marina Merlino
  • Victor Salomão
  • Leandra Leal

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