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Crítica | A Festa de Babette: Gabriel Axel realiza um filme com notável valor artístico, sobre o significado da gastronomia para o espírito

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A Festa de Babette: filme dirigido por Gabriel Axel UM FILME MADURO, REALIZADO COM GRANDE COMPETÊNCIA ARTÍSTICA Quem disse que a arte precisa estar submissa à ditadura da visão e da audição? Há muito material artístico para ser fruído por meio de outros sentidos, como por exemplo, o paladar. É disso que nos fala o filme A Festa de Babette , escrito e dirigido em 1987 pelo dinamarquês Gabriel Axel.   O filme ficou consagrado como uma ode à gastronomia e foi a primeira produção dinamarquesa a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro. Ainda hoje  encanta os cinéfilos por sua abordagem poética. Um conto de Karen Blixen             A Festa de Babette é a adaptação de um conto publicado pela escritora dinamarquesa Karen Blixen, mais conhecida pelo seu pseudônimo Isak Dinesen. Festejada em toda a Escandinávia, a autora se popularizou internacionalmente em 1985 quando teve seu livro autobiográfico,  Entre Dois Amores , adaptado para as telas ...

Crítica | Rota Selvagem: cinema maduro e competente

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Rota Selvagem: filme dirigido por Andrew Haigh É SOBRE ABANDONO E SOLIDÃO Quando sugeri assistir ao filme  Rota Selvagem , dirigido em 2017 por Andrew Haigh, minha mulher relutou; ficou incomodada com o título, que lhe remeteu a algum tipo de thriller violento. A sinopse da plataforma de streaming , no entanto, apontava na direção oposta: dizia se tratar de  um drama no estilo  road movie , contando a trajetória de amadurecimento de um garoto de 15 anos na companhia de um cavalo chamado Pete.  Ludy resolveu dar uma chance. Assistimos juntos e gostamos, mas terminamos com a certeza de  que os produtores não souberam vender corretamente esse filme: apesar de trazer cenas de estrada, não é propriamente um road movie ; apesar do protagonista passar por um penoso arco de transformação, não é um filme sobre amadurecimento, mas sim sobre o abandono e a solidão; apesar do relacionamento entre o garoto e o cavalo estar no centro da trama, não se trata de uma históri...

Não Olhe Para Cima: sátira política à procura de bons entendedores

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Não Olhe Para Cima: dirigido por Adam McKay SOBRAM FARPAS E CRÍTICAS PARA TODOS OS LADOS Quando foi lançado,  Não Olhe Para Cima , filme de 2021 dirigido por Adam McKay, causou um enorme impacto midiático. A onda de sucesso ressoou por vários dias – será que durou duas semanas? Seu estrondo se fez ouvir por todos os sites de entretenimento e feeds das redes sociais; virou o assunto da hora. Todos tentaram tirar proveito do filme e garantir audiência para seus comentários, críticas, análises, comparações... Quem tinha algo de inteligente a dizer, já o fez; quem teve ideia para um meme, já postou; quem precisava marcar território no campo ideológico, já fincou sua bandeira. Agora, sobraram o vento e o silêncio. O sabor de novidade se diluiu no caldo morno da cultura popular e a humanidade voltou ao habitual estado de espera pela próxima sensação do momento.           Não Olhe Para Cima foi feito da mesma substância fugidia que tentamos agarrar diariamen...

Sabor da Vida: tudo ao redor tem algo a nos dizer!

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Sabor da Vida: dirigido por Naomi Kawase QUANDO SONS E IMAGENS GANHAM EXPRESSÃO LÍRICA Depois de passar pela Covid, estava ansioso para retomar as crônicas de cinema. A variante que Ludy e eu contraímos naqueles auges da pandemia foi a menos agressiva; não posso dizer, entretanto, que as duas semanas de confinamento que nos impusemos foram aproveitadas como um período de férias. Nada disso! Aquele vírus foi um pé-no-saco! Febre, dor no corpo, cansaço permanente, tosse... Para complicar, percebi diminuição na acuidade visual e senti dificuldades para fixar os olhos numa tela ou página de livro. Pode haver maior perda de tempo? Mesmo assim, consegui assistir a alguns filmes – não tantos quanto gostaria! Acumulei assunto para alimentar o blog e saciei minha fome de bom cinema. Aliás, o primeiro filme que degustei naquele período de convalescença foi um verdadeiro banquete: Sabor da Vida , realizado em 2015 pela diretora japonesa Naomi Kawase.           Eis aqu...

Crítica | Um Crime de Mestre: será que existe um crime perfeito?

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Um Crime de Mestre: dirigido por Gregory Hoblit MANIPULANDO O SISTEMA JURÍDICO Crime perfeito existe, mas não é aquele cometido sem deixar pistas. É aquele cuja autoria não pode ser provada nos tribunais. Sabemos quem o cometeu e de que maneira, mas não conseguimos colocar o cretino na cadeia, porque ele descobriu como manipular o sistema jurídico; aproveitou-se do emaranhado burocrático criado pelos legalistas!  É nessa linha que segue o filme  Um Crime de Mestre , dirigido em 2007 por Gregory Hoblit. É um envolvente drama de tribunal, que nos faz torcer para que o assassino termine por receber o castigo que merece. E o  diretor tem experiência no gênero: dirigiu os filmes As Duas Faces de um Crime e A Guerra de Hart , ambos sobre os rituais de um julgamento e a manipulação dos trâmites legais. Vamos direto para a sinopse: Um Crime de Mestre: o espectador não tem dúvidas de que Ted Crawford é o assassino O plano calculista de Ted Crawford       ...

Crítica | À Espera dos Bárbaros: esse tem DNA de literatura

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À Espera dos Bárbaros: filme dirigido por Ciro Guerra DIRETO DA LITERATURA PARA AS TELAS À Espera dos Bárbaros , dirigido em 2019 por Ciro Guerra, é baseado no romance de mesmo nome escrito em 1980 por  John Maxwell Coetzee, o sul-africano ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2003. O autor  resistiu o quanto pôde e tentou segurar as rédeas da sua obra, mas acabou se rendendo aos encantos da sétima arte. Ele  mesmo assinou o roteiro. Fez uma ótima adaptação e conseguiu a fluência e a eloquência que desejava, mas causou um estranhamento no universo dos espectadores – que é diferente do universo dos seus leitores.   No cinema, o pacote vem pronto           Nas páginas de um livro, uma história segue no ritmo ditado pelo leitor. O que o autor pode fazer é combinar as palavras e sugerir uma cadência na sonoridade que elas evocam; também pode forçar a pontuação para impor as pausas e marcar a tomada de fôlego. Ainda assim, é na leitu...

Crítica | Imperdoável: Sandra Bullock se esforça, mas...

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Imperdoável: filme dirigido por Nora Fingscheidt QUEM NÃO MERECE PERDÃO SÃO OS ROTEIRISTAS! Já aviso: esta crônica será diferente daquelas que você costuma ler aqui na Crônica de Cinema. O motivo é que detestei esse filme! Ele é irritantemente fraco e mal construído. Para explicar meu ponto de vista, precisarei apelar para spoilers – o que evito ao máximo, mas aqui serão necessários. Assim, fica o alerta: caso não tenha assistido ao filme  Imperdoável , dirigido em 2021 por Nora Fingscheidt, talvez prefira fazê-lo antes de ler esse texto. Depois de ver com os próprios olhos, poderá voltar e conferir se as nossas opiniões convergem ou divergem. Adaptação de uma minissérie britânica         Em Imperdoável , Sandra Bullock interpreta Ruth Slater, que sai da prisão depois de cumprir pena durante 20 anos, por ter cometido um assassinato violento. Ela tenta retomar a vida, mas enfrenta o preconceito da comunidade e o ódio dos familiares do policial que matou. O ...