Imperdoável: Sandra Bullock merecia um roteiro melhor

Cena do filme Imperdoável
Imperdoável: filme dirigido por Nora Fingscheidt

QUEM NÃO MERECE PERDÃO SÃO OS ROTEIRISTAS!

Já vou logo avisando: esta crônica será diferente daquelas que você costuma ler aqui na Crônica de Cinema. O motivo é que detestei esse filme! Ele é irritantemente fraco e mal construído. Para explicar meu ponto de vista, precisarei apelar para spoilers – o que evito ao máximo, mas aqui serão necessários. Assim, fica o alerta: caso não tenha assistido ao filme Imperdoável, dirigido em 2021 por Nora Fingscheidt, talvez prefira fazê-lo antes de ler esse texto. Depois de ver com os próprios olhos, poderá voltar e conferir se as nossas opiniões convergem ou divergem.
        Antes de mais nada, quero lembrar que o filme Imperdoável é a adaptação para o cinema da minissérie em três episódios intitulada Unforgiven, escrita por Sally Wainwright e exibida na TV britânica em 2009. Vejo aqui o primeiro ponto fraco! O fluxo narrativo numa minissérie é diferente daquele apropriado para um filme. Lá há espaço para desenvolver tramas paralelas e esmiuçar personagens secundários. Aqui é preciso objetividade e foco na trama principal. Temos que ir direto ao ponto, deixando claro para o espectador sobre o que é o filme. A novata diretora alemã Nora Fingscheidt e os já experientes roteiristas Peter Craig, Hillary Seitz e Courtenay Miles não ligaram para isso. Condensaram no longa a mesma estrutura, com os mesmos personagens.
        Sim, se tivesse nos ombros o fardo de roteirizar para um filme a trama dessa minissérie, começaria promovendo um amplo corte de pessoal. Eliminaria vários personagens! Mas antes de listar as cabeças que deveriam rolar, quero ir ao ponto nevrálgico: sobre o que é, afinal, o filme Imperdoável?
        Estão enganados os que dizem que é sobre a intolerância da sociedade desigual e injusta, que jamais estende a mão para os que cometeram erros, mesmo que já tenham cumprido a devida pena. Também erram os que dizem que é sobre o determinismo que condiciona os personagens cercados por mazelas sociais. Tais temas aparecem ocasionalmente e apenas como pano de fundo. O filme Imperdoável é sobre... o amor materno! Simples assim. Em contraposição a esse amor, temos como elemento de conflito a dor da perda, que remói o antagonista e o leva a assumir atitudes estremas.
        Para continuar o raciocínio, vamos direto ao final do filme Imperdoável. É quando o embate entre Ruth Slater (Sandra Bullock) e Steve Whelan (Will Pullen) acontece. Finalmente ficamos sabendo que a protagonista é inocente. Ela assumiu a culpa pelo assassinato do policial, para proteger a irmãzinha Katie (Neli Kastrinos) que apertou o gatilho por acidente. E vejam, ela criava a garotinha como se fosse sua filha. Não! Ruth não é, afinal, uma criminosa abjeta. Ao contrário, é uma alma altruísta, capaz de dar a vida – 20 anos dela passados atrás das grades – e continuar se sacrificando para proteger sua cria. É nessas últimas cenas que fica clara a verdadeira dimensão do seu sofrimento.
        As perguntas que faço são: por que diabos os realizadores do filme Imperdoável não mostraram isso já nas primeiras cenas? Por que nos negaram a chance de criar empatia com a protagonista e torcer por ela o restante do filme? Talvez na TV o truque de omitir a verdade para gerar suspense tenha funcionado – o que duvido, já que a minissérie não alcançou sucesso expressivo. Mas no filme, foi um tiro no pé! Ficamos apenas com uma Ruth melancólica e atormentada, que sofre injustiças em série e se contenta em conquistar nossa compaixão, sendo que poderia ter ficado com nossa admiração logo de início! Por causa disso, o longa resultou fraco, desinteressante e superficial.
        Mas que tal imaginar uma versão do filme Imperdoável onde a história de Ruth se revele por inteiro, logo de imediato? Na sequência a veríamos saindo da prisão com o único propósito de ter notícias de Katie (agora interpretada na vida adulta por Aisling Franciosi) e certificar-se de que ela leva uma vida digna. Todo o preconceito, as injustiças e as ameaças que a protagonista enfrentará nessa jornada ganham intensidade em nossa percepção, já que agora conhecemos o arco dramático que ela precisará percorrer! Então, é o momento de trazer o antagonista para a trama! Falo de Steve, o filho do policial morto, cuja sede de vingança vem amplificada pela dor de ter sido separado do pai. Vejam a dimensão que ele assume na trama! Compreendemos suas motivações e sabemos que ele não é um completo mau-caráter, mas torcemos para que não faça escolhas impensadas, já que sabemos de antemão que Ruth não merece continuar pagando por um crime que não cometeu.
        Agora vamos colocar o resto do elenco no paredão! E aqui falo na qualidade de pretenso roteirista metendo o bedelho numa história que não me pertence. Dane-se! No meu próprio filme Imperdoável, começaria fuzilando o irmão de Steve, o nervosinho Keith (Tom Guiry), um personagem que nada acrescenta à trama principal. Outro que elimino sem dó é Blake (Jon Bernthal) o sujeito com quem Ruth tenta desenvolver um frustrado relacionamento – as cenas em que aparece são patéticas, constrangedoras e mal escritas. Não fará a menor falta. Vou mais longe: corto toda a família de John Ingram (Vincent D'Onofrio), o advogado que fica ao lado de Ruth. Infelizmente isso implicaria em perder o brilho de Viola Davis, uma atriz magnética. Paciência, perdas assim fazem parte do jogo.
        Minha ousadia máxima nessa imaginária versão do filme Imperdoável seria eliminar Emily (Emma Nelson), a filha legítima dos padrastos de Katie. Não precisamos dela para intermediar as verdadeiras emoções que interessam: o conflito entre a mãe adotiva e a atormentada Ruth – vemos um pálido lampejo disso quando Ruth se reúne com os pais adotivos da irmã, cena que serviu apenas para revelar a precariedade do roteiro filmado pela diretora alemã. Nesta nossa hipotética versão, o advogado John se agigantaria, assim como Vince (Rob Morgan), o oficial da condicional, ambos exercendo uma influência positiva sobre Ruth. Pronto! Agora é só seguir com a trama, aproveitando o espaço dramático que sobrou para desenvolver melhor o personagem de Katie, que tem potencial para fazer bem mais do que apenas caras e bocas de boa moça.
        Ah! E lanço aqui uma ideia espetacular para recuperar o vazio deixado por Viola Davis! Imagine trazê-la de volta para ser a viúva do tal xerife assassinado! Movida por uma descomunal sanha vingadora, seria uma vilã e tanto. Pronto, está decidido: vamos eliminar o corno do Steve! Eis aqui um filme Imperdoável ao qual adoraria assistir. Seria uma adaptação mais apropriada para o formato de longa-metragem, bem menos entediante.
        Mas chega de brincar de roteirista. O fato é que Imperdoável é uma aposta certeira de Sandra Bullock, uma atriz competente que em nova parceria com a Netflix tenta repetir o sucesso comercial obtido por Bird Box. Creio que terá êxito, pois seu público certamente será condescendente com as falhas aqui mencionadas – talvez nem sequer as considerem. Mas imagine se a atriz e produtora tivesse nas mãos um roteiro melhor, que aproveitasse todo o seu talento dramático? Certamente evitaria aborrecer os telespectadores com uma bobagem tão... imperdoável!

Resenha crítica do filme Imperdoável

Título original: The Unforgivable
Ano de produção: 2021
Direção: Nora Fingscheidt
Roteiro: Peter Craig, Hillary Seitz e Courtenay Miles
Elenco: Sandra Bullock, Vincent D'Onofrio, Jon Bernthal, Richard Thomas, Linda Emond, Aisling Franciosi, Rob Morgan, Viola Davis, Emma Nelson, Will Pullen, Tom Guiry, W. Earl Brown e Jessica McLeod

Comentários

  1. Achei sua crítica tão pertinente, que deu vontade de refazer o filme desta maneira. Abc Silveira

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, Silveira, muito obrigado! O cinema é uma arte inspiradora e está sempre nos estimulando a pensar por diferentes ângulos. É uma honra ter você como leitor. Abraços!

      Excluir

Postar um comentário

Confira também:

O Impossível: a história real da família de María Belón

Menina de Ouro: a história de Maggie Fitzgerald é real?