Faces da Verdade: um thriller político acima da média

Faces da Verdade: direção de Rod Lurie
VERDADE: VALOR QUE NÃO PODE SER RELATIVIZADO
Sempre reservo um dia da semana para exercer o que chamo de... extrativismo cinematográfico: vasculho as plataformas de streaming com método e paciência, atento a qualquer pepita mais reluzente. Não é sempre, mas elas aparecem, presas na minha peneira criteriosa. Dessa vez, meu achado foi Faces da Verdade, escrito e dirigido em 2008 por Rod Lurie. Depois de reconhecer o nome do diretor, responsável por ótimos filmes como A Última Fortaleza e Posto de Combate, este cinéfilo garimpeiro apertou o play e não se arrependeu.Faces da Verdade é um thriller político ágil e envolvente, com um roteiro bem costurado, diálogos bem escritos e ótimas interpretações. É entretenimento, mas tem qualidades estéticas e faz provocações que fazem pensar – nos lembra que a verdade é tudo o que de fato importa. Antes de começar a destrinchar o filme, deixe-me primeiro descer a lenha no título adotado aqui no Brasil: ele vai na direção oposta do conceito sugerido pelo título original, Nothing But the Truth (Nada Além da Verdade). Enquanto os realizadores tratam a verdade como valor absoluto, nossos incansáveis progressistas de plantão se apressam a relativizá-la, sugerindo que ela tem várias faces. Ridículo! Tentaram atenuar a mensagem embutida no filme, plantando minhocas na cabeça dos cinéfilos distraídos. Para seguir explicando meu ponto, terei que apresentar a sinopse:
O filme conta a história fictícia de Rachel Armstrong (Kate Beckinsale), uma jornalista do jornal ávida por subir na carreira. Ela publica uma matéria bombástica, que abala os alicerces da Casa Branca e revela a identidade de uma agente secreta da CIA, chamada Erica Van Doren (Vera Farmiga). Acontece que o governo considera o ato uma traição grave, sujeita a prisão; mandam que o promotor Patton Dubois (Matt Dillon) abra um processo e exija que a jornalista revele o nome da sua fonte. Ela se recusa, alegando seus direitos constitucionais. O que faz o governo? Passa por cima da liberdade de imprensa e põe Rachel Armstrong atrás das grades, até que ela dê com a língua nos dentes. Agarrada às suas convicções, ela agora luta para salvar a vida pessoal e familiar, mas só pode contar com a ajuda precária do seu advogado almofadinha, o intragável Albert Burnside (Alan Alda).
Em Faces da Verdade, o embate é claro: de um lado, temos os políticos manipulando o sistema de justiça, agarrados na desculpa esfarrapada de defender a segurança nacional; tentam intimidar e controlar a imprensa, para preservar seus interesses. No lado oposto, temos os cidadãos, crentes de que suas liberdades individuais estão garantidas; esperam que a imprensa siga intimidando e controlando o governo, para conter a algazarra institucional. No meio, temos uma profissional da imprensa, irredutível em não abrir mão dos seus direitos; equilibra-se na linha tênue que separa a dignidade da mera servidão. Felizmente, o diretor Rod Lurie é hábil em cravar suas lentes nos personagens, deixando as tramoias políticas como pano de fundo.
A jornalista vivida por Kate Beckinsale e a agente secreta interpretada por Vera Farmiga vêm suas vidas pessoais desmoronando. Mães e esposas, elas de repente se flagram priorizando a vida profissional, cientes de que seus filhos e maridos não resistirão aos petardos em série que virão. Serão rotuladas como loucas, traidoras da pátria, inconsequentes e tudo o mais que convier ao sistema interessado apenas em autopreservação. Haverá espaço para arrependimentos, medos e exames de consciência, mas ambas parecem determinadas a seguir, irredutíveis. Será que a corda arrebentará do lado mais fraco?
Rod Lurie é um cineasta que traz na bagagem muito mais do que o domínio da linguagem cinematográfica; ex-cadete de West Point, conhece bem os meandros políticos e militares. Também trabalhou como jornalista e já precisou bater o pé para proteger o sigilo de suas fontes; vem daí o seu interesse pelo tema, que há tempos pretendia explorar em um filme. Em 2005, quando veio à tona o caso real da jornalista americana Judith Miller, presa porque se recusou a revelar para o governo o nome da fonte que expôs Valerie Plame, uma agente da CIA envolvida em tramoias ilegais, o diretor viu a janela de oportunidade se abrir. No entanto, decidiu trabalhar no campo da ficção, criando personagens e imaginando situações diferentes. Nem se deu ao trabalho de ler os livros publicados sobre o caso real.
É surpreendente como Rod Lurie conseguiu não se render ao sentimentalismo. Faces da Verdade segue, do começo ao fim, sem excessos melodramáticos ou rompantes de urgência típicos dos thrillers. A maioria das cenas cruciais, que envolvem reações emocionais dos personagens, transcorrem sem música incidental, numa clara tentativa de evitar manipular os sentimentos do espectador. O resultado é um bem-vindo tom de honestidade e credibilidade, que deixa claros os princípios e valores defendidos pelo diretor. Os personagens que inventou não são modelos de perfeição; ao contrário, exibem fraquezas e vacilam, mas transpiram humanidade pelos poros.
O fato é que Faces da Verdade jamais estreou oficialmente nos cinemas. A distribuidora decretou falência e frustrou os planos dos produtores, interessados em conseguir alguma visibilidade comercial para o filme. Para nossa sorte, há espaço de sobra nos serviços de streaming, conectando o cinema competente praticado por Rod Lurie com os cinéfilos que demandam produções honestas e caprichadas – só precisamos estar dispostos a trabalhar no garimpo! Para nosso azar, os ideólogos de plantão insistem em embaçar todo o conteúdo, relativizando até mesmo os conceitos mais sólidos, como a verdade. É inútil! Estamos sempre atentos.
Resenha crítica do filme Faces da Verdade
Título original: Nothing But the TruthAno de produção: 2008
Direção: Rod Lurie
Roteiro: Rod Lurie
Elenco: Kate Beckinsale, Matt Dillon, Vera Farmiga, Angela Bassett, Alan Alda, David Schwimmer, Courtney B. Vance, Noah Wyle, Floyd Abrams, Preston Bailey, Kristen Bough, Julie Ann Emery, Robert Harvey, Michael O'Neill, Kristen Shaw, Angelica Page, Jamey Sheridan e Pamela Jones
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