A Última Fortaleza: história inspiradora sobre a natureza da liderança

A última Fortaleza: filme dirigido por Rod Lurie

O FINAL É PREVISÍVEL, MAS ISSO NÃO É DEMÉRITO!

Liderança é qualidade que brota espontânea nas palavras e atitudes do prisioneiro Eugene R. Irwin, o tenente-general vivido por Robert Redford. Já para o diretor do presídio, o coronel Winter, interpretado por James Gandolfini, qualquer liderança que não seja a sua é erva daninha, que põe em risco sua autoridade e fere de morte o seu amor próprio. Em A Última Fortaleza, filme de 2001 dirigido por Rod Lurie, o embate entre os dois vira batalha campal, planejada como uma acirrada partida de xadrez, mas repleta de reviravoltas violentas.
        A sinopse do filme é praticamente essa. Vale apenas acrescentar que o tenente-general Irwin chega à prisão militar de segurança máxima sentenciado a dez anos por ter desobedecido uma ordem presidencial. Mandou tropas para o Burundi, numa missão que fracassou e deixou um saldo de oito combatentes mortos. Seu desentendimento com o coronel Winter é imediato, já que ambos têm visões opostas da vida militar. Com o passar dos dias, na medida em que a rotina de maus-tratos por parte dos carcereiros vai ficando escancarada, duas coisas começam a crescer imensamente: o desejo de Irwin por fazer justiça e o respeito dos demais prisioneiros pelo seu oficial de mais alta patente. Em pouco tempo, seu espírito de liderança consegue unificar os prisioneiros em torno de uma causa comum: tirar o comando da prisão das mãos sanguinárias do coronel Winter.
        Certo, é preciso que se diga: trata-se de uma história improvável! O presídio ao qual somos apresentados está longe de ser verossímil. É habitado por arremedos de criminosos, que passam o tempo entretidos em suas rotinas resignadas. Não se dividem em gangues violentas para disputar o controle da prisão, não traficam drogas e não interagem com a corrupção dos carcereiros. Na outra ponta, os oficiais e guardas da prisão são capazes de eliminar prisioneiros sem cair nas malhas de qualquer tipo de corregedoria. São eles os vilões! Estamos, portanto, diante de um estereótipo de prisão, povoado por prisioneiros estereotipados. Mas isso não é propriamente um demérito!
        Meu ponto é que, salvo exceções numericamente inexpressivas, os espectadores que se dispõe a assistir ao filme A Última Fortaleza jamais conheceram por dentro uma prisão de verdade. Não estão interessados em abordagens documentais ou análises sociológicas. Querem apenas alguns minutos de entretenimento e ver cumprida a promessa feita pelos realizadores logo nas primeiras cenas: que os mocinhos, munidos até os dentes com seus valores altruístas e virtudes morais, derrotem os vilões inescrupulosos num final previsível, mas coerente com a fama dos atores talentosos que estrelam essa produção.
        E essa luta, caro leitor, não será amena! Exigirá disciplina, coragem, lealdade, trabalho em equipe, respeito à hierarquia, visão estratégica, capacidade tática, comunicação assertiva, sacrifícios, honradez... A Última Fortaleza nos dá uma visão precisa do que é ser um militar, na medida em que vemos esses valores sendo devolvidos aos prisioneiros pela força de um líder respeitado. O diretor Rod Lurie, que tem sólida carreira na televisão, pisou com segurança nesse terreno, já que ele mesmo é um graduado da academia militar de West Point. Aqui ele realiza uma direção protocolar e sem ousadias, mas mantém o controle da história, garantindo que ela soe inspiradora e permeada por momentos emocionantes. Lamento, no entanto, que ele tenha dado ao seu filme um forte sotaque de televisão: faltou aquele “sangue no olho” que vemos nos filmes mais realistas sobre a vida na prisão – mas isso resultaria num filme totalmente diferente!
        Com história de David Scarpa – mais tarde ele escreveria os roteiros do remake O Dia em que a Terra Parou e de Todo o Dinheiro do Mundo – e roteiro final assinado por Graham Yost, o texto não pretende mais do que ser inspirador. Não espere abordagens filosóficas inovadoras, nem abordagens psicológicas em profundidade. Só pretende mostrar do que é feita a liderança e de como ela é capaz de vencer batalhas perdidas. A Última Fortaleza é um excelente passatempo para quem procura um filme leve, mas com doses bem administradas de ação e conspiração.

Filme: A Última Fortaleza

Data de produção: 2001
Direção: Rod Lurie
Roteiro: David Scarpa e Graham Yost
Elenco: Robert Redford, James Gandolfini, Mark Ruffalo, Steve Burton, Delroy Lindo, Paul Calderon, Samuel Ball, Jeremy Childs, Clifton Collins Jr, George W. Scott, Brian Goodman, Michael Irby, Frank Military, Maurice Bullard e Nick Kokich

Comentários

  1. Se não me engano já foi postado uma crônica sobre esse trabalho do Redford?

    Bem, com certeza um padrão comum de Hollywood onde mais uma vez sistema e homem entram em colisão e mais ainda apimentado quando nessas circunstâncias e contexto do universo militar. Carcereiro e prisioneiro. Um realista-veterano-pratico, outro idealista-idearista-burocratico. Suas visões de mundo se conflituaram facilmente dentro do regime imposto pois a humanidade é sempre descartável como conveniente....
    Melhor sequência que denota e revela nos o começo do duro aprendizado como tapa na cara do sistema numa alegoria e história convincente, sem ser uma obra prima, mas ótimo filme.
    Ao entrar no gabinete o prisioneiro vê uma enquete fiel duma batalha americana do passado em detalhes, ele diz achando que está falando pra si mesmo espantado "quem cultiva essas coisas jamais esteve em batalha alguma. Não sabe o que é uma guerra" dito isto, sob olhar e presença escondido do seu carcereiro metódico que ferido na alma, não sossegará para demolir o valor de um homem superior de hierarquia como da superioddade humana do mesmo.

    CONFIRAM, uma ótima pedida.

    Vlw
    Esse conheço
    E está entre os meus favoritos
    Obrigado, Crônica.

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