Crítica | Os Vigaristas: Ridley Scott nos brinda com uma comédia dramática envolvente, com reviravoltas no final

Os Vigaristas: filme de Ridley Scott
UM FILME REPLETO DE VIGARICES
Uma sutiliza sobre o filme Os Vigaristas, dirigido em 2003 por Ridley Scott, está no seu título original: Matchstick Men. Podemos traduzir a expressão como “homens palito de fósforo”, uma gíria em inglês para vigaristas. A sonoridade, porém, é bastante próxima à expressão Majestic Men, que significa “homens majestosos”. Qualquer anglófono, portanto, entenderá que a estampa majestosa de um vigarista é parte integrante do seu ser, e que ela virará fumaça depois que a vítima tomar consciência de que foi tapeada; ficará apenas um inútil palito de fósforo carbonizado e deformado. Ou seja: só esse título original já fez rodar um filme inteiro na minha cabeça de cinéfilo ansioso.A sinopse: uma vida de tranbiques
Antes de examinar Os Vigaristas., precisaremos conhecer a sua sinopse. O filme é sobre Roy Walker (Nicolas Cage) e Frank (Sam Rockwell) que se dedicam a tapear velhinhas incautas e aplicar pequenos golpes em Los Angeles. O problema é que Roy é um neurótico e sofre de vários distúrbios compulsivos, combinados com agorafobia e pitadas de síndrome de Tourette. Fica sem os remédios que toma regularmente e perde o contato com o psiquiatra de quem costumava comprar as receitas; vê-se forçado a procurar outro médico e a retomar as sessões de terapia. Para complicar, surge em sua vida uma filha de 14 anos, Angela (Alison Lohman), de cuja existência suspeitava, mas que agora aparece materializada na sua casa, doce e encantadora, para atrapalhar sua vida de trambiqueiro.
Os Vigaristas: Ridley Scott tem sempre um truque na manga!
Acho que já vi esse filme antes!
É claro que Roy e Angela experimentarão a montanha russa emocional inevitável num relacionamento entre pai e filha que acabaram de se conhecer. É claro ele não terá outra alternativa senão iniciar a garota no mundo da vigarice e ensinar-lhe uma profissão lucrativa. É claro que você, leitor atento, já percebeu a semelhança com o enredo do clássico Lua de Papel, filme de 1973 dirigido por Peter Bogdanovich e estrelado por Ryan e Tatum O’Neal. Mas não se preocupe: Os Vigaristas conta uma história com desdobramentos diferentes e traz originalidade suficiente para garantir um bom entretenimento.Adaptação do romance de Eric Garcia
Ridley Scott é um cineasta competente: seu filme segue num ritmo impecável e recebe um tratamento audiovisual primoroso; concentra-se nos personagens, cria uma atmosfera envolvente de bom humor e, na medida em que a história se complica, encontra o fio da meada emocional para manter o espectador hipnotizado. O roteiro que ele filma é bem costurado; trata-se de uma adaptação feita por Ted Griffin, em parceira com seu irmão, Nicholas, do romance Os Vigaristas, escrito pelo americano Eric Garcia. O livro não oferece literatura de excelência – o autor, embora mostre domínio do tema para distrair o leitor com as minúcias dos trambiques, não consegue desenvolver os personagens a contento –, mas na tela, sua história ganhou estatura, com um final que consegue ser... edificante!
O Vigaristas: um elenco empenhado em distrair o espectador
Um filme cheio de truques
Um filme sobre vigaristas só podia nos chegar repleto de vigarices! A primeira delas é a própria atriz Alison Lohman, que na época já estava com 22 anos, mas conseguiu convencer no papel da menina vivaz e inconsequente. Outro truque bem-sucedido de Ridley Scott foi o de minimizar os tradicionais excessos de Nicolas Cage, um ator que às vezes tropeça na teatralidade e erra na escolha de alguns filmes em que atua; aqui ele entrega uma atuação convincente. Um terceiro truque do diretor foi o de deixar que as referências ao filme Lua de Papel distraiam o espectador, enquanto o conduz até às reviravoltas no último ato.A esperteza cobra um preço
Os Vigaristas é um ótimo filme, por causa da intervenção de Ridley Scott. O diretor se rende ao sentimentalismo em alguns momentos, mas o contrapõe com toques de humor sutil; ainda assim, jamais deixa de ressaltar a tristeza que habita o interior de personagens que se esforçam para ser confiáveis, apenas para deixar de sê-lo no instante seguinte. Os vigaristas se valem da ganância e da arrogância de suas vítimas, mas não têm descanso: precisam ser mais espertos do que todos ao redor; ao se aproximar emocionalmente das suas presas, flertam com o perigo, por isso são obrigados a manter distância da descontração, do relaxamento, da felicidade...
O Vigaristas: o drama dos personagens fica em primeiro plano
Vigaristas e o conto do vigário
Em bom português, um vigarista é aquele que passa um conto-do-vigário, uma história mentirosa e intrincada, mas verossímil, encenada por escroques com habilidades teatrais. Tradicionalmente, as histórias mais famosas eram protagonizadas por supostos emissários de algum vigário, que transitavam pelos vilarejos exalando a inocência da devoção religiosa; pediam para a vítima guardar provisoriamente um embrulho com uma grande quantia em dinheiro; pediam também alguns trocados, suficientes para que pudessem seguir viagem e resolver problemas urgentes. É claro que jamais voltariam. É claro que a dinheirama deixada sob a guarda do otário não passava de embuste. É claro que o tal vigário não tinha nada a ver com a trama... Será?Veredito da crônica de cinema
★★★★☆(4 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura de Ridley Scott, as atuações hipnóticas de um elenco afinado, o roteiro bem costurado e a estética audiovisual caprichada.
O que surpreende: o ponto de virada no final chega de forma orgânica, sem que o diretor perca o foco no drama dos personagens.
Acima da média. É cinema de qualidade.
Ficha técnica do filme Os Vigaristas
Título original: Matchstick MenTítulo em Portugal: Amigos do Alheio
Ano de produção: 2003
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Ted Griffin e Nicholas Griffin
- Elenco:
- Nicolas Cage
- Sam Rockwell
- Alison Lohman
- Bruce Altman
- Bruce McGill
- Sheila Kelley
- Beth Grant
- Jerry Hauck
- Steve Eastin
- Melora Walters
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