Estarei ouvindo coisas?

Quem gosta de música acaba abrindo os ouvidos para detalhes que não soam claros no dia-a-dia

Miles Davis toca em português


Talvez tenha passado tempo demais sob o sol escaldante que banha a MPB e agora esteja ouvindo... miragens. O fato é que quando ouço Stella by Starlight, interpretada por Miles Davis em Kind of Blues (Disco 2), tenho a nítida impressão de que o trompete dele toca em português.

Você não concorda comigo? Preste atenção! A acentuação das oxítonas, o fraseado envolvente, a prosódia quase familiar... É como se pudéssemos encaixar uma letra no português coloquial falado em botequins – ao pé do ouvido, depois da segunda dose!

Stella by Starlight é um clássico americano, sem qualquer relação com o Brasil. Foi composta em 1944 e a quantidade de astros que a gravaram é incontável. Mas com essa gravação do Miles Davis, feita em 1958, poderia jurar que ela veio para nós, brasileiros, embalada para presente.



Admito que tratar uma canção americana, composta no idioma deliciosamente escorregadio de Shakespeare, como se fosse brasileira, é uma heresia. Mas, na minha opinião, há hereges muito mais pecaminosos. São aqueles que tentam escorregar com maciez pela língua portuguesa, emulando fonemas que são pronunciados com mais fluência em inglês. Escute o Tim Maia em Acenda o Farol e você vai perceber o ponto onde quero chegar. Se estiver distraído, pode ouvir “send’o farow” – ou seja lá o que isso queira dizer.

O resultado alcançado pelo Tim Maia é brilhante. Sacolejando ao som empolgante da Vitória Régia, você pode se vangloriar de que a MPB é capaz de tudo, até mesmo de ser original na praia dos americanos. Viva os hereges talentosos!

Outros artistas brasileiros são mais reverentes ao nosso trato com o idioma. Os “ões” e “ães” aparecem abundantes nas canções do Chico Buarque, do Djavan, do Gil, por exemplo, e nos permitem explorar com prazer a nossa preferência pela pronúncia nasalada – que nos faz verdadeiros lusófonos. Já em Manhã de Carnaval, do Luiz Bonfá, não é só o salto melódico, num belíssimo intervalo de sexta menor, que encanta ouvintes de todo o mundo. A exótica presença do til ressalta a tristeza de uma manhã tão bonita, que só poderia amanhecer assim, jorrando fulgurante introspecção, lá no Rio de Janeiro.

Diana Krall cantando Este seu Olhar, do Tom Jobim, vem no sentido contrário. Seu português de pronúncia áspera, com as vogais sopradas na direção dos formantes labiais, nos chega aos ouvidos causando estranhamento. Onde já se ouviu uma bossa nova assim, cantada com tamanha descompostura? A vontade é a de mostrar para a canadense que, antes de encontrar o “meu” olhar, é preciso fazer escala no nariz!

Mas a reverência e o respeito pela música brasileira demonstrados pela cantora é tão grande que fazemos questão de ouvir sua interpretação elegante até fim. O romantismo é um tempero universal!

Talvez esteja mesmo passando tempo demais sob o sol escaldante que banha a MPB. Mas quem pode resistir a tamanha luminosidade? Nossa música é diversa, envolvente, profunda... Pode-se passar o tempo todo ouvindo canções brasileiras sem ficar entediado.

É claro que não fecho os ouvidos para o que vem de fora – isso seria a maior das tolices, especialmente num mundo hiperconectado. E é claro também que não pretendo cuspir no prato em que comi: minha infância e minha juventude foram expostos aos rocks, blues, reagges, jazz e pops que consumi com gosto e despreocupação. Tenho uma ligação afetiva com a “música internacional”.

Mas outro dia ouvi alguém se dizendo fanático por MPB, que só ouve MPB o tempo todo e que não quer saber de ouvir outra coisa além de MPB... Para logo em seguida emendar um jocoso “Música Popular Britânica”.

Para os que dão preferência às criações musicais geradas em inglês, jamais torço o nariz. Não posso culpar essa gente, pois os anglófonos também exibem uma música diversa, envolvente e profunda, com a vantagem de ser melhor compreendidos em seu próprio idioma. Além do mais, devo admitir: eles fazem a segunda melhor música popular do mundo!

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Comentários

  1. Caro cunhado,
    Não entendo lhufas de música e muito menos de orgânicos. Minha dieta é nutrida por quadradinhas de dó que seguramente trazem muito agrotóxico em sibemol. Por isso, vou me ater a elogiar apenas o seu texto. Seu ritmo, suas figuras de linguagem, a composição correta que faz um texto fluir sem dificuldades para o leitor. Pelo contrário. Cada frase tem o dom de despertar a curiosidade pela próxima.
    Estas pequenas reflexões tem aguçado minha curiosidade sobre o Ventania. Continue desenvolvendo essa sua virtude. Não sei onde isso vai te levar. Mas seguramente, teremos a história do caminho muito bem contada.
    Parabéns e sucesso.

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    1. Valeu, Clovis!!! Estou justamente tentando acertar a sintonia entre o que tenho a dizer e o interesse das pessoas. Isso vai demorar muitos e muitos meses... Vamos ver no que isso tudo vai dar!

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