Inveja acaba com qualquer festa

Festa de final de ano na empresa serve para comemorar, confraternizar e... desmascarar os invejosos


Um invejoso desmascarado

            Jamais imaginei que um dia estaria escrevendo sobre a inveja. Eis um tema ao qual nunca dei importância – proteger-me contra os invejosos era desnecessário, pois, na minha ingênua concepção, bastaria ignorá-los para manter suas vibrações danosas fora de alcance. Mudei de ideia quando nossa filha chegou de São Paulo para passar conosco as festas de final de ano.

            Seu relato emocionado sobre o desagradável episódio que viveu dois dias antes, durante a festinha de natal da “firma”, nos deixou tensos e preocupados. Ludy e eu não conseguimos falar de outro assunto durante nossas caminhadas e, acreditem, essa conversa vai se estender por muitos quilômetros ainda.

            – Que sujeito covarde – repeti diversas vezes enquanto seguíamos a passos apressados pelas ruas do bairro. Ludy, também muito irritada e com a autoridade de quem já conviveu com a inveja no trabalho, reforçou:

            – Daqui pra frente ela vai ter que tomar muito cuidado com esse cara!

            Por óbvio que tomamos para nós as dores da nossa filha! Que pais não o fariam? Não conhecíamos o tal vilão da história – sequer o seu nome fora mencionado – mas deduzimos que um sujeito capaz de declarar guerra em público, num momento festivo e inapropriado, só poderia estar possesso de inveja. Dali em diante, não teria escrúpulos em agir para prejudicar o objeto do seu rancor invejoso.  

            Nossa filha é artista plástica e há anos vem procurando seu caminho profissional em São Paulo. Graduada e pós-graduada, encontrou nos seus talentos como ilustradora e diretora de arte a oportunidade de fazer carreira. A profissão exige mais do que capacidade técnica e artística: é preciso ganhar reconhecimento para ser requisitada, o que só vem depois de alguma exposição e de obter certa visibilidade. Posso resumir tal cenário em uma única palavra: competitividade!

            É da natureza humana competir. Fazemos isso o tempo todo, desde bebês, disputando com os irmãos, com os colegas, os amigos, na faculdade, no trabalho... Atitudes competitivas são saudáveis e não são exclusivas do meio publicitário. Várias profissões são desempenhadas em ambientes de acirrada concorrência, onde a disputa pelo poder chega a ganhar contornos épicos – verdadeiras guerras pelo trono.

Acontece que na publicidade as armas que se costuma empunhar são mais reluzentes: a originalidade, a ousadia, a altivez, o desprendimento, a pose, o estilo... Publicitários não competem apenas no plano das ideias. Se apegam à dimensão material das suas criações e passam a colecionar imagens, fotografia, leiautes, anúncios, filmes, cartazes... Constroem seus portfólios reunindo as oportunidades que conseguem transformar em resultados palpáveis e dignos de serem exibidos.

Uma dessas oportunidades bem aproveitadas estava em destaque no ambiente de comemoração em que nossa filha se encontrava. Um trabalho de grande visibilidade, do qual ela havia participado, estava tendo ótimas repercussões na “firma”. Os elogios chegavam como merecida recompensa depois da correria para cumprir os prazos apertados. Feliz com as congratulações que recebia, ela aproveitava a festa de final de ano para festejar e relaxar. Para ela, 2019 terminava com sucesso motivador. O novo ano se aproximava esperançoso, anunciando mais oportunidades.

       Porém, quem se aproximou mais veloz foi o sujeito invejoso. Num arroubo inesperado, veio sem freios e dando de dedos. Disparou uma sequência de frases que, de tão entaladas, escaparam ligeiras, ricocheteando de ódio. Nossa filha estava sozinha e ouviu incrédula aquele rosnado raivoso, sem saber como reagir. As poucas pessoas ao redor, muito provavelmente, não atinaram o que acontecia.

        – Você não é nada! Você não tem experiência, não tem bagagem, não tem competência...  Você não merece estar onde está. Você não tem futuro por aqui. Você não tem capacidade... Você não tem talento, não tem isso, não tem aquilo... – Foram essas as palavras em sequência que, imagino, podem ter saído da boca do invejoso, entre tantas outras que nossa filha listou no seu curto relato. Palavras que só fizeram denunciar a inveja que borbulhava ácida no estômago do sujeito e deixaram claro o imenso desgosto que ele sentia por estar vendo no rosto dela a felicidade que desejava para si.

            Não, o sujeito não estava tentando apenas colocá-la para baixo, desmotivá-la e tirá-la da competição. Estava declarando guerra! Um colega de trabalho, que compartilha a mesa ao lado e desfruta do seu convívio diário, ao se prestar a um tal assédio moral, já tem tudo calculado: quer que você se foda!

            Como pai, não consigo deixar de me colocar no lugar da minha filha, tendo diante de mim um sujeito talvez embriagado, mas imbuído da audácia e da coragem que os covardes só demonstram na frente das garotas pegas de surpresa. Diante delas se agigantam ameaçadores. Diante de outro homem do seu tamanho, talvez o sujeito se pusesse mais relutante – se arrotasse com a mesma petulância, levaria logo um direto no queixo. Diante de outro homem do seu tamanho, a história terminaria naquele tipo de confusão que põe fim a qualquer festa e entra para o fabulário de qualquer “firma”.

            Ao invés disso, nossa filha fez o que deveria ter feito. Desvencilhou-se e, demostrando desprezo por todas aquelas palavras torpes, retirou-se. Foi ao banheiro. É claro que lá ela desabou. As colegas que a encontram aos prantos a ajudaram e logo intuíram os motivos. As que ouviram de sua boca o relato emocionado, não se surpreenderam – parece que o sujeito já tinha fama de invejoso.

            Depois de se recompor, nossa filha tratou de superar o episódio. Na companhia dos colegas mais próximos, continuou se esforçando para que a festa terminasse bem. Mais tarde, despediu-se dos colegas e saiu de cabeça erguida. Ao final da noite estava em casa, em segurança.

Mas essa história está longe de acabar. Pior... Ludy e eu não fazemos ideia de como serão os próximos episódios. Enquanto caminhávamos, as perguntas iam se acumulando:

– Como ela vai trabalhar tendo que conviver diariamente com esse sujeito na mesa ao lado?

– Que tipo de sacanagem um sujeito desses ainda pode aprontar?

– De que forma ela pode se proteger?

– Os colegas ao redor já sabem do ocorrido? Poderão ajudar?

– Como será começar o ano sabendo que haverá um invejoso declarado espionando o tempo todo?

            Dos pecados capitais, a inveja é o mais difícil de ser redimido. De nada adianta o nobre gesto de perdoar um invejoso. Pode-se perdoar suas ações destrambelhadas e impetuosas, mas a causa continuará lá, borbulhando ácida até que jorre em uma nova erupção – sem que se possa prever quando e com qual intensidade.

            Percebo agora a dificuldade real de lidar com a inveja. Ela é pesada, ganha densidade no ambiente de trabalho e nos põe em vigília. Um mísero cochilo e o invejoso sai aprontando, sabotando, minando reputações... Invejosos se disfarçam de puxa-sacos, de críticos severos, de fofoqueiros... Agem quase sempre na surdina, tentando disfarçar o desgosto que sentem pela felicidade dos outros. Mas um invejoso declarado é de uma categoria diferente. É mais assustador!

            Como pais, Ludy e eu nos pusemos em alerta. É claro que caberá à nossa filha lidar com toda essa situação – ela já é adulta e sabe se cuidar! Mas é nosso dever ajudá-la. Somos mais experientes e estamos a uma tal distância do problema que talvez nos ajude a manter um olhar mais frio e abrangente. Mais do que dar palpites, queremos dar boas orientações. 

            Vamos ter que remoer esse assunto em nossas próximas caminhadas, até que o tema se esgote. Até que as perguntas comecem a ser respondidas.



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