No Mundo de 2020

COMO NUM FILME, FUI COLHIDO POR UM BURACO DE MINHOCA E VIAJEI NO TEMPO!


No Mundo de 2020: filme dirigido por Richard Fleischer

       Decidido a me tornar engenheiro, conforme era desejo do meu pai, entrei na então Escola Técnica Federal do Paraná para estudar eletrônica. Era 1976, ano em que completaria 16 anos. Logo nas primeiras semanas de aula, o cineclube da escola exibiu o filme No Mundo de 2020 (Soylent Green, no original), uma produção de 1973 estrelada por Charlton Heston e dirigida por Richard Fleischer, que misturava ficção científica e trama policial para encenar um futuro distópico e pessimista.
        A qualidade da película não vem ao caso. Ela surge aqui como um pretexto para desenvolver esta crônica. O que interessa é seu título, que naquele dia me obrigou a fazer as contas e chegar a uma conclusão estarrecedora:
        – Putz! Vou estar com 60 anos!
        Sentado na escada do pequeno anfiteatro – o cineclube estava lotado naquela tarde de sábado – tentei exercitar minhas habilidades de futurólogo, mas não tive sucesso. Não consegui imaginar como seria minha vida em 2020. Não consegui prever se estaria casado, se ainda estaria morando em Curitiba, se teria um emprego, um carro, uma casa... Só me veio uma única certeza, clara e indiscutível: estaria velho e enrugado. Seria um idoso!
        Distraí-me durante a projeção, acompanhando outras cenas que se passavam na minha mente. Enxerguei a mim mesmo de barba e cabelos brancos, andando com menos vigor, mais pensativo e prudente. Mais sisudo e menos afobado. Viajado, calejado e forjado. Fiquei curioso para saber detalhes sobre aquele homem velho e misterioso, mas logo soube que levaria uma vida inteira para conhecê-lo.
        Ao longo dos anos, nunca esqueci o título daquele filme. Para mim, 2020 passou a ser uma referência, uma espécie de ponto de chegada. Em vários momentos da minha vida esses números surgiram diante dos meus olhos, em tipos luminosos e garrafais, denunciando a passagem do tempo. No dia em que conquistei o primeiro emprego que de fato valia a pena... Na primeira vez que botei os pés fora do Brasil... No momento em que segurei minha filha recém-nascida nos braços... Na cama com a mulher que amo, fazendo planos grandiosos... No dia em que nos mudamos para o nosso apartamento definitivo...
        Percebo agora o que de fato aconteceu comigo: fui capturado por uma espécie de conexão espaço-temporal, que me pôs simultaneamente em dois momentos: aquele que em 1976 me fez meditar e este, que me obriga a digitar palavras que escorregam com facilidade, porque vêm umedecidas pela emoção.
        Olhando para mim mesmo, sozinho na escada do cineclube, mas cercado de gente da minha idade, sinto-me em vantagem: conheço muito bem aquele garoto de quase 16 anos. Sei dos seus medos, dos seus desejos, dos seus planos. Sei quando ele vai acertar e onde vai errar feio. Sei das oportunidades que desperdiçará e da sorte que terá por conhecer as pessoas que o ajudarão a chegar em 2020.
        No momento em que deixei o cineclube, o relógio começou a correr. E correu ligeiro! Poucos meses depois meu pai nos deixou, vítima de um acidente nas estradas. Em um ano a vontade de ser engenheiro desapareceu. Dois anos mais tarde estaria conseguindo meu primeiro emprego na publicidade – que estava longe de valer a pena. Em poucos anos conheceria a mulher da minha vida. Construiria minha própria família. Escreveria, desenharia, tocaria violão, assistiria a incontáveis filmes e... faria muitas e muitas caminhadas com a Ludy.
        Para mim, 2020 é um ano emblemático. Estou há décadas conectado a ele. Sua chegada trouxe uma certa apreensão, afinal, é o ano em que farei 60 anos. Já não o vejo como um ponto de chegada. Ele está mais para ponto de referência. É apenas um termo de comparação. Por sorte as profecias daquele filme triste não se confirmaram – pelo menos não naquelas proporções catastróficas. Também não me tornei um sujeito sisudo e vagaroso. Embora tenha menos cabelo do que imaginei, estou longe de me sentir um idoso.
        Em pleno ano de 2020, me dou conta de que não tenho vocação para a futurologia. Aliás, ninguém tem! Quem poderia imaginar que estaríamos vivendo uma pandemia desastrosa, com tantas implicações em escala global. Estamos tendo que construir o ano dia após dia, como todos os outros que já vivemos. Com esforço e paciência, com otimismo e esperança.
        Não faço ideia de como 2020 terminará, mas estou adorando reconhecer no espelho esse sujeito que vem se revelando para mim ao longo da minha vida inteira. Além disso, quem garante que não termino pego por uma nova conexão espaço-temporal, que me levara para outro filme? Ooops... Quero dizer: para outro ano!

Crítica do filme:

No Mundo de 2020

Data de produção: 1973
Direção: Richard Fleischer
Roteiro: 
Harry Harrison e Stanley R. Greenberg
Elenco: Charlton Heston











Comentários

  1. Fantástico vc ter uma data 2020 como limite e isso aos dezesseis anos. Eu sequer conseguia pensar 2 anos à frente dos meus 16. Muito interessante essa memória Fábio.

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  2. Não é uma data limite. É um horizonte, um ponto de comparação... Também acho fantástico caminhar por esses labirintos da memória. De repente a gente vai lembrando de coisas incríveis!

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  3. Fábio, como sempre vc escreve muito bem. E falar de outros tempos é sempre interessante.

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    1. Muito obrigado! Estou me esforçando para lapidar meus textos nesses posts diários no Facebook e também nas crônicas semanais aqui no blog. É um exercício e tanto!

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