Um ano novo mais descolado

Antes de mais nada é preciso admitir: há muitas incertezas pairando sobre 2020


Caminhada 2020

        O clima neste finzinho de dezembro não deu trégua em Curitiba. A temperatura despencou para os catorze graus e tivemos que caminhar sob uma garoa fina e insistente. Mas não nos deixamos intimidar.

          Começamos a circular pelo bairro disputando espaço com os motoristas apressados, que pareciam ansiosos por chegar logo na... virada de ano. Isso nos custou alguns minutos para acertar o passo e engrenar a velocidade de cruzeiro. Quem começou a conversa foi a Ludy:

            – Final de ano parece que fica todo mundo louco!

            De imediato entendi a mensagem nas entrelinhas. O que a estava incomodando não era só o trânsito nervoso e engarrafado de gente impaciente. Era também o mau humor de algumas pessoas próximas – e de outras não tão próximas – que no dia anterior chegou contaminando, tentou nos pôr para baixo e amanheceu marcando presença.

É intrigante como, nestas vésperas de feriados prolongados, aumenta a quantidade de pessoas que se irritam com facilidade. Dão sinais de estresse e se mostram intolerantes com qualquer picuinha. Sem se dar conta, seguem na contramão do espírito natalino. É claro que elas devem ter bons motivos para tanto – questões de foro íntimo sobre as quais, olhando aqui da superfície, nós não temos o direito de sequer especular. Mesmo assim, esse mau humor nos afeta. É real. Precisa ser compreendido.

Pronto! Encontramos um prato cheio, ideal para ser devorado em qualquer caminhada. Um assunto desses é polêmico e nos conduz por um labirinto de suposições. A primeira que me ocorre é a de que, ao final de mais um ciclo anual, somos compelidos a encarar a nós mesmos no espelho, praticando um obrigatório exercício de auto-avaliação.

Olhando para trás, tentando festejar as conquistas, lembramos também dos fracassos. Olhando em frente, mirando os nossos melhores planos, o que enxergamos com maior nitidez são as incertezas. Terminamos frustrados. É... Em finais de ano é muito fácil se pôr introspectivo e mal-humorado.

Nossos ancestrais pré-históricos, ao se guiar pelos sinais da natureza, contemplavam a passagem do tempo por meio de um relógio bastante preciso: o céu noturno e seu movimento previsível e confiável. A certeza de que a vida segue em ciclos é uma das heranças que carregamos desde sempre. A noção de término seguido de recomeço é o que nos ajuda a contabilizar os resultados e a planejar o nosso próprio destino. É o que nos possibilita ter esperanças!

Já não precisamos olhar para o céu noturno – mesmo porque ele se esconde, ofuscado pela luz elétrica das nossas cidades. Trazemos à mão um calendário completo e funcional, acessível dentro dos nossos celulares. Deslizando a ponta dos dedos pelos dias e meses, podemos relembrar as tarefas cumpridas e os compromissos atendidos. Podemos nos certificar de que os próximos doze meses estarão todos lá, prontos para serem alcançados e superados.

Talvez seja esta a maior angústia que nos visita a cada passagem de ano: a que é gerada pelo choque entre as nossas certezas e as incertezas que a vida nos impõe.

Uma primeira solução que me ocorre para minimizar tal choque é óbvia: não devo ir ao pote com tanta... certeza! Não devo procurar estar certo sobre tudo, o tempo todo. Não posso cair na armadilha de achar que o conhecimento já acumulado é suficiente. Tenho que duvidar, questionar, considerar outras possibilidades... Estar preparado para lidar com as incertezas.

Mas então, vem uma voz e diz: cadê a necessária autoconfiança? Cadê a imagem de segurança que você precisa irradiar para ganhar o respeito das pessoas? Cadê o sorriso convicto que você vai exibir na próxima foto que postar no Instagram? Cadê a mensagem assertiva e motivadora, repleta de passagens edificantes, que você vai publicar no seu blog para marcar estas festas de final de ano?

Gostamos da verdade e nos esforçamos para estar do seu lado. Quando a encontramos, a agarramos, acreditando que jamais precisaremos desgrudar o velcro. Porém, aqueles com mais facilidade para se descolar das próprias verdades são menos angustiados. São mais aptos a confrontar as incertezas, a aceitar os imprevistos e a encontrar o caminho do novo.

Caminhar na direção da verdade é um exercício meticuloso, que exige foco e obstinação. Caminhar na direção do novo é ir no sentido oposto, jogando o facho de luz para todos os lados e mudando de ideia na medida em que elas vão convencendo mais. O caminho da verdade é seguido por gente engajada, austera e sem tempo para devaneios. O caminho na direção do novo é incerto. Não é possível prometer nada. Quem circula por ele não sabe se terminará alegre ou triste, mas segue apreciando a paisagem.

Já começamos nossa caminhada rumo a 2020. Estufamos o peito, endireitamos a coluna e seguimos cheios de coragem e esperança. Lá no íntimo, já temos tudo planejado. Talvez, se nos descolarmos das nossas certezas, nossos passos sejam mais leves.

Quem diria! Não é que a caminhada de hoje terminou com uma mensagem para marcar as festas de final de ano? Lembrei que a vida acontece em ciclos, pontuada por incontáveis oportunidades de recomeço. Mas isso não é nenhuma máxima filosófica inovadora e original – é apenas uma noção herdada dos nossos ancestrais pré-históricos, que carregamos nas costas desde sempre.


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Comentários

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    1. Valeu! Também acho que virar o ano é caminhar rumo ao "desconhecido".

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  2. Sempre fico muito emocionada na vira do ano, bem na hora em que os relógios marcam meia noite e todos se abraçam. O negócio é tão forte que preciso me concentrar um bocado para desfaçar as lágrimas e suspiros. Essa emoção toda sempre foi para mim uma felicidade enorme que eu nunca consegui entender muito bem de onde vem, mas só de saber que eu estou viva e que meu motor está ligado na direção de mais um novo ano já me dá toda essa euforia desmedida. Gosto demais dessa época. E gostei muito de parar pra pensar um pouco com o seu texto!

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    1. Gostei muito de parar e pensar no seu ponto de vista. O relógio marcando meia-noite, a felicidade de poder desperdiçar lágrimas emocionadas só por estar vivo, as pessoas que abraçamos porque estamos eufóricos e esperançosos... Também gosto demais dessa época.

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  3. Não é a toa que o mundo todo para nessa data..

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  4. Excelente reflexão Fábio ! Viver o presente sempre me foi mais confortável do que imaginar ou criar expectativas para o futuro. Gosto de executar alguns rituais neste momento do ano com a alma mais leve possível, sem cobranças pelo que não realizei e feliz pelo que pude realizar. E com a incerteza de que posso sempre fazer melhor no próximo ano.

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  5. Gosto de imaginar a virada do ano como um computador bugado, no qual damos um restart e esperamos que ele reinicie mais leve e ágil. Quase sempre dá certo!

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