Crítica | À Beira-Mar: Angelina Jolie escreve, dirige, interpreta e faz o que bem entende, menos cinema de qualidade!

Cena do filme À Beira-Mar
À Beira-Mar: filme dirigido por Angelina Jolie

ANGELINA JOLIE ROUBA A CENA FINAL, LITERALMENTE

Estiloso demais e nada envolvente. Uma promessa de bom entretenimento que não se cumpre. Falo de À Beira-Mar, filme de 2015 escrito, dirigido e estrelado por Angelina Jolie, que atua aqui ao lado do então marido Brad Pitt. De início, achei que se tratava  de uma obra romântica. Mais adiante, rezei para que ganhasse densidade e feições intimistas, na medida em que revelasse o mundo interno de personagens cada vez mais enigmáticos. Isso não aconteceu. Lá pelas tantas, comecei a bocejar.

Atmosfera de sedução

        Eis aqui o caso interessante de um filme construído a partir de elementos sólidos, mas que não consegue ganhar consistência. Tem uma bela ambientação, personagens com certo conteúdo e uma trama com potencial para envolver, ao gerar incontáveis oportunidades de fisgar o espectador. A diretora, porém, preferiu criar uma atmosfera de sedução tão espessa que embaçou a tela. Vanessa, a protagonista interpretada pela diretora, não se deixa desvendar. Só conseguimos enxergar sua dimensão externa. Uma casca, que se parece com a irretocável e sempre bem produzida... Angelina Jolie! Brat Pitt se esforça, mas suas falas e oportunidades em cena não são suficientes para oferecer compensações.

Cena do filme À Beira-Mar
À Beira Mar: Angelina Jolie e Brad Pitt num filme autoral

A sinopse: um quadrilátero amoroso

        Nos anos 1970, o casal nova-iorquino Vanessa (Angelina Jolie) e Roland (Brad Pitt) chega a uma praia isolada no litoral da França, com o peso de um relacionamento em declínio na bagagem. Ele procura paz e inspiração para escrever seu livro, enquanto a mulher parece que está ali só para atrapalhar. Aos poucos, do convívio tenso e arrastado entre os personagens, aprendemos sobre suas histórias, seus dramas e dilemas. Até que outro casal entra em cena: Lea (Mélanie Laurent) e Michel (Niels Arestrup), que se hospedam no quarto ao lado. Através de um buraco na parede, as duas intimidades se visitam e o quadrilátero que se forma modificará as dinâmicas no relacionamento de ambos casais.

Cinema e voyeurismo

        Só pelo fato de ser rodado na França, com diversos diálogos em francês, o filme já teria grande chance de emular – ou homenagear – as obras de alguns dos mestres do cinema europeu. Porém, o que mais me entristeceu foi ver como À Beira-Mar desperdiçou a oportunidade de explorar a relação simbiótica que se estabelece entre o cinema e o voyeurismo. Não conseguiu trazer o espectador para dentro das cenas. Torci para que a diretora adicionasse algum tempero latino mais apimentado, mas ela preferiu dar voz aos pudores anglo-saxônicos, sem questioná-los ou contextualizá-los. Outra grande oportunidade perdida.

Cena do filme À Beira-Mar
À Beira Mar: uma protagonista que não se deixa desvendas

Estelionato dramático

        O pecado que considero imperdoável, no entanto, acontece no final do filme; causou nos cinéfilos atentos uma imensa decepção. Na hora de resolver o conflito entre os dois casais, a roteirista manda seu marido Roland conversar com Lea, naquela que prometia ser a cena mais importante do filme. Só que a cena é omitida! Sim, por incrível que pareça, esta cena não é dramatizada na frente do espectador. Tudo o que a cineasta permite é que Roland nos conte como foi a tal conversa, durante um diálogo desajeitado. Assim, a cena mais dramática do filme, que deveria ser interpretada por Brad Pitt e Mélanie Laurent, termina protagonizada por Brad Pitt e a própria diretora, mas sem a intensidade necessária.

Ação fora da cena

        Foi assim que Angelina Jolie cometeu uma espécie de estelionato! Roubou a cena, não pela força do seu carisma ou pela eloquência da sua verve dramática. Roubou literalmente! Surrupiou a cena mais aguardada do filme! Em vez de dramatizar a cena e criar oportunidades para que os atores desempenhem sua arte, preferiu intermediar a narrativa, colocando-se na frente dos personagens. Distanciou o espectador da trama e só fez aumentar a quantidade dos bocejos na plateia.

Cena do filme À Beira-Mar
À Beira Mar: a diretora embaçou a narrativa

Angelina Jolie era a dona da bola

        Uma tal artimanha, quando bem arquitetada, tem resultados surpreendentes. Um bom exemplo foi realizado pelos irmãos Coen, no filme Onde os Fracos Não Têm Vez; lá, o embate final entre o protagonista e o antagonista é travado fora da cena, para frustração dos cinéfilos que ansiavam por um tanto a mais de violência gráfica. O resultado dramático que conseguiram foi excelente, porque a cena já estava cristalizada na mente do espectador ao longo da narrativa. No caso de À Beira Mar, entretanto, o resultado seria imprevisível. A depender do desempenho dos atores, a cena dramatizada poderia elevar o nível do filme. Omiti-la foi uma péssima decisão. Angelina Jolie deve ter tido seus motivos, sobre os quais só posso especular. Sejam quais forem, quem saiu perdendo foi o cinema.

Veredito da crônica de cinema

★★☆☆☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: o trabalho dos atores, a fotografia deslumbrante e a trilha sonora envolvente.

O que decepciona: com linhas de diálogo precárias, a narrativa ficou ancorada no campo visual, o que sonegou profundidade emocional a todos os personagens.

Medíocre. O filme fica na superficialidade dos personagens.

Ficha técnica do filme À Beira-Mar

Título original: By The Sea
Ano de produção: 2015
Direção: Angelina Jolie
Roteiro: Angelina Jolie

  • Elenco:
  • Angelina Jolie
  • Brad Pitt
  • Mélanie Laurent
  • Niels Arestrup
  • Melvil Poupaud
  • Richard Bohringer

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