À Beira Mar

ANGELINA JOLIE LITERALMENTE ROUBA A CENA FINAL DAS VISTAS DO ESPECTADOR


À Beira Mar: faltou dramatizar a cena final

        – Ela pisou no tomate – reclamei, deixando clara minha irritação. Ludy, mais incisiva, não ficou nas meias palavras:
        – Não gostei! Estiloso demais e nada envolvente.
        Começamos nossa caminhada matinal falando sobre uma promessa de bom entretenimento que não se cumpriu: À Beira Mar, filme escrito, dirigido e estrelado por Angelina Jolie – que aqui atua ao lado do marido Brad Pitt. De início, achei que assistiria a um filme romântico, mais adiante percebi que seria uma obra densa e intimista, dedicada a explorar o mundo interno de personagens enigmáticos e carismáticos. Lá pelas tantas, comecei a bocejar.
        Eis aqui o caso interessante de um filme construído a partir de elementos sólidos, mas que não consegue ganhar consistência. Tem uma bela ambientação, personagens com conteúdo, uma história envolvente e incontáveis oportunidades de fisgar o expectador. Mas a diretora preferiu criar uma atmosfera de sedução tão densa que só conseguiu embaçar a visão do expectador.
        Vanessa, a personagem interpretada por Angelina Jolie, não se deixa desvendar. Só conseguimos enxergar a sua dimensão externa, a sua casca – que, por óbvio, se parece com a irretocável e sempre produzidíssima Angelina Jolie! Brat Pitt se esforça e consegue segurar a onda, mas suas falas e oportunidades em cena não são suficientes para oferecer compensações.
        Na minha opinião, À Beira Mar desperdiçou uma grande oportunidade: a de explorar a relação entre cinema e voyeurismo, trazendo o expectador para dentro da cena. Só pelo fato de ser rodado na França, com diversos diálogos em francês, o filme já teria grande chance de emular – ou homenagear – as obras de alguns dos mestres do cinema europeu. Torci para que a diretora adicionasse ao filme algum tempero latino mais apimentado. Ao invés disso, preferiu dar voz aos pudores anglo-saxônicos, mas sem questioná-los ou contextualizá-los.
        O grande pecado, no entanto, foi cometido pela diretora e roteirista ao final do filme, causando nos cinéfilos uma imensa decepção. Na hora de resolver o conflito entre os dois casais que se envolveram no quadrilátero amoroso da trama, a diretora manda Roland (Brad Pitt) conversar com Lea (Mélanie Laurent), naquela que prometia ser a cena mais importante do filme. Só que a cena é omitida! Sim, por incrível que pareça, o roteiro faz com que a cena não seja dramatizada na frente do expectador. Tudo o que a autora permite é que Roland conte como foi a tal conversa. Assim, a cena mais importante do filme, que deveria acontecer entre Brad Pitt e Mélanie, termina protagonizada por Brad Pitt e a própria diretora, mas sem a intensidade dramática necessária.
        Foi assim que Angelina Jolie cometeu uma espécie de estelionato! Roubou a cena, não pela força do seu carisma ou pela eloquência da sua verve dramática. Roubou literalmente! Não consigo entender um diretor que, ao invés de dramatizar uma cena, criando oportunidades para que os atores desempenhem sua arte, prefere pôr palavras na boca dos personagens, distanciando o expectador da trama e aumentando a quantidade dos bocejos na plateia. Para mim, Angelina Jolie pisou no tomate. Deve ter tido seus motivos para tanto – sobre os quais só posso especular. Sejam quais forem, quem saiu perdendo foi o cinema.
        Decepcionados, Ludy e eu continuamos nossa caminhada matinal falando sobre outros pontos fracos daquele filme frustrante, que nos ocupou na noite anterior. Depois, emendamos uma conversa sobre como algumas pessoas costumam colocar o ego na frente de tudo que fazem, embaçando suas realizações. Acontece no cinema, acontece na vida real.



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