Coringa

A TRILHA SONORA É UM DOS GRANDES DESTAQUES NESSE FILME


Coringa: estrelado por Joaquin Phoenix

        – O que acha de alugar o Coringa? – Minha pergunta saiu hesitante. Ludy nunca foi fã dos filmes de super-heróis e sempre preferiu programas mais leves para um domingo à noite. Mas, para minha surpresa, a resposta veio de pronto:
        – Legal! Tão dizendo que é ótimo.
        A badalação em torno do filme indicado para 11 Óscares, além da celebrada atuação de Joaquin Phoenix, despertaram nossa curiosidade. Dispostos a pagar para ver, preparamos a pipoca de microondas e apagamos as luzes da sala. A partir daí, mergulhamos nas profundezas do cinema. Cinema de verdade!
        Logo nos primeiros instantes, o que saltou aos olhos foi a fotografia áspera, em tons saturados e muito contrastada, imitando o jogo de luzes e sombras das histórias em quadrinhos – muito embora os enquadramentos bem comportados se aproximassem mais do cinema do que das graphic novels. – Palmas para a direção de arte – pensei, enquanto me deliciava com a plasticidade das sequências bem articuladas, que se desenrolavam num ritmo tenso e envolvente.
        Foi quando me dei conta de que o incômodo que sentia não vinha só da avassaladora presença em cena do protagonista, nem da perturbadora promessa de caos e demência que estava por vir. Era resultado de uma outra força, subliminar, que me alcançava enquanto entregava os sentidos de bandeja para os hábeis contadores de histórias – é disso que se trata o cinema! Demorei um pouco para entender, pois só conseguia ver um Coringa com as entranhas expostas, perdendo a humanidade cena após cena. Por sorte, recobrei a consciência em algum instante e percebi que era a trilha sonora primorosa a responsável pelo meu estado de torpor. Pude ouvir o Coringa se agigantando a cada nota, a cada acorde, a cada ataque do violoncelo.
        Se Joaquin Phoenix é a personificação do vilão, Hildur Gudnadottir – que também compôs a trilha de Sicario: Terra de Ninguém – é a voz do seu inconsciente. Mais do que pontuar a narrativa e impor o ritmo num crescendo de tensão permanente, a música islandesa consegue se transformar em co-autora do filme! Ok, estou forçando a barra! Mas, exageros à parte, é difícil imaginar um resultado tão marcante se ela não estivesse nos créditos finais.
        Não estou tirando os méritos do diretor Todd Phillips, nem do time de roteiristas. Só estou dizendo que os realizadores acertaram em cheio ao dispensar cuidado tão minucioso à trilha sonora. Trata-se de um ativo quase sempre transparente para o grande público, e que se torna mais eficiente quando passa despercebido. E como funcionou no Coringa! Poucos se deram conta de que estavam com os sentimentos ressonando na mesma frequência das cordas friccionadas pelo arco daquela talentosa compositora. Bravo!

Joaquin Phoenix brilha no filme Coringa

  
        O que de fato aparece para o público é Joaquin Phoenix, um ator de recursos imensos, que merece todos os aplausos entusiasmados. Tem tudo para arrasar nas premiações do Oscar. Penso que o filme pode se tornar um divisor de águas no gênero, atraindo novos segmentos de expectadores, embora traga uma estética difícil de ser copiada com igual competência artística por outros.
        A profundidade do personagem e a transformação pela qual ele passa são os pontos mais memoráveis desse Coringa. As cenas violentas são de estarrecer, mas o expectador percebe que parte da culpa recai sobre a própria Gothan City. A cidade abriga uma população leniente e anestesiada pela mídia oportunista. Os cidadãos de bem, que jamais dizem bom dia, por favor ou muito obrigado, pecam por omissão. O estado, que detém o monopólio da violência – mas só faz disseminá-la graças à sua burocracia cínica – é o principal agravante. A coletividade forma uma massa medíocre e disforme, que preenche as ruas sufocando os indivíduos que poderiam fazer alguma diferença. Para nossa felicidade, Bruce Wayne não se deixa abater. Coringa é um filme em perfeita sintonia com a saga do Batman e fornece fôlego para futuras investidas do cavaleiro das trevas – meu super-herói favorito desde a tenra infância.
        Assistir ao Coringa foi uma experiência empolgante. Pretendo repeti-la por diversas vezes e estou certo de que, em cada uma delas, descobrirei detalhes valiosos. Ludy também ficou satisfeita com o filme. No dia seguinte, enquanto caminhávamos pelo bairro, trocamos nossas impressões. A partir delas, suspeito que outros textos vão nascer sobre esse tema.


Filme Coringa


Ano de produção: 2019
Direção: Todd Phillips
Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver
Elenco: Joaquim Phoenix e Robert De Niro

Comentários

  1. Sem tempo nestes últimos dias pra degustar de suas impressões sobre os inúmeros temas aqui postados, me cobrei por ainda não ter assistido a Coringa, apesar das ótimas críticas que o filme vem recebendo. Vou assistir e volto a comentar...aí sim ,com propriedade. Até Fábio!!!!

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  2. Também quero ouvir as suas impressões! Me conte, quando tiver um tempo!

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  3. Vibrei em cada frase desse texto! Acabei de realizar todo o efeito que essa trilha sonora me causou. Não sabia que era a mesma compositora de Sicario! Boa D+!!!

    Poucas pessoas conseguiram detectar com clareza de onde vem toda essa violência do argumento do filme. Confesso que meus olhos se encheram de água quando me dei conta de que Gotham City nada mais é do que uma alegoria da vida real.

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  4. Cinema, História em Quadrinhos, música, textos, fotografias, arte... A gente vibra com tudo isso, mas se arrepia mesmo é com a vida real! É emocionante!

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  5. Excelente comentário, Fábio! A música realmente tem um grande papel. Mantém a gente atenta à história. Parabéns!

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    1. Valeu! Agradeço seu comentário! Gostei muito do filme, mas fiquei mesmo impressionado com a música. É que esse elemento não existe nas histórias em quadrinho, de onde o personagem foi extraído. Foi o que o trouxe para o universo do cinema!

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  6. Excelente crítica. Você notou também que o filme é todo simétrico? A assistente social no início e no fim, ele olhando pela janela do ônibus (triste no começo) e pela janela do carro de polícia (esfuziante) no fim?

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    1. Não havia notado isso!!! Ótima observação! Essa é um técnica que traz a sensação de costura para o roteiro e captura os espectadores atentos, como você. Obrigado por observar!!!!!

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