Ouvintes desatentos

Quem nunca errou a letra de uma canção, ou arriscou um inglês fake, atire a primeira pedra

Música coletiva


O rapaz esparramado no assento do ônibus, bocejando de sono a caminho da primeira aula, ajeita os fones de ouvido que o conectam ao celular. Os sons que ele escuta nenhum outro ser humano na face da terra compartilha. Outros podem ter escolhido a mesma canção, mas somente ele decidiu iniciá-la naquele dado instante. Não há sincronismo nem simultaneidade. Não há a necessidade de sintonizar transmissões públicas. Não há porquê se submeter à ditadura do gosto coletivo.

Acostumado a ouvir apenas o que gosta, no momento em que bem entende, o rapaz não se dá conta de que desfruta um privilégio. Houve um tempo em que as oportunidades de ouvir uma canção – qualquer canção – eram raras. Antes das técnicas de gravação, só mesmo nas performances ao vivo, executadas na igreja, nas festas, no teatro ou em salas de concerto. Quantas vezes, ao longo da vida, um sujeito conseguia ouvir sua música preferida? Três? Quatro? Cinco vezes?

Com a chegada do rádio, dos discos, fitas K7 e CDs, tudo ficou mais fácil. Mesmo assim, comprar discos – ou conseguir um disco emprestado para gravá-lo – exigia tempo, dinheiro e paciência. Mas agora, neste dado instante, é possível ouvir qualquer canção. Basta digitar o título. Se não souber, digite um verso do qual se lembre. Ou então, cante a melodia!

Eis aqui um recurso imprescindível para aqueles que, como eu, gostam de tirar suas canções preferidas no violão. É possível localizar e comparar diferentes performances de uma mesma obra, identificando o melhor de cada uma. Fiz disso um hábito. Além dos artistas profissionais, ouço também os amadores – alguns surpreendem pela competência, outros falham e nos dão a oportunidade de aprender com seus erros.

Ouço de tudo: nórdicos cantando MPB em português, asiáticos clonando a interpretação das grandes estrelas internacionais, brasileiros entoando hits em inglês de cais de porto... Com um pouco de paciência é possível garimpar peças divertidas e inusitadas. Outro dia, pesquisando a canção Ain’t No Sunshine, de Bill Withers, deparei com uma garotinha russa, afinada e dona de um timbre agradável, cantando ao vivo num desses programas de competição. Por não fazer ideia do significado das palavras que pronunciava em inglês, a pobre menina transformou a letra sombria numa ensolarada balada dançante. A plateia vibrou.

Em se tratando de canção popular, ninguém precisa dominar o idioma para apreciar um sucesso global. Os mais desinibidos se limitam a articular os sons, sem se importar com os significados e as intenções do letrista. Veja, por exemplo, a canção Rehab, lançada em 2006 e deliciosamente interpretada por Amy Winehouse. Quantos se esbaldaram de cantá-la sem atinar para o conteúdo irônico e transgressor da letra? Nem por isso foram internados para tratamento!

Aqui no Brasil, o processo de absorver apenas a sonoridade das palavras, deixando os significados por conta da atmosfera musical, acontece também com as canções em português. Um exemplo é Amor I Love You, de Marisa Monte, que apresenta uma longa declamação de um trecho de Eça de Queiroz na voz gutural de Arnaldo Antunes! Quantos de fato assimilaram aquilo? Não importa! a canção funcionou com brilhantismo.

Outro exemplo que me ocorre está na genial canção Trem das Onze, de Adoniram Barbosa. Há quem a interprete com pena da pobre mãezinha do protagonista – sem se dar conta de que a letra é, na verdade, um desfiar de desculpas esfarrapadas, inventadas pelo malandro ávido por deixar o leito da amante, depois de uma noitada de amor. Isso sem falar naqueles que tropeçam já nos versos iniciais, declamando:

– Não posso ficar... Nem mais um minuto SEM você.

Sempre haverá os ouvintes desatentos. Eles confundem as letras das canções e nem por isso deixam de apreciá-las. Estão por aí, em todos os idiomas, por todos os gêneros e ritmos, para nos lembrar que, no fundo, a música jamais deixou de ser uma criação coletiva. Todos nós, ouvintes, participamos agregando a nossa própria musicalidade.

Até mesmo o rapaz sonolento, prestes a perder a primeira aula, que prefere não compartilhar os sons pulsantes do seu smartphone, faz a sua parte nesse fazer musical coletivo. Esparramado no assento do ônibus, ele bate o pé, marcando os compassos de uma canção que só podemos imaginar. E é isso o que fazemos, num ato reflexo!



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Comentários

  1. Já reparou que quando o sujeito está escutando a música muito alta, o som escapa de uma forma muito engraçada dos fones? Me parece que apenas os agudos ficam perceptíveis para os que estão mais próximos, e isso acaba revelando muito sobre o gosto musical. A marcação da bateria, os sons mais estridentes... Na maioria das vezes, a música escolhida é sempre com uma marcação 4x4 ou um funk daqueles executado por um simplória batida de garrafa.

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    1. Hoje é batida de garrafa, ontem era caixa de fósforo - que nas mãos dos virtuosos virava instrumento de verdade. E a maioria das canções pulsam de acordo com o nosso batimento cardíaco. Ou será que é o nosso batimento cardíaco que segue o pulsar das canções? Vai saber!

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  2. Ótimo texto. Me identifiquei muito com o que você escreveu Fábio

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  3. Valeu!!! Obrigado por ter deixado seu comentário.

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  4. Show de texto Fábio. Parabéns. Assim como em Sampa, que ao meu ver só fala mal de São Paulo e mesmo assim os paulistas assumiram como seu hino, todos nós temos nossas músicas que nos falam independentemente se na verdade são uma apologia à desnutrição infantil e não nos apercebemos disso. Apenas nos encantam.

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  5. kkkkkkkkk! Nunca tinha pensado em Sampa dessa forma! O Caetano fez uma referência à Ronda, de Paulo Vanzolini e foi só isso que assimilei. Agora que você falou, é verdade! Ele detona muito São Paulo, mas... são tapinhas de amor... Não doem!

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  6. Realmente só tinha entendido como versão de "Ronda".

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  7. Na verdade, a referência está apenas no último verso de Sampa, cuja melodia remonta a "Cenas de sangue no bar, na Avenida São João". A canção do Caetano, na minha opinião, é brilhante, embora tenha lido em algum lugar que Paulo Vanzolini ficou puto com o que chamou de "apropriação" e "plágio" por parte do Caetano. Enfim... As duas canções estão aí, para ser comparadas.

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