Viver Duas Vezes

ÀS VEZES, TUDO O QUE UM BOM FILME PRECISA É DE UMA FAÍSCA. O RESTO FICA POR CONTA DO ESPECTADOR


Viver Duas Vezes: retrato do Alzheimer

        – Não tem como não se lembrar de Pequena Miss Sunshine. Uma família na estrada, seguindo as vontades de uma garotinha graciosa, reatando laços que estavam rompidos...
        – Ah, não! Viver Duas Vezes é diferente! Tem o Alzheimer... E a viagem da família ocupa só um trecho do filme. A história é muito mais abrangente.
        – Sim... Claro... – Fui obrigado a concordar com a Ludy. Ela gostou demais do filme. Aliás, quando o meu amigo Gilberto Suzuki o indicou, num comentário no Facebook, já previ que faria sucesso lá em casa. E fez!
        Viver Duas Vezes é um daqueles filmes que tiram do pedestal qualquer um que se meta a fazer crítica de cinema. Se o sujeito se mantém frio, analisando as técnicas e os recursos, avaliando as atuações e as narrativas, termina sem viver a imensa variedade de emoções que o enredo suscita. Deixando-se envolver emocionalmente, fica cego para o cinema que acontece diante dos seus olhos.
        – Ora, se é para ignorar o cinema, vá ler um romance sobre o tema – diriam os cinéfilos tecnicamente engajados. Também tenho que concordar com esses. Então, só me resta emitir uma declaração de impedimento. Sim, confesso que sou emocionalmente comprometido para julgar Viver Duas Vezes. O filme me pegou de jeito!
        A senha que abriu a caixa de emoções – e que por muito pouco não me levou às lágrimas – foi a palavra Alzheimer. A diretora espanhola Maria Ripoll manipulou o tema com sensibilidade e critério, mas mexeu num vespeiro incomensurável. O filme que ela dirigiu não foi o mesmo ao qual assisti, nem ao qual você assistiu ou assistirá. Cada espectador frui o seu próprio cinema, e os realizadores não têm nenhum controle sobre isso.
        O filme ao qual assisti escancarou uma realidade que me é familiar. O personagem Emílio, muito bem interpretado por Oscar Martinez, refletiu com minúcias os dias vividos por minha mãe. O lento apagar das lembranças – primeiro as recentes e depois as antigas... O impacto na família... As confusões... A tristeza... As piadas involuntárias... A impotência.
        Ludy certamente enxergou seu pai – levado há alguns anos por essa triste doença – e sua mãe, que agora convive com ela. É inevitável. Qualquer um que assista ao filme, e que já tenha sido colhido pelo turbilhão que é o Mal de Alzheimer, o faz em estado de comoção.
        Durante o filme também tive tempo para enxergar a mim mesmo, num futuro incerto, enfrentando a barra das probabilidades genéticas que carrego comigo. Lidando com as situações vexatórias, com a ideia de não controlar meus pensamentos, com a perda de identidade... Dando trabalho para minha mulher, para minha filha...
        Pode-se questionar o funcionamento do roteiro, que às vezes nos sonega mais detalhes sobre os personagens. Pode-se criticar o humor óbvio e previsível em algumas cenas. Pode-se reclamar do ritmo indeciso, que nos impõe sequências ora arrastadas, ora rápidas demais. Mas é assim mesmo! Um filme com temática tão emotiva só pode ter esse jeito incerto, onde tudo parece funcionar na base da tentativa e erro.
        E funciona! Quando torcemos para que venha uma piada sem graça, só para quebrar a tensão, ela vem. E rimos. Quando queremos cenas óbvias, para confirmar o que já sabemos, elas fluem límpidas. E nos aliviamos. Quando nos permitimos entrar em contato com nossas emoções, há espaço. E nos entregamos.
        Como percebem, sou alguém comprometido emocionalmente para comentar sobre esse filme. E se o faço, não é por teimosia. É porque depois de algum tempo, passada a avalanche, caminhando com a Ludy, consegui refletir e encontrar algo a dizer para os cinéfilos tecnicamente engajados – e também para todos aqueles que desejam apenas curtir uma boa história bem contada: contem-me o que viram e ouviram. Mostrem-me aquilo que não enxerguei porque estava ocupado demais prestando atenção no meu próprio umbigo!


Dicas e Sugestões

Comentários

  1. Fábio, o filme é realmente muito bom. Assim como o teu post a respeito. Parabéns por mais este texto.

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  2. Valeu, Jorge! Que bom que você tá gostando!

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  3. Maria José Vieira23/01/2020 23:00

    Gostei de ler seu texto, Fábio ! Pela forma como escreve e pela emoção que compartilha ! Quero ler outros...e quero ver o filme !!! Abraço pra você e Ludy !

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  4. Que bom que você gostou! Obrigado pelo incentivo. Dois abraços pra você, um meu e outro da Ludy.

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  5. vanilzasu@gmail.com24/01/2020 10:09

    Fabio, fiquei realmente sensibilizada com o seu comentario. Parabéns! Quero ver esse filme!

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  6. Legal, Vanilza! Espero que você goste. Depois me conte o que achou.

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  7. Fábio, sou solidário com vocês. Eu estou cuidando de minha mãe que teve um avc grave que apagou todas as suas memórias e capacidade de comunicação. Faz parte do ciclo natural da vida.
    Eu gostaria de sugerir a vocês, sabendo da veia musical que pulsa na família, para criarem entre vocês uma memória musical da família. Sabe-se que o Alzheimer não afeta a área do cérebro que lida com essa memória musical. Há relatos de pessoas que puxam algumas memórias e reforçam laços através de canções e músicas que costumavam desfrutar juntas.

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    1. Permitam-me a intromissão. Sobre esse tema da memória musical, há um filme mais ou menos recente que me tocou muito: "A Música Nunca Parou". Recomendo este também.

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  8. Olá, Giba. Receba também a nossa solidariedade. Sim, esse é o ciclo natural da vida e, como dizem os mais espiritualizados, estamos todos caminhando para deixá-la. Você lembrou muito bem a questão da música. De fato, Ludy e eu temos percebido que nossas mães têm uma surpreendente memória musical. Lembram das letras e das melodias e adoram cantar. Volta e meia fazemos isso, estimulando a cantoria. É uma ótima oportunidade de convívio. Vamos mais disso! Valeu!

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  9. Esse filme me pegou! Pela música lindamente colocada e cantada, pela crueldade e inocência da neta, pela paciência da filha com o pai. Chorei e ri . Meu namorado não gostou muito da interpretação de Oscar Martinez , ele acaba de perder a mãe , muito nova ainda e com esse mal, achou muito fraco , fora da realidade, talvez o momento não tenha sido adequado para rever tal assunto tão devastador . Eu achei sensível , conseguiu me emocionar de verdade.

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    1. Olha Paula, não se pode discutir sobre esse filme sem focalizar no tema da doença. É um assunto sensível, e tenho certeza de que muitas pessoas não estão preparadas para encará-lo sem preparativos. Ao contrário de outros filmes que apelam para o sentimentalismo, esse conseguiu desenvolver os personagens e apresentá-los de forma honesta e envolvente. É daí que vem toda a carga emotiva que o filme enseja. Também gostei muito.

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