Ferrugem

O FILME FERRUGEM É SOBRE JOVENS E PARA JOVENS, MS CONVERSA FLUENTE COM OUTRAS GERAÇÕES


Ferrugem: filme dirigido por Aly Muritiba

        Ludy e eu tínhamos um forte motivo para assistir ao filme Ferrugem, do diretor Aly Muritiba. Nada a ver com o fato de ter sido rodado em Curitiba – cidade onde vivemos – nem com as críticas favoráveis que ouvira. Naquela fria noite de quarta-feira, fomos a um cinema de shopping apenas para prestigiar nosso sobrinho, que participara da produção como assistente de direção.
        Sim, leitor, pode me acusar de nepotismo! Mas, se sentei naquela poltrona de cinema pelo motivo errado, quando me levantei, ao final da projeção, estava redimido: Ferrugem é um ótimo filme e festejei a oportunidade de vê-lo na telona, em sua plenitude. Tem roteiro bem costurado – assinado pelo próprio Aly Muritiba e por Jessica Candal – ótimas interpretações, um bom ritmo e uma direção segura. Aborda um tema relevante, universal... e triste!
        Engana-se quem acha que Ferrugem é apenas sobre e para os jovens. Trata, sim, do universo hiperconectado dos adolescentes e o retrata com sensibilidade e respeito. É fluente no linguajar digital e nos códigos audiovisuais da geração atual. Mas é incisivo quando alcança os mais velhos. Duvido que os pais que assistiram ao filme o tenham feito sem sentir um frio no estômago. Primeiro, acompanhando o drama da jovem difamada por ter seu vídeo erótico – uma traquinagem que qualquer espectador logo se presta a perdoar – replicado por toda a internet. Depois, testemunhando a culpa ácida corroendo a alma do garoto inconsequente, que carece de bons exemplos dentro de casa.
        Ferrugem é um daqueles filmes em que o enredo pode ser sintetizado numa curta sinopse. O esforço narrativo não é para dar explicações ao espectador, mas para construir os personagens, cena após cena. Ou seja: é o tipo de cinema que me agrada. Exige sensibilidade artística, domínio das técnicas narrativas e habilidade para lidar com símbolos que todos reconheçam, sem descambar para o piegas. O filme conseguiu esse intento, embora, na minha opinião, o personagem do pai/professor tenha resultado um tanto estereotipado.
        É preciso predisposição para assistir a um drama como Ferrugem. Quem o faz, chega aos créditos finais mais introspectivo. Foi assim que voltei para casa, pensando na dicotomia que este início de século está nos legando: as pessoas usufruem das mais ágeis e poderosas ferramentas de comunicação que já existiram, mas continuam cavando abismos cada vez mais profundos entre elas. Continuam se pondo inalcançáveis. Continuam com dificuldades para se... comunicar!
        Pais e filhos, maridos e mulheres, professores e alunos, amigos, parentes, vizinhos... Todos ao alcance de dois ou três cliques, vivendo dramas e preocupações que talvez pudessem ser resolvidos com minutos de convívio. Desorientados, colecionando sofrimentos... empacados! Com quais ferramentas cavamos esses fossos gigantescos? Descaso? Distração? Orgulho? Arrogância? Medo?
        Tolos, acreditamos na precisão das palavras e sempre temos algo a dizer, quando o melhor seria sentar lado a lado e apenas respirar o mesmo ar. Ocupar o mesmo espaço. Perder o mesmo tempo. Cruéis, exigimos uns dos outros a mesma expressividade dos poetas. Teimosos, insistimos em tratar de emoções com argumentos. Ora, emoções são como cores: quem garante que suas nuances são visíveis para todos? Pais e filhos, maridos e mulheres, professores e alunos, amigos, parentes, vizinhos... Sempre olhando para lados diferentes, crentes que testemunham a mesma realidade.
        Eis aqui a matéria-prima básica para construir uma infinidade de histórias: os conflitos que vêm à tona no caldo efervescente das nossas dificuldades de comunicação. Quando tal substância é trabalhada com sensibilidade, como no filme Ferrugem, provoca reflexões e nos leva a confrontar nossas atitudes. A medir a profundidade e a largura dos abismos ao nosso redor. Por óbvio, esse foi o assunto que dominou nossa caminhada na manhã seguinte.
        Ludy e eu usamos o roteiro do filme como pretexto para falar da vida, dos nossos receios e das relações com as pessoas que nos cercam. Como pais, foi inevitável falar sobre nossa filha, que vive em São Paulo, mas está sempre presente. E falamos com orgulho do nosso sobrinho, com quem convivemos pouco, mas admiramos por perseguir seu objetivo de trabalhar com cinema. Ficamos atentos aos créditos do filme, até que seu nome aparecesse entre os tantos outros: Eduardo Belik.

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Comentários

  1. Excelente análise Fábio. Confesso que também fuiimbuído da missão nepotista e sai com um motivo ora refletir. Comentei com a Adriane a impressão que a mãe me deixou no final. Me fez pensar na responsabilidade que temos como pais de uma geração (como todas é verdade) que precisa de valores sólidos pra se apoiar. E nesse ponto ela é redentora. E registre-se: a assistência de direção foi primorosa. Abçs e siga em frente.

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  2. Concordo, Clovis! A assistência de direção foi primorosa!!!!!! E você pegou muito bem a ideia: nós, pais, quando assistimos filme, ficamos com a verdadeira noção da nossa responsabilidade. Temos que transmitir valores sólidos, e o papel da mãe, no final do filme, foi essencial.

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  3. Excelente colocação Fábio! Despertou em mim a vontade de assistir Ferrugem! Vou aproveitar o carnaval aqui em Curitiba, para "curtir" de uma maneira bem mais proveitosa esses dias!

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    1. Cinema é sempre uma boa opção. Recomendo também um belo livro! Aproveite o carnaval!!!!!

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  4. Também achei a assistência de direção impecável!

    Com a maior sinceridade, gostei muito desse filme! Achei autêntico! Tem uma pitada regional no ponto certo e ao mesmo tempo universal. Percebi um roteiro minimalista, de trama simples e bem construída, bem costurado. A emoção ficou toda na camada psicológica do personagens. Gosto de filme assim!

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  5. Gostei da sua observação em relação ao toque regional. Logo de imediato o espectador percebe que a história não se passa no eixo Rio-São Paulo. A temática universal sai ganhando com esse toque local.

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