Resultados do Oscar 2020

AVISO DE SPOILER: NO FINAL A POLARIZAÇÃO INVADE O CINEMA E DEIXA ENTRINCHEIRADAS AS TRIBOS DE CINÉFILOS

Oscar 2020: boa safra de filmes

        Acordei muito cedo e me levantei atordoado de sono. Mesmo assim fui arrastado a contragosto para a caminhada matinal pelas ruas do bairro. Ludy não teve pena:
        – Quem mandou ficar até tarde vendo a entrega do Oscar?
        – O pior é que não consegui ir até o fim... Fiquei com sono. Capotei no sofá!
        Minha mulher balançou a cabeça e sorriu. Não viu nisso nada de novo.
        Há muito deixei de acompanhar a festa do Oscar, mas neste ano a curiosidade foi maior que o meu desprezo pelo desfile das celebridades. Na disputa havia um filme sul-coreano feito com uma mistura de vários gêneros, um filme de guerra encenado feito ópera num palco gigantesco e em tempo real, um filme de super-heróis onde só o vilão aparece, um filme onde Hitler e o nazismo são abordados em tom de comédia, um filme dirigido por um brasileiro falando sobre um Papa argentino... A safra de filmes de 2020 foi de impressionar.
        A premiação transcorreu como sempre: surpresas aqui e ali, barbadas confirmadas e estatuetas distribuídas a rodo entre todos os setores da indústria do cinema. Os resultados forneceram munição para a saraivada de críticas e achismos que eclodiram nos guetos dos cinéfilos pelas redes sociais. Foi a continuação da festa, agora por conta dos espectadores. Terminou em barracos e pancadarias!
        Eu mesmo levei alguns sopapos quando expressei meu pouco caso com o espírito de competição que domina o mundo do cinema. Na minha opinião, pouco importa ganhar ou perder. Vários filmes saíram sem Oscar, mas conseguiram notoriedade. É do jogo! Um bom filme, que traz uma boa história bem contada, não precisa de estatuetas para ser apreciado. Mas ostentar uma, atiça a curiosidade.
        Pronto. Dizer isso foi a senha para que os aficionados por filmes cult torcessem o nariz. Para eles, Oscar é tão popularesco que não merece ser comentado por cinéfilos de verdade. Consideram o conhecimento enciclopédico, vomitado em fichas catalográficas e citações biográficas, mais importante que a percepção do espectador. Só o que importa para eles é a opinião da crítica especializada, elaborada segundo rigorosos formatos acadêmicos, a partir de critérios engessados pelo consenso dos notáveis. Defendem que há poucos com cacife para falar de cinema: é preciso ter horas e horas no currículo... lendo sobre cinema!
        Certa vez, durante conversa animada com um amigo jornalista, ousei criticar o jornalismo, apontando algo que me pareceu incongruente numa determinada reportagem de revista. Para minha surpresa, fui prontamente abalroado por uma sonora carteirada:
        – Ora, vá devagar! Você está se achando... Que credenciais você tem para criticar a imprensa?
        – Sou credenciado, sim. Tenho diploma da sexta série. Sou alfabetizado! Só isso já me dá o direito de meter o bedelho em tudo o que leio!
        Minha resposta foi seguida de uma longa argumentação, que obviamente foi rebatida, numa discussão acalorada que se estendeu por várias garrafas de cerveja. Mas a minha legitimidade de crítico credenciado deixou de ser questionada.
        Essa mesma argumentação trago agora para confrontar os autoproclamados donos da crítica cinematográfica. Sou alfabetizado na linguagem do cinema, tendo assistido a incontáveis séries e filmes desde antes de saber ler e escrever. Agucei minha percepção assistindo a filmes de todos os gêneros, de diferentes nacionalidades e épocas. Me deparei com filmes bons e ruins, que amei e detestei. Alguns vi até o fim, outros nem terminei. Filmes que revi incontáveis vezes, de tanto que gostei. Filmes que precisei ver de novo para finalmente entender. Filmes cujo final nem me lembro – e que por isso mesmo será um grande prazer revê-los qualquer dia desses.
        Como publicitário, já lidei com a linguagem do cinema em diversos roteiros para filmes comerciais e documentários empresariais. Já gastei horas e horas lendo sobre cinema de forma sistematizada, mas esqueci de contabilizá-las no meu currículo. É claro que valorizo o conhecimento acadêmico e o considero imprescindível, mas para me divertir no dia-a-dia, prefiro uma abordagem mais informal e descontraída. Não há nada mais chato do que músicos que só fazem música para os músicos, tirando os ouvintes leigos da equação. Ou melhor... Há sim: iniciados falando de cinema só para iniciados, esperando que suas verdades sejam acatadas pelos espectadores, sem contestação.
        Quando estou na poltrona, gosto de mergulhar na história projetada na minha frente. Gosto de chegar às minhas próprias conclusões e depois escrever sobre elas. Gosto de ouvir as percepções de outros espectadores. Gosto de filmes cult, de filmes de entretenimento... Gosto de cinema. E você?

Comentários

  1. Concordo em gênero e grau com seu comentário Fábio, basta ter uma vasta carteira de filmes assistido, sem preconceitos e obrigatoriedade do "politicamente correto" e gostar da telona pra estar habilitado a dar os seus pitacos e fazer suas recomendacões. Há muito perdi o interesse pelo espetáculo do Oscar, que hoje me parece cada vez mais um grande desfile de grifes e jóias emprestadas.

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    1. Penso que falar de cinema é o mesmo que falar de música. Ninguém precisa saber teoria musical para apreciar, discutir e especular sobre música. É claro que aprender teoria musical dá preparo para entender melhor a música e apreciar melhor seus detalhes. É claro que os músicos são os mais balizados para falar de música. Mas, quem paga a conta, no final, é o ouvinte. Deixa ele falar, pô!

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  2. Sou formada e pós graduada na área de arte de e sei bem como são esses tipos. Os inteligentinhos pedantes escondem uma profunda insegurança. Acredito que seja um ressentimento profundo pela lógica de mercado, dos quais só se beneficiam os que produzem produtos e serviço visando uma demanda.

    São pessoas que julgam o público como ignorantes e o culpam por suas frustrações profissionais.

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  3. Não especulo sobre os motivos, mas detesto carteiradas. O que vale, no final, é o conteúdo e a generosidade em querer compartilhá-lo. Conhecimento não é para ser acumulado e monopolizado. É para ser disseminado, compartilhado e reciclado.

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