Eu Sou a Lenda

RUAS DESERTAS, SILÊNCIO PERTURBADOR, O VENTO SOPRANDO... ACHO QUE JÁ VI ESTE FILME!


Bairro do Cabral, em Curitiba: me senti como no filme Eu Sou a Lenda

        Ludy e eu fazemos parte do grupo de risco. Trancafiados no apartamento, há dias espiamos o mundo através da TV e da internet. Nos preocupamos com nossas mães já idosas, com nossa filha que mora em Sampa, com a necessidade de ir ao supermercado, com o álcool em gel acabando... Ou seja: não estamos diferentes de ninguém – pelo menos não daqueles que têm TV e internet.
        Acomodado no sofá da sala, com o controle remoto na mão, posso escolher um filme que me agrade e me distrair por algum tempo. Posso me alienar. Ah, o verbo alienar! Como ele é cruel quando usado para rotular os cinéfilos. Faz parecer que somos fúteis, desligados do mundo, entregues ao ócio, hipnotizados por uma espécie de feitiço audiovisual lançado por uma tal indústria da alienação.
        – Você, que passa o tempo todo vendo filmes, como é mesmo o nome daquele ator... que fez aquele filme... junto com aquela atriz... – Essa pergunta já ouvi inúmeras vezes e sempre percebo nela, subentendida, a palavra alienação, empregada para denotar minha suposta falta de consciência com a realidade política e social. Não dou a mínima! Sempre respondo na linguagem do cinema. Aliás, quase sempre erro nas respostas, pois tenho péssima memória para guardar nomes de atores, atrizes e diretores – lembro apenas dos essenciais.
        Por sorte, nós cinéfilos já não precisamos mais ostentar o conhecimento enciclopédico. Com a internet à disposição, ficou fácil descobrir as miudezas. Por exemplo, bastaram poucos cliques para encontrar o nome do personagem interpretado por Will Smith no filme A Lenda, de 2007. Trata-se do virologista Robert Neville, que logo na abertura caminha sozinho por uma Nova Iorque habitada apenas por feras selvagens e caças ligeiras. Pensei nele porque foi exatamente assim que me senti hoje bem cedo pela manhã, quando precisei pôr os pés fora de casa para abastecer a geladeira quase vazia.
        Estou exagerando? É claro que sim! Mas consegui o efeito que desejava: mostrei ao leitor o tamanho da angústia que senti ao ver as ruas do meu bairro vazias e abandonadas. Minha apreensão na hora de dobrar as esquinas. Minha ansiedade para chegar logo ao supermercado e descobrir se ainda haveria mercadorias nas prateleiras. Quem assistiu ao filme fez nessas poucas linhas a mesma caminhada. Pegou carona na minha analogia e viajou pelas ruas vazias do próprio bairro. Chegou a ouvir a trilha sonora pulsando sincronizada com seu batimento cardíaco. Por isso, agora pode dizer com segurança:
        – Sim... Eu sei como você deve ter se sentido!
        Esse é o poder do cinema! Ele nos dá a oportunidade de encarar experiências emocionais intensas, de vivenciar situações inusitadas, de confrontar realidades com as quais não nos deparamos no dia-a-dia. Aprendemos com ele e trazemos seus ensinamentos na nossa bagagem de vida. E o mais importante: usamos o cinema como referência para nos comunicar. Para compartilhar emoções. Para nos fazer entender.
        Imerso em um filme, não me sinto alienado. Ao contrário, sinto minha consciência operando em alto nível. Não vejo filmes para me afastar do mundo, mas para me enfronhar nele. Mesmo os filmes que servem apenas para distrair me puxam para a realidade ao meu redor. Esse tipo de relação intensa mantenho com o cinema, com a literatura, com as histórias em quadrinhos... Com todas as artes narrativas.
        Para encerrar essa divagação, quero lembrar que os cinéfilos de verdade certamente encontrarão na minha citação ao filme A Lenda fortes motivos para debater. Lembrarão que The Omega Man, de 1971, com Charlton Heston, foi ainda mais impactante. Mas isso já outra história – ou melhor: é a mesma história, mas sob outras lentes.


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Comentários

  1. Excelente crônica. Também penso assim, aliás Arte é esse instrumento de reconhecimento do mundo e no mundo.

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  2. Obrigado, Angela. Concordo com você, e para ser ainda mais filosófico, falaria em mundos: o mundo interno e o externo.

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