Parasita

RICOS E POBRES, ESPERTOS E OTÁRIOS, COMÉDIA E SUSPENSE... O FILME QUE VEIO DA COREIA DO SUL TROUXE UM DUALISMO PROVOCADOR


Parasita: grande vencedor do Oscar 2020

        Onde está a força de Parasita? É a pergunta que faço para começar a desvendar o grande vencedor do Oscar 2020. Trata-se de um ótimo filme, realizado com competência e criatividade, mas... é o mínimo que se espera de um filme que chegou ao topo! Na minha opinião, sua força é externa e não vem dos elementos cinematográficos que o diretor Bong Joon-ho usou para construí-lo.
        O cinema de Parasita não é revolucionário – nem sequer inovador. É vistoso, fluente e sabe prender a atenção do espectador. Tem um enredo provocador e explora com sucesso as dinâmicas cômicas e dramáticas que gera. Mas tem um ponto fraco que incomoda: a pouca nitidez com que retrata seus personagens.
        Que conjunção de fatores levou a família de Ki-Taek ao desemprego e ao confinamento num porão imundo? De onde vem a fluência, a desenvoltura e a capacidade de se camuflar à perfeição entre os ricaços que tentam tapear? Seria apenas questão de talento? Apresentar melhor os personagens, revelando outras nuances além dos meros contornos de vigarice que os caracterizam, estimularia a empatia por parte do espectador.
        É dessa falta de nitidez que vem o tom de comédia do filme, e a abordagem caricata do diretor funciona muito bem. É engraçado acompanhar as tramoias e a capacidade de improvisação dos trambiqueiros. Porém, para que o roteiro funcione, outra concessão precisou ser feita: os ricaços tiveram que ser retratados como tolos, ingênuos e distraídos com as benesses da própria riqueza. Como gente tão endinheirada se deixa enganar facilmente? Seria apenas questão de arrogância? De deslumbramento com a posição social?
        Se o tom de comédia continuasse até o final, não faríamos tais perguntas. Mas não! O diretor sul-coreano adicionou notas de suspense na segunda metade do filme, levando a um desfecho com forte tensão emocional. É nesse ponto de virada que a falta de nitidez dos personagens custa caro ao roteiro. As decisões que os membros das duas famílias tomam são cruciais, definitivas e inconsequentes, mas acontecem sem qualquer sustentação racional ou emocional, apenas para que prevaleçam as premissas do diretor. No final, todos agem como robôs!
        É curioso como em Parasita o encadeamento de ações tensas só gera forte carga emocional no espectador! Já os personagens, terminam o filme do mesmíssimo jeito que começaram. Passam por eventos críticos e traumáticos, mas não percebemos neles nenhuma mudança psicológica. Não há arrependimentos, remorso ou desejos de vingança. A conduta moral que seguem continua a mesma.
        A sombra do determinismo se projeta ao longo de todo o filme. Não importa o que façam, os pobres continuarão sempre pobres e os ricos jamais conhecerão a miséria. Talento, esperteza, ingenuidade, arrogância, deslumbramento... Nada disso tem serventia no engessado mundo de Parasita. No quadro das tensões sociais retratadas por Bong Joon-ho, os personagens ganham poucas pinceladas. Ele prefere carregar as tintas no pano de fundo, pintado como representação exata do princípio tauista da dualidade, simbolizado no contraste e na complementariedade entre o yin e o yang estampado na bandeira do seu país.
        Ao contrário do que afirmou Bong Joon-ho ao erguer sua estatueta na festa do Oscar, a barreira do idioma não é o único entrave para que o cinema sul-coreano conquiste o ocidente. Precisará escalar o muro cultural que separa nossas visões de mundo. Por aqui, contar uma história é desvendar o universo interno dos protagonistas. É explorar as fagulhas emocionais e racionais que incendeiam suas decisões, geram os conflitos e dão sentido à narrativa. É examinar todas as transformações que acontecem, primeiro no indivíduo e só depois na coletividade.
        A resposta que encontro é que a força de Parasita vem justamente desse choque cultural que chegou impondo. Embora utilize com fluidez os recursos narrativos que o cinema costuma usar, o filme não nos apresenta personagens marcantes, carismáticos... com alma! Por causa disso, apesar de ter sido o grande vitorioso, não se tornará um clássico do cinema entre os ocidentais. Se estou certo ou errado quanto a isso, o tempo dirá.


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Comentários

  1. gostei do filme e acho que o protagonista (o filho) aponta sim um futuro, mas também acho que o brasileiríssimo "a que horas ela volta" já tocava o mesmo acorde e com uma leveza lírica muito maior (embora de produção relativamente modesta)

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  2. Legal, João Carlos! Infelizmente não assisti ao filme "A que horas ela volta", mas pelo seu comentário, interessei-me e ver. Quanto ao protagonista de Parasita, o futuro ao qual ele aponta é uma quimera. Golpeado na cabeça, teve claros danos cerebrais e está delirando quanto à possibilidade de comprar a mansão dos Park, mas o diretor deixa claro que isso jamais acontecerá, porque sua premissa é a de que há uma inevitável imobilidade social na Coreia do Sul.

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  3. Você foi preciso, Fabio. Concordo muito. Pra mim o filme deixou a impressão de que faltou alguma coisa. E acho que foi isso: faltou eu me envolver com os personagens. Ficou uma sensação de tanto faz. Quem ganha, quem tá certo, tanto faz. O filme é bom de ver, o ritmo é bom, mas os personagens, tanto faz. Não me provocaram tanto assim. Por isso, ficaram livres do meu julgamento.

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  4. O diretor preferiu ressaltar a tensão social. Na minha opinião perdeu a oportunidade de criar personagens marcantes.

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  5. Parasita é um filme muito bom. Concordo que o filme não explica os porquês da família agir daquela forma, mas talvez seja justamente para o espectador não tomar partido e justificar a atitude deles (como acontece com Coringa, por exemplo). Assim Bong Joon-ho passa apenas o relato dele, sem influenciar se a atitude da família é justificável ou não. Na minha opinião existem filmes coreanos melhores que esse, como por exemplo "Mother", ou "Memories of murder", ambos do mesmo diretor.
    Se me permite uma sugestão: por que de vez em quando não escreve sobre filmes pouco conhecidos, que não estão no holofote da mídia?

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    Respostas
    1. Obrigado pelo comentário e pela sugestão. Também achei Parasita um bom filme e concordo que a situação construída na trama não precisa de explicações. Minha crítica se refere ao fato de que as decisões tomadas pelos personagens no ponto de virada são passionais e como não houve um aprofundamento psicológico na primeira parte, ficaram inverossímeis. Quanto à crítica de filmes pouco conhecidos, pretendo intensificá-las. Mas, como pode perceber, estou na fase inicial do meu blog, buscando audiência para consolidá-lo. Os filmes mais conhecidos são os que estão trazendo maior repercussão.

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    2. Fico no aguardo, então. Continue seu trabalho, seus artigos são muito interessantes e bem escritos!

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  6. Perfeito. Essa falta de profundidade nós personagens foi onue mais me incomodou, principalmente nos ricos. Mas tb podemos ver por uma espécie de diferença cultural. Os orientações vêem a vida diferente, são mais apegados a regras, normas e, assim, acabam tendo uma capacidade de confirmação maior. De adaptação maior. Não são do tipo que se e revelam frontalmente contra as normas. Isso talvez explique a conduta da família pobre, expressa na fala do pai de que ele nunca fiz planos, pois a vida é imprevisível. O lema dele é mesmo a adaptação. Isso gera um conflito no filho que acaba por desencadear o arco final. Já os ricos não conseguem enxergar porque literalmente vivem em uma bolha. Em um mundo de fantasia, eles não enxergam o ndar de baixo, pra eles só existe a benção da chuva, não existe a parte feia. São parecidos como o filho da família, que vive no seu mundo. Como têm dinheiro, tratam seus empregados como parte da casa, netos objetos, uma relação parasitária onde eles devem estar prontos para realizar suas necessidades desde que sejam pagos. Com sacrifício de seu descanso e são facilmente descartáveis. Eles não gostam de pobres, o cheiro de pobre incomoda. Então, do alto da arrogância, naoy conseguem enxergar.nada além dos próprios desejos, mas o cheiro denuncia. A sociedade oriental é diferente no modo de ver e agir. De enxergar as coisas. Bon Jon Hoo sempre gostou de ressaltar o aspecto caricato para fazer críticas incisivas, como em "Expresso do amanhã". Acho que é aí que reside o grande feito de "Parasita".

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  7. De fato, é instigante assistir a um filme que foge aos padrões ocidentais. Parasita nos prende a atenção, surpreende no final e também nos faz questionar valores. Minha crítica é que com os personagens mantidos ao nível dos estereótipos, perdeu-se a oportunidade de investigar mais a fundo a psicologia dos personagens, o que poderia ter ajudado a compreender as diferenças entre ocidentais e orientais.

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