Jojo Rabbit: roteiro digno do Óscar

Jojo Rabbit: filme dirigido por Taika Waititi

TEM PERSONAGENS MARCANTES E UM SABOROSO TEMPERO DE HUMOR, MAS É UM DRAMA

Outro dia, Ludy e eu assistimos ao filme Jojo Rabbit. Minha mulher não tinha opinião formada – estava descontaminada do falatório em torno do grande vencedor de 2020 do Óscar de Melhor Roteiro. Quanto a mim, esperava uma comédia engajada nas causas antinacionalistas, feita para destilar ironia ácida sobre o nazismo atroz e ultramilitarizante que robotizou a juventude alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Estava enganado. Assisti a um drama sensível e criativo, com fortíssimo tempero de humor aqui e ali. Um filme que conta uma história consistente e focada em personagens cativantes.
            Depois do filme me perguntei:
            – Mas por que raios continuo me empanturrando nesse banquete de críticas e resenhas especializadas que infestam os sites de cinema? – Às vezes, parece que só servem para incutir pré-julgamentos e pontos de vista parciais sobre temas externos ao filme, que invariavelmente envolvem ideologias e preferências estéticas.
Quando fui dormir, fiz uma promessa: daqui em diante, antes de assistir a qualquer filme, só vou me deter na ficha técnica e na sinopse. As críticas especializadas vão ficar para depois, quando já tiver fruído a obra.
            Se ainda não conhecesse os detalhes do filme, provavelmente não teria terminado com a sensação de ter sido enganado. Não ousaria classificar Jojo Rabbit como uma comédia – assim como reluto até hoje em rotular A Vida é Bela como expoente do gênero. Não quero parecer intolerante, mas aquilo que o mercado costuma classificar como comédia possui vários subgêneros – paródia, sátira, pastelão, humor negro, sitcom… Não consigo inserir esse filme em nenhum deles. Para mim, é um drama, e pronto!
            Jojo é um personagem criativo e encantador – vivido com propriedade por Roman Griffin Davis, um garoto com o qual é muito fácil se identificar. Sua mãe, encarnada em Scarlett Johansson, transborda carência e afetividade. O garoto que se mostra seu verdadeiro melhor amigo tem tanto carisma – com aqueles óculos e rosto redondos – que rouba todas as cenas em que aparece. A judia oculta na casa de Jojo é viva, inteligente e fraternal. O amigo imaginário de Jojo é… Hitler!
            É claro que Adolf Hitler, como amigo imaginário de um garoto de 10 anos, soa repugnante, mas desperta interesse e funciona muito bem. Aliás, é o elemento que dá personalidade ao filme. Façamos um exercício de cinema: vamos tirar Taika Waitti da jogada e pensar como seria Jojo Rabbit sem o neozelandês na direção e sem o amigo imaginário abrindo as portas para o universo interno do garotinho ingênuo e criativo. Vamos pegar a mesma história, os mesmos atores, as mesmas locações e figurinos... E o resultado seria um filme muito diferente. Talvez mais amargo e grave. Certamente não tão bem-humorado.
            A ideia de Taika Waititi é ótima. Ao usar um Hitler infantilizado como gancho narrativo, apropriou-se do direito de ser irônico sem correr o risco de acabar mal interpretado. Por tabela, infantilizou o nazismo e todos os personagens anestesiados por ele, escarnecendo da histeria coletiva que hoje nos parece tão absurda quanto inconcebível. Logo na cena de abertura isso fica muito claro – um spoiler aqui estragaria a surpresa para os que ainda não assistiram ao filme.
            Gostei que em Jojo Rabbit Taika Waititi resistiu à tentação de ser panfletário. Ao invés disso, pegou o caminho mais difícil: fez apenas um filme sobre um garotinho e seu universo. Acertou o foco das suas lentes em Jojo e deixou que o espectador acompanhasse sua trajetória de amadurecimento. O menino de 10 anos, ingênuo e tristemente vulnerável às atrocidades da guerra, no final das contas não precisa de amigos imaginários. Já pode se virar muito bem com os que conquistou ao longo do filme.


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.


 

Filme: Jojo Rabbit


Ano de produção: 2019
Direção: Taika Waititi
Roteiro: Taika Waititi
Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Taika Waititi, Rebel Wilson, Stephen Merchant, Alfie Allen, Sam Rockwell e Scarlett Johansson

Comentários

  1. Muito bom Fábio! , mas eu ainda o classificaria como comédia

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    1. Ah, entendo seu ponto. Há muitos elementos de comédia no filme e a abordagem irreal e jocosa em torno de Hitler é, de fato, uma boa tirada. Mas o que sobra de drama foi suficiente para me emocionar e canalizar minha atenção. É uma questão pessoal que acabei desenvolvendo com esse filme.

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  2. Muito bom Fábio! , mas eu ainda o classificaria como comédia

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