Crítica | A Noite Americana: é sobre a paixão de fazer cinema
A Noite Americana: filme de François Truffaut

A Noite Americana: François Truffaut faz um filme sobre fazer um filme

A Noite Americana: atuando na frente e atrás da câmera ao mesmo tempo

A Noite Americana: François Truffaut comprou briga com Jean-Luc Godard
Direção: François Truffaut
Roteiro: Jean-Louis Richard, Suzanne Schiffman e François Truffaut
A AVENTURA DE RODAR UM FILME
Realizar um filme sobre o drama de realizar um filme é como sonhar que se está sonhando. Assistir ao filme A Noite Americana, realizado em 1973 por François Truffaut, é como passar quase duas horas a enxergar com os olhos do diretor. É como ter o prazer de ser aquela mosquinha que zanza despercebida por todos os cenários, enquanto testemunha segredos e fatos omitidos. Enfim, é um deleite para qualquer cinéfilo! Mas não se trata de mero exercício acadêmico de metalinguagem, ou de uma obra com caráter documental. É cinema em estado puro.Sobre o fazer cinematográfico
A Noite Americana narra a saga do cineasta Ferrand, álter ego do próprio Truffaut, que roda um filme intitulado “Je Vous Présente Pamela”, um drama como tantos outros gestados pela indústria do cinema e destinado ao circuito comercial. Os percalços e as complicações são incontáveis: atores em pé de guerra, casos amorosos que interferem no cronograma, financiadores que insistem em cobrar resultados, imprevistos na produção, explosões de egos, assédio da imprensa sensacionalista... A aventura de se meter a fazer um filme é retratada em seus detalhes mais curiosos.Gosta de analisar os filmes em profundidade?
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A Noite Americana: François Truffaut faz um filme sobre fazer um filme
A sinopse: fazendo dar certo
O filme rodado dentro do filme conta como um jovem francês e sua esposa inglesa chegam para visitar os pais dele. A jovem se apaixona pelo sogro e o triângulo que se forma rende incontáveis situações dramáticas. O ator neurótico Alphonse (Jean-Pierre Léaud) interpreta o filho, enquanto que a atriz britânica Julie Baker (Jacqueline Bisset), que se recupera de um colapso nervoso, interpreta a jovem Pamela. Os pais do jovem são interpretados por Alexandre (Jean-Pierre Aumont) e Séverine (Valentina Cortese), atores consagrados que carregam o peso de uma história pessoal entre eles. Quem luta para que tudo funcione dentro dos prazos e orçamentos é o diretor Ferrand (François Truffaut), com a ajuda de vários membros da equipe, como a assistente de direção Joëlle (Nathalie Baye), a maquiadora Odile (Nike Arrighi), o cenógrafo Bernard (Bernard Ménez) e o produtor Bertrand (Jean Champion).Para além do making of
Em A Noite Americana, Truffaut aproveita para homenagear o cinema, sem esconder a imensa paixão que nutre por ele. E nos dá uma verdadeira aula, não no sentido técnico – embora tenhamos a oportunidade de vislumbrar como os filmes são feitos – mas no sentido estético, para revelar as manobras criativas que moldam uma obra. Improvisos em cena, ajustes nos diálogos na hora de gravar, a luta para colocar os atores numa mesma visão artística... Não costumamos assistir a nenhum desses temas em um making of, ainda mais com a abordagem dramática de uma obra de ficção.
A Noite Americana: atuando na frente e atrás da câmera ao mesmo tempo
Os personagens são os profissionais
É claro que os cinéfilos mais entusiasmados se divertirão com os truques envolvidos na criação do ilusionismo que tanto nos diverte: uma luz elétrica disfarçada de vela para iluminar o rosto da atriz, os andaimes que sustentam uma janela para simular o quarto dos protagonistas, o trabalho minucioso dos dublês, a neve falsa, o planejamento detalhado para movimentar as câmeras pelos cenários... Os próprios membros da equipe são atores e alguns interpretam a si mesmos, como o assistente de direção Jean-François Stévenin e o fotógrafo Pierre Zucca, que fazem na frente das câmeras o que normalmente fazem por trás delas.
Técnicas e truques cinematográficos
Truffaut, um cineasta profundamente ligado às bases teóricas do cinema europeu, oferece ao grande público uma visão clássica da sétima arte e da indústria do cinema. O próprio título do filme faz referência às antigas técnicas usadas por Hollywood para filmar cenas durante o dia, com o uso de filtros nas lentes, de modo a fazê-las parecer terem sido captadas à noite. Isso numa época em que a tecnologia das câmeras, das lentes e dos filmes impedia a realização de cenas externas durante a noite.

A Noite Americana: François Truffaut comprou briga com Jean-Luc Godard
Amizades rompidas
Depois de realizar A Noite Americana, o diretor foi acusado de fazer cinema superficial, sem a necessária abordagem política. Esse foi, inclusive, o motivo do rompimento da longa amizade que mantinha com o cineasta Jean-Luc Godard – o famoso esquerdista não se conformava com a oportunidade perdida. Achava que Truffaut devia ter feito uma crítica ácida da indústria cinematográfica e falado sobre suas desigualdades econômicas, saído em defesa dos... oprimidos, essas coisas!
Méritos estéticos e artísticos
O cinema de François Truffaut jamais foi superficial. O diretor, roteirista e ator dirigiu grandes sucessos de público e nos trouxe um olhar novo sobre temas ancestrais. Mas certamente não foi por isso que A Noite Americana venceu o Óscar de melhor filme estrangeiro em 1974. Foi por méritos estéticos e artísticos! É claro que a nouvelle vague não foi o único movimento a lidar com a obra dentro da obra. O teatro já experimentou isso muito antes e outros cineastas mexeram nesse vespeiro. Lembro de filmes que tratam do assunto por ângulos diferentes, como A Mulher do Tenente Francês, de 1981 dirigido por Karel Reisz e O Estado das Coisas, realizado em 1982 por Wim Wender. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!
Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção criativa de François Truffaut, o roteiro bem arquitetado, a narrativa envolvente.
O que surpreende: Truffaut não se prende às digressões intelectuais sobre o fazer cinematográfico, nem à mera abordagem documental. Dramatiza uma história onde os profissionais do cinema são os personagens.
Imperdível. É cinema de alta qualidade.
Ficha técnica do filme A Noite Americana
Ano de produção: 1973Direção: François Truffaut
Roteiro: Jean-Louis Richard, Suzanne Schiffman e François Truffaut
Elenco:
- Jacqueline Bisset
- Valentina Cortese
- Alexandra Stewart
- Jean-Pierre Aumont
- Jean Champion
- Jean-Pierre Léaud
- François Truffaut
- Nike Arrighi
- Nathalie Baye
- Maurice Séveno
- David Markham
- Bernard Ménez
- Gaston Joly
- Zénaïde Rossi
- Xavier Saint-Macary
- Dani
- Graham Greene

Excelente texto sobre um filme que amo .
ResponderExcluirMuito obrigado, Walter. Também gosto demais desse filme!
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