Crítica | Perdidos na Noite: para os íntimos, é Midnight Cowboy. Um filme ao qual todo cinéfilo precisa assistir
Perdidos na Noite: filme dirigido por John Schlesinger

Perdidos na Noite: John Schlesinger filmou um clássico cultuado há décadas

Perdidos na Noite: Jon Voight é texano que chega para conquistas

Perdidos na Noite: Dustin Hoffman é um vigarista que nunca conquistou nada

Perdidos na Noite: mais do que pano de fundo, Nova Iorque vira personagem
UMA CIDADE COMO PANO DE FUNDO
Poucos se dão conta, mas antes de dar nome ao programa de TV apresentado pelo Faustão nos anos 1990, Perdidos na Noite era o título de um filme de sucesso, dirigido em 1969 pelo inglês John Schlesinger. Era criança quando foi lançado, portanto só assisti anos depois, quando passou na TV aberta e mais tarde no videocassete. Com temática adulta e jeitão de filme independente, revelava personagens transgressores, que viviam perdidos numa Nova Iorque nada glamorosa. Aqui no Brasil, o título serviu, décadas depois, para arrebanhar os jovens telespectadores que se sentiam perdidos nas noites de sábado.
De volta ao seu legítimo dono
Fausto Silva conduzia um programa de auditório improvisado, levado ao ar por emissoras de baixa audiência: no começo foi a TV Gazeta, depois a Record e depois a Bandeirantes, quando o programa ganhou cobertura nacional. Irreverente e carismático, Faustão ia na contramão dos manuais televisivos: soltava palavrões, debochava das atrações e incentivava a plateia a trazer cartazes sobre o que bem entendessem. Deu tão certo que acabou na Globo e imperou por décadas nas tardes de domingo. Mas abandonou o título Perdidos na Noite, que voltou a pertencer ao filme cult de John Schlesinger.

Perdidos na Noite: John Schlesinger filmou um clássico cultuado há décadas
Solos de harmônica na canção tema
Como tantos filmes que conseguem espelhar sua época e refletir os tormentos da alma humana, Perdidos na Noite se tornou um marco na história do cinema; narra uma história envolvente, carregada de sentimentos profundos e verdadeiros. Passados mais de meio século do seu lançamento, permanece assombrosamente atual. Resistiu ao tempo e se eternizou na mente do espectador. Com a simples menção do seu título, os cinéfilos mais experientes já escutam ao fundo os solos de harmônica da canção tema, composta por John Barry.
Um garoto de programa e um vigarista
Perdidos na Noite conta uma história recorrente no imaginário americano: um rapaz saído do interior vem tentar a sorte na cidade grande e acaba triturado pela vida. O jovem em questão é o ingênuo texano Joe Buck (Jon Voight), que desembarca em Nova Iorque com o sonho de ganhar a vida como garoto de programa. Em vez do sucesso, conhece Enrico Rizzo (Dustin Hoffman), apelidado de Ratso, um ladrão vigarista em petição de miséria, que vive num prédio condenado e transita pela cidade a mancar feito um aleijado tuberculoso. O encontro resulta na soma de duas solidões, mas também no nascimento de uma amizade verdadeira e honesta.
Perdidos na Noite: Jon Voight é texano que chega para conquistas
Melodrama e festas lisérgicas
O relacionamento homoafetivo que os protagonistas estabelecem não é caracterizado para além do permitido naqueles longínquos anos 1960. O que vemos, portanto, é uma sucessão de cenas melodramáticas, que envolvem outros tantos personagens peculiares. O ponto culminante se dá em uma festa lisérgica, bem ao estilo daquelas oferecidas por celebridades como Andy Warhol.Retrato da desesperança
O filme é uma adaptação do livro Midnight Cowboy, escrito em 1965 pelo americano James Leo Herlihy. O roteiro é de autoria de Waldo Salt, um experiente roteirista de Hollywood, que foi incluído na lista negra do macarthismo. Trabalhou anos como um ghostwriter e, ao retomar a carreira, ganhou o Óscar de melhor roteiro adaptado – também escreveu Amargo Regresso e Sérpico. Salt se manteve fiel ao texto original, mas soube levar o relacionamento entre os dois personagens para o centro da sua narrativa; o resultado foi um retrato emocional genuíno de como dois homens sem esperanças tentam sobreviver à margem da sociedade.
Perdidos na Noite: Dustin Hoffman é um vigarista que nunca conquistou nada
Pontos para o título em português
A direção de John Schlesinger mostra-se vital na construção do filme. Quando não está concentrado em enquadrar os personagens, o diretor volta suas lentes para uma Nova Iorque suja e miserável. Alcançou realismo. A cidade imensa e apinhada de gente solitária, palco de frustrações e desventuras, vira personagem marcante nessa história; serve de pano de fundo para aqueles que estão... perdidos na noite. Neste ponto é preciso reconhecer que o título em português ressaltou uma camada importante do filme e destacou o caráter universal da história.
Ancorado em grandes interpretações
Muitos críticos reclamam da abordagem psicológica rasa e do oportunismo em misturar trilha sonora e fotografia desleixada, numa linguagem de videoclipe com forte apelo comercial. Bobagem! O cinema sempre usou tais truques – e continua usando – para hipnotizar espectadores. Mas é inegável que Perdidos na Noite ganhou força quando registrou as atuações espetaculares de Jon Voight e Dustin Hoffman. Para muitos cinéfilos, o filme tem lugar garantido entre as obras-primas.

Perdidos na Noite: mais do que pano de fundo, Nova Iorque vira personagem
Um filme para revisitar com certa frequência
Na cerimônia do Óscar de 1970, o público se surpreendeu ao ver um filme com temática adulta – quase pornográfico para a época – conquistar as estatuetas de melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro adaptado. Uma conquista e tanto! Fez de Perdidos na Noite um filme que não pode ficar apenas na prateleira dos colecionadores, ou ocupar um verbete na enciclopédia dos melhores do cinema; é uma obra para ser vista e revista de tempos em tempos. E por que não agora?
Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura e criativa de John Schlesinger, o roteiro conciso de Waldo Salt, as atuações de Dustin Hoffman e Jon Voight e a atmosfera de transgressão.
O que surpreende: a força dramática da sua história, da maneira como foi contada, não perdeu o sentido de contemporaneidade. Continua pertinente e relevante.
Imperdível. Cinema para colecionar e revisitar periodicamente.
Ficha técnica do filme Perdidos na Noite
Título original: Midnight CowboyAno de produção: 1969
Direção: John Schlesinger
Roteiro: Waldo Salt
Direção: John Schlesinger
Roteiro: Waldo Salt
Elenco:
- Dustin Hoffman
- Jon Voight
- Sylvia Miles
- John McGiver
- Brenda Vaccaro
- Barnard Hughes
- Ruth White
- Jennifer Salt
- Gilman Rankin
- Georgann Johnson
- Anthony Holland
- Bob Balaban
- Paul Rossilli
- Craig Carrington

Belíssima história sobre companheirismo embalada pela música maravilhosa de John Barry. Show de atuações de Hoffman e Voight. Não tinha como dar errado.
ResponderExcluirSim, Thomaz, o filme é um divisor de águas no cinema americano. Não só no tema, mas também na estética.
ResponderExcluirAdorei o texto, aliás sua opinião é indispensável pra mim
ResponderExcluirMuito obrigado! Estou sempre aberto para trocar boas ideias!!!!!!
ExcluirBela crítica! Coloca a importância dessa obra prima em seu devido patamar.
ResponderExcluirMuito obrigado, Armando. Tentei ser reverente a um filme inspirador.
ExcluirClássico filme,na minha infância passava corujão,que saudade do tema e autores novos.
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