Crítica | Estrada Para Perdição: Sam Mendes deixou sua marca no universo dos gângsteres num filme estrelado por Tom Hanks

Cena do filme Estrada Para Perdição
Estrada Para Perdição: filme dirigido por Sam Mendes

DRAMA SOBRE O RELACIONAMENTO ENTRE PAI E FILHO 

Estrada Para Perdição, filme dirigido em 2002 por Sam Mendes e estrelado por Tom Hanks, nasceu antes como uma história em quadrinhos, criada em 1998 por Max Allan Collins e ilustrada por Richard Piers Rayner. Há poucas décadas, os quadrinhos eram habitat apenas para super-heróis e vilões com capas esvoaçantes; o grande público os associava às amenidades do universo infantil da Disney. Mas de repente passaram ser chamados de graphic novels. Ganharam visibilidade e o status de arte adulta; conquistaram respeito por suas qualidades narrativas e como nascedouro de histórias que nada ficam a dever às que conhecemos por meio dos romances e filmes.

Vamos direto à sinopse

        Estrada Para Perdição é um filme de gângsteres, desses com muita luta, tiroteios e perseguições. Tem uma densidade dramática notável e nos conta a história de Michael Sullivan Jr. (Tyler Hoechlin), um garoto de doze anos que vive sua infância na década de 1930. Ele desconhece as atividades criminosas do pai, Michael Sullivan (Tom Hanks), um matador à serviço de John Rooney (Paul Newman), chefão da máfia irlandesa. O mafioso fez de Michael Sullivan seu braço direito e o considera um filho adotivo, em pé de igualdade com Connor (Daniel Craig), seu filho legítimo.

Cena do filme Estrada Para Perdição
Estrada Para Perdição: Tom Hanks em uma de suas melhores atuações

        O mafioso também trata o pequeno Michael como se fosse seu neto, até o momento em que o garoto testemunha um assassinato cometido por Connor. O pobre garoto, além de descobrir que faz parte de uma família de gângsteres, vê seu mundo familiar desabar em tragédia; agora a máfia precisa eliminá-lo a qualquer custo e só lhe resta a fuga. Para salvar o filho, Michael Sullivam se torna um proscrito e fará de tudo para protegê-lo, num jogo de vinganças e perseguições marcado pela violência.

A mesma atmosfera intimista dos quadrinhos

        Mais do que um filme sobre a máfia, Estrada Para Perdição é um drama sobre o relacionamento entre pai e filho. De um lado, Michael Sullivan fortalece seus laços com o garoto cuja sobrevivência se tornou seu único propósito de vida; de outro, irrompe em decepção e fúria contra o homem que via como modelo. No cinema, essa história é contada por Sam Mendes com grande habilidade, numa linguagem fluente e ágil, que mantem a atmosfera intimista, concebida originalmente na história em quadrinhos. A adaptação, feita pelo roteirista David Self, resultou em algumas diferenças em relação ao material original.

Cena do filme Estrada Para Perdição
Estrada Para Perdição: laços fortalecidos entre pai e filho

No cinema, a história foi condensada

        Nos quadrinhos, a história é narrada por Michael Sullivan Jr, um adulto que se tornou padre e revive na memória os acontecimentos trágicos de sua infância; no cinema, quem narra é o pequeno Michael, enquanto vive o calor das suas desventuras e ainda tem seu futuro como incerto. Além disso, como a saga dos quadrinhos não pôde ser reproduzida no tempo de duração de um filme, a história precisou ser condensada. A principal mudança, porém, está na natureza interpretativa da versão cinematográfica; enquanto nos quadrinhos esse aspecto recai inteiramente sobre o traço expressivo do ilustrador Richard Piers Rayner, aqui temos a forte presença de Tom Hanks e seu carisma, além das atuações competentes de Paul Newman, Jude Law, Daniel Craig, Stanley Tucci e muitos outros.

Homenagem a um mangá japonês

        O escritor Max Allan Collins é um autor profícuo, com vários romances publicados e muita experiência em todos os formatos literários. Estrada Para Perdição é sua obra mais conhecida. Ela foi concebida como uma homenagem a um mangá dos anos 1970, intitulado Lobo Solitário, obra clássica do gênero, criada por Kazuo Koike e Goseki Kojima; narra a sangrenta trajetória de Itto Ogami e seu filho Daigoro, em busca de vingança contra uma poderosa família que destruiu seu clã.

Cena do filme Estrada Para Perdição
Estrada Para Perdição: concepção visual impecável

Um diretor que fez a diferença

        Mais lembrado por filmes como Beleza Americana, 007 – Operação Skyfall e 1917, com Estrada Para Perdição o diretor Sam Mendes imprimiu sua marca no universo dos gângsteres. Ele impôs uma abordagem minimalista e visualmente poética, tirando o máximo proveito da fotografia em alto contraste, assinada por Conrad Hall. Com planos abertos e estáticos, Mendes joga seus personagens num limbo de sombras e chuva, para reforçar toda a solidão, a melancolia e o pesado fardo que carregam. Sua trilha sonora não é para conduzir as emoções do espectador, mas para expressar as camadas psicológicas dos personagens – um recurso narrativo que falta às graphic novels. E para completar, arranca atuações viscerais de um elenco bastante afinado. Fez cinema de maduro e compenetrado.

Veredito da crônica de cinema

★★★★★(5 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Sam Mendes, o roteiro de David Self, a fotografia impecável, a trilha sonora envolvente, a concepção visual bem elaborada e as atuações espetaculares de um elenco afiado.

O que surpreende: Sam Mendes crava as lentes nos personagens e consegue expressar seus personagens para além que qualquer estereótipo.

Imperdível. É cinema de qualidade.

Resenha crítica do filme Estrada Para Perdição

Título original: Road to Perdition
Título em Portugal: Caminho para Perdição
Ano de produção: 2002
Direção: Sam Mendes
Roteiro: David Self

  • Elenco:
  • Tom Hanks
  • Tyler Hoechlin
  • Paul Newman
  • Jude Law
  • Daniel Craig
  • Stanley Tucci
  • Jennifer Jason Leigh
  • Liam Aiken
  • Dylan Baker
  • Ciarán Hinds
  • Anthony LaPaglia

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Comentários

  1. Cinema pelo cinema
    Puro diversionismo, mas com estética primorosa, mesmo com o exagerado protagonismo.

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    1. Ah, Alexander, de fato a história fugiu um pouco daquela estética consagrada nos filmes de gangsters, mas não foi por diversionismo. É que o tema do relacionamento entre pai e filho acabou se impondo.

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  2. Cinema pelo cinema
    Puro diversionismo, mas com estética primorosa, mesmo com o exagerado protagonismo.

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  3. Ação e drama em uma atmosfera sombria. Belo filme.

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  4. Um dos melhores que já vi, do gênero gangsters.

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