Crítica | 1917: ao invés de dramatizar, Sam Mendes preferiu realizar uma façanha técnica. Fez apenas mais um filme de guerra

Cena do filme 1917
1917: filme dirigido por Sam Mendes

O PRINCIPAL PERSONAGEM É A CÂMERA!

Há tempos li uma entrevista concedida por Stanley Kubrick, onde ele é questionado sobre o motivo pelo qual jamais filmou uma história de sua autoria. De fato, a filmografia do aclamado diretor é composta por obras de vários gêneros, mas todas escritas por terceiros. Kubrick alegou acreditar na beleza e no impacto de se ouvir uma história pela primeira vez.
        Em sua reposta, mostrou que eram justamente esses dois valores, beleza e impacto, que tentava passar aos espectadores. Para tanto, precisava, ele mesmo, vivenciá-los antes de assumir seu papel de contador de histórias. Segundo o diretor, durante o processo de construir uma história partindo do zero, tendo que aparar arestas e solucionar a trama, o encanto inicial acaba se quebrando; por isso preferia filmar histórias cuja magia da primeira leitura ainda carregasse viva na memória.
        Talvez essa tenha sido apenas uma desculpa – ou um punhado de palavras de efeito – usada pelo diretor para satisfazer o assédio da mídia. O que não se pode negar, todavia, é que há muita beleza e impacto na primeira vez em que assistimos a um filme de Stanley Kubrick. Não sei se o diretor Sam Mendes conhece tal entrevista, nem se acredita na lógica defendida pelo mestre, mas imagino o brilho nos seus olhos enquanto, ainda garoto, ouvia da boca do seu avô a narrativa que, mais tarde, daria origem a 1917 – seu filme realizado em 2019, que explodiu em sucesso.

Realizado como um espetáculo de ópera

        Talvez, como nós, Sam Mendes tenha prendido a respiração em vários momentos, enquanto acompanhava o drama dos dois mensageiros que atravessaram a terra de ninguém – o espaço morto entre as trincheiras cavadas pelos franceses e alemães na frente de batalha – com a missão de entregar a ordem de cancelamento de um ataque e assim salvar a vida de 1.600 soldados. Pronto! Aí foi, em poucas palavras, a sinopse do filme. Acrescentaria apenas que os dois jovens eram os cabos Willian e Thomas, interpretados por George MacKay e Dean-Charles Chapman.


1917: Sam Mendes realizou seu filme sem cortes

        O diretor desenvolveu essa história e a transformou num bom filme. Porém, é preciso que se diga: 1917 é apenas mais um filme de guerra. Mostra o horror e o nonsense que engoliu milhões de garotos assustados durante a Primeira Guerra Mundial e enquadra o drama pessoal de dois deles. Prende a atenção, rouba o fôlego e nos entristece. O que o destaca de outros filmes do gênero é a brilhante ideia de Sam Mendes de realizá-lo como se tudo transcorresse em tempo real, filmado de uma única vez – com o mesmo rigor técnico que se vê nos gigantescos espetáculos de ópera, com centenas de figurantes e músicos, revezando-se em cenários megalômanos.

Filmado em apenas dois planos-sequência

        Sam Mendes disse em entrevista que sabia, desde o início, que a história só funcionaria se o espectador pudesse acompanhar os personagens ao longo de toda a ação, sentindo-se presente no campo de batalha. Planejou seu filme nos mínimos detalhes e consumiu cem milhões de dólares para reunir centenas de figurantes, cavar longas trincheiras e erguer cenários variados, ocupando numa vasta área no interior na Inglaterra. As proezas técnicas garantiram um realismo que impressionante; as encenações foram exaustivamente coreografadas e as filmagens executadas para dar a impressão de que o filme é composto por apenas dois planos-sequência. Há cortes invisíveis aqui e ali, habilmente disfarçados pela fumaça, pela mudança de iluminação ou passagem de câmera entre cenários; o sentido de continuidade, no final das contas, é assombroso.

Não conseguimos ignorar a presença da câmera

        É curioso o efeito causado por esses dois planos-sequência. Ao mesmo tempo em que seguimos na ação, lado a lado com os personagens, não conseguimos ignorar a presença da câmera. A todo instante somos lembrados de que estamos assistindo a um filme, de que estamos vivendo uma experiência cinematográfica. As carcaças e os cadáveres espalhados ao longo do caminho são tão reais que parecem... cenográficos; os figurantes em nosso campo de visão agem com tanta naturalidade que parecem... ensaiados. Não! Mais do que a um filme, o diretor Sam Mendes está nos convidando para assistir a uma verdadeira façanha. São as proezas técnicas que deseja destacar. Os personagens, ele deixou em segundo plano. Infelizmente, o brilho nos olhos, que cintilou quando ouviu a história da boca do seu avô, ele deixou que se apagasse.

No Óscar, mereceu apenas estatuetas técnicas

        O roteiro assinado por Krysty Wilson-Cairns e pelo próprio Sam Mendes é eficiente em manipular o tempo narrativo, para nos dar a noção de continuidade em tempo real. As ótimas atuações de George MacKay e Dean-Charles Chapman são decisivas para gerar empatia com os personagens. A fotografia de Roger Deakins – premiado com o Oscar em 2019 por Blade Runner 2049 – cria uma experiência realista, que nos convida a mergulhar na história.


1917: Sam Mendes perseguiu o realismo apenas no visual

        Toda a façanha técnica cobrou de 1917 um alto preço: fez dele um filme trancafiado no próprio gênero; é apenas mais um filme de guerra, limitado a retratar os acontecimentos externos que afetam as decisões dos personagens. Há poucos vislumbres sobre seus mundos internos. Com a chegada dos créditos finais, vem também a compreensão do porquê o filme ter recebido apenas estatuetas técnicas na festa do Óscar. Foi muito bem realizado, é verdade ;porém, Sam Mendes ficou longe de conseguir a mesma proeza de O Resgate do Soldado Ryan – lá Spielberg dispendeu tempo, entre uma cena de ação e outra, para descrever melhor seus personagens.

Veredito da crônica de cinema

★★★☆☆(3 / 5 estrelas)

O que brilha: a fotografia de Roger Deakins, o domínio do diretor Sam Mendes sobre os imperativos técnicos do cinema e o capricho na produção.

O que decepciona: a falta de profundidade dos personagens e as imagens de guerra similares às que já vimos em outros filmes.

Vale a pena. Pelo apuro técnico e pela grandiosidade da produção.

Ficha técnica do filme 1917

Ano de produção: 2019
Direção: Sam Mendes
Roteiro: Sam Mendes

  • Elenco:
  • George MacKay
  • Dean-Charles Chapman
  • Mark Strong
  • Andrew Scott
  • Richard Madden
  • Claire Duburcq
  • Colin Firth
  • Benedict Cumberbatch
  • Daniel Mays
  • Adrian Scarborough
  • Jamie Parker
  • Michael Jibson
  • Richard McCabe
  • Chris Walley
  • Nabhaan Rizwan
  • Michael Cornelius
  • Daniel McMillon

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