1917: atravessando a Terra de Ninguém durante a Primeira Guerra Mudial

Cena do filme 1917
1917: filme dirigido por Sam Mendes

O PRINCIPAL PERSONAGEM É A CÂMERA!

Há tempos li uma entrevista concedida por Stanley Kubrick, onde ele é questionado sobre o motivo pelo qual jamais filmou uma história de sua autoria. De fato, a filmografia do aclamado diretor é composta por obras de vários gêneros, mas todas escritas por terceiros. Kubrick alegou acreditar na beleza e no impacto de se ouvir uma história pela primeira vez.
        Em sua reposta mostrou que eram justamente esses dois valores, beleza e impacto, que tentava passar aos espectadores. Para tanto, precisava, ele mesmo, vivenciá-los antes de assumir seu papel de contador de histórias. Segundo o diretor, durante o processo de construir uma história partindo do zero, tendo que aparar arestas e solucionar a trama, o encanto inicial acaba se quebrando. Por isso preferia filmar histórias cuja magia da primeira leitura ainda carregasse viva na memória.
        Talvez essa tenha sido apenas uma desculpa – ou palavras de efeito para, na época, satisfazer o assédio da mídia. O que não se pode negar é que há muita beleza e impacto na primeira vez em que assistimos a um filme de Stankey Kubrick. Não sei se o diretor Sam Mendes conhece tal entrevista, nem se acredita na lógica defendida pelo mestre, mas imagino o brilho nos seus olhos enquanto, ainda garoto, ouvia da boca do avô a narrativa que mais tarde daria origem ao filme 1917. Talvez tenha, como nós, prendido a respiração em vários momentos, enquanto acompanhava o drama dos dois mensageiros que atravessaram a terra de ninguém 
 o espaço morto entre as trincheiras cavadas pelos franceses e alemães na frente de batalha – com a missão de entregar a ordem de cancelamento de um ataque e assim salvar a vida de 1.600 soldados.
        Sam Mendes desenvolveu essa história e a transformou num excelente filme. Porém, é preciso que se diga: 1917 é mais um filme de guerra. Mostra o horror e o nonsense que engoliu milhões de garotos assustados durante a Primeira Guerra Mundial e enquadra o drama pessoal de dois deles. Prende a atenção, rouba o fôlego e nos entristece. O que o torna diferente de outros filmes do gênero é a brilhante ideia de Sam Mendes de realizá-lo como se tudo transcorresse em tempo real, filmado de uma única vez – com o mesmo rigor técnico que se vê nos gigantescos espetáculos de ópera, com centenas de figurantes e músicos, revezando-se em cenários megalômanos.
        Sam Mendes disse em entrevista que sabia, desde o início, que a história só funcionaria se o espectador pudesse acompanhar os personagens ao longo de toda a ação, sentindo-se presente no campo de batalha. Planejou seu filme nos mínimos detalhes e consumiu cem milhões de dólares para reunir centenas de figurantes, cavar longas trincheiras e erguer cenários variados, ocupando numa vasta área no interior na Inglaterra. As proezas técnicas garantiram um realismo que impressionante. As encenações foram exaustivamente coreografadas e as filmagens executadas para dar a impressão de que o filme é composto por apenas dois planos-sequência. Há cortes invisíveis aqui e ali, habilmente disfarçados pela fumaça, pela mudança de iluminação ou passagem de câmera entre cenários. Mas o sentido de continuidade, no final das contas, é assombroso.
        É curioso o efeito causado por esses dois planos-sequência. Ao mesmo tempo em que seguimos na ação, lado a lado com os personagens, não conseguimos ignorar a presença da câmera. A todo instante somos lembrados de que estamos assistindo a um filme, de que estamos vivendo uma experiência cinematográfica. As carcaças e os cadáveres espalhados ao longo do caminho são tão reais que parecem... cenográficos! Os figurantes em nosso campo de visão agem com tanta naturalidade que parecem... ensaiados! Não! Mais do que a um filme, o diretor Sam Mendes está nos convidando para assistir a uma verdadeira façanha. São as proezas técnicas que deseja destacar. Os personagens, ele deixou em segundo plano. O brilho nos olhos, que cintilou quando ouviu a história da boca do seu avô, ele deixou que se apagasse.
        O roteiro assinado por Krysty Wilson-Cairns e pelo próprio Sam Mendes é eficiente em manipular o tempo narrativo, para nos dar a noção de continuidade em tempo real. As ótimas atuações de George MacKay e Dean-Charles Chapman são decisivas para gerar empatia com os personagens. A fotografia de Roger Deakins – premiado com o Oscar em 2019 por Blade Runner 2049 – cria uma experiência realista, que nos convida a mergulhar na história.
        Tanta façanha cobrou de 1917 um alto preço: fez dele um filme trancafiado no gênero, limitado a retratar os acontecimentos externos que afetam as decisões dos personagens. Há poucos vislumbres sobre seus mundos internos. Com a chegada dos créditos finais, vem também a conclusão de que acompanhamos apenas mais um filme de guerra – que recebeu apenas estatuetas técnicas no Oscar 2020. Foi muito bem realizado, é verdade. Porém, Sam Mendes ficou longe de conseguir a mesma proeza de O Resgate do Soldado Ryan – lá Spielberg arrumou tempo, entre uma cena de ação e outra, para descrever melhor seus personagens.

Resenha crítica do filme 1917

Ano de produção: 2019
Direção: Sam Mendes
Roteiro: Sam Mendes
Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Mark Strong, Andrew Scott, Richard Madden, Claire Duburcq, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, Daniel Mays, Adrian Scarborough, Jamie Parker, Michael Jibson, Richard McCabe, Chris Walley, Nabhaan Rizwan, Michael Cornelius e Daniel McMillon

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