Estrada Para Perdição: história em quadrinhos que virou filme

Cena do filme Estrada Para Perdição
Estrada Para Perdição: filme dirigido por Sam Mendes

UMA ADAPTAÇÃO ELEGANTE, QUE NÃO SE DETÉM NA NATUREZA GRÁFICA DA HQ

– História em quadrinhos? Faça-me o favor! Isso é coisa de criança! – exclamou Celso, sem papas na língua, enquanto examinava minha pilha de gibis. Não se interessou por nenhum deles. Tentei provar que ele estava errado, mostrando um exemplar do The Spirit, criação de Will Eisner, mas o truculento não deu ouvidos. Disse que tinha mais o que fazer e foi saindo apressado. Antes de pôr os pés na rua, reforçou o convite para a sua festa de despedida. Aos dezoito anos, estava de partida para Brasília. Fora destacado para servir na polícia do exército. Também pudera! Era um cara grande e forte, com 1,90 de altura e ainda em fase de crescimento. Já o tinha visto brigando no bairro e sabia que ele se daria muito bem na caserna. Era o sujeito mais bronco da rua e tinha essa aversão por livros e revistas, mas era muito gente boa! Sempre achei que o Celso poderia virar um ótimo personagem de história em quadrinhos, dessas com muita luta, tiroteios, perseguições...
        Para o grande público daquela época – calculo por volta de 1978 – história em quadrinhos era sinônimo de super-heróis e vilões com capas esvoaçantes, ou remetia às amenidades do universo infantil da Disney. Só mais tarde é que as graphic novels ganharam visibilidade e o status de arte adulta. Passaram a ser respeitadas por suas qualidades narrativas, como nascedouro de histórias que nada ficavam a dever às que conhecemos por meio dos romances e filmes. Estrada Para Perdição é uma delas. Criada em 1998 por Max Allan Collins e ilustrada por Richard Piers Rayner, ganhou as telas em 2002 sob direção de Sam Mendes e com a participação de um elenco estrelado, encabeçado por Tom Hanks.
        É um filme de gangsters, desses com muita luta, tiroteios e perseguições, mas tem uma densidade dramática notável. Nos conta a história de Michael Sullivan Jr. (Tyler Hoechlin), um garoto de doze anos que vive sua infância na década de 30. Ele desconhece as atividades criminosas do pai, Michael Sullivan (Tom Hanks), um matador à serviço de John Rooney (Paul Newman), chefão da máfia irlandesa. O mafioso fez de Michael Sullivan seu braço direito e o considera um filho adotivo, em pé de igualdade com Connor, seu filho legítimo (Daniel Craig). Também trata o pequeno Michael como se fosse seu neto, até o momento em que o garoto testemunha um assassinato cometido por Connor. O pobre garoto, além de descobrir que faz parte de uma família de gangster, vê seu mundo familiar desabar em tragédia! Agora a máfia precisa eliminá-lo a qualquer custo e só lhe resta a fuga. Para salvá-lo, Michael Sullivam se torna um proscrito e fará de tudo para protegê-lo, num jogo de vinganças e perseguições marcado pela violência.
        Mais do que um filme de gangsters, Estrada Para Perdição é um drama sobre o relacionamento entre pai e filho. De um lado, Michael Sullivan fortalece seus laços com o garoto cuja sobrevivência se tornou seu único propósito de vida. De outro, irrompe em decepção e fúria contra o homem que via como modelo. No cinema, essa história é contada por Sam Mendes com grande habilidade, numa linguagem fluente e ágil, que mantem a atmosfera intimista concebida originalmente na história em quadrinhos. Mas sua adaptação, feita pelo roteirista David Self resultou em algumas diferenças.
        Nos quadrinhos, a história é narrada por Michael Sullivan Jr, um adulto que se tornou padre e revive na memória os acontecimentos trágicos de sua infância. No cinema, quem narra é o pequeno Michael, enquanto vive o calor das suas desventuras e ainda tem seu futuro como incerto. Além disso, como a natureza episódica dos quadrinhos não pôde ser reproduzida no tempo de duração de um filme, a história precisou ser condensada. Mas a principal mudança está mesmo na natureza interpretativa da versão cinematográfica. Enquanto nos quadrinhos esse aspecto recai inteiramente sobre o traço expressivo do ilustrador Richard Piers Rayner, aqui temos a forte presença de Tom Hanks e seu carisma, além das atuações competentes de Paul Newman, Jude Law, Daniel Craig, Stanley Tucci e muitos outros.
        O escritor Max Allan Collins é um autor profícuo, com vários romances publicados e muita experiência em todos os formatos literários. Estrada Para Perdição criada para os quadrinhos, é sua obra mais conhecida. Ela foi concebida como uma homenagem ao mangá dos anos 1970 intitulado Lobo Solitário, obra clássica do gênero, criada por Kazuo Koike e Goseki Kojima. Narra a sangrenta trajetória de Itto Ogami e seu filho Daigoro, em busca de vingança contra uma poderosa família que destruiu seu clã.
        Os mangás japoneses eram pouco difundidos no Brasil dos anos 1970, mas lembro de ter alguns deles na minha coleção de gibis. Se o meu amigo Celso tivesse encontrado paciência para folheá-los, talvez mudasse de ideia quanto à infantilidade dos seus enredos. Talvez encontrasse a cura para sua aversão aos livros e revistas. Depois que ele foi para Brasília só fui revê-lo anos depois, numa única ocasião, quando nos cruzamos num ponto de ônibus. Ele estava de volta a Curitiba e agora trabalhava na polícia militar. Contou que era um agente de campo, trabalhando à paisana em operações contra o tráfico de drogas. Vivia infiltrado, tentando prender maconheiros! Como disse, o Celso poderia render um ótimo personagem de histórias em quadrinhos...

Resenha crítica do filme Estrada Para Perdição

Título original: Road to Perdition
Título em Portugal: Caminho para Perdição
Ano de produção: 2002
Direção: Sam Mendes
Roteiro: David Self
Elenco: Tom Hanks, Tyler Hoechlin, Paul Newman, Jude Law, Daniel Craig, Stanley Tucci, Jennifer Jason Leigh, Liam Aiken, Dylan Baker, Ciarán Hinds e Anthony LaPaglia

Leia também as crônicas sobre outros filmes dirigidos por Sam Mendes:

Comentários

  1. Cinema pelo cinema
    Puro diversionismo, mas com estética primorosa, mesmo com o exagerado protagonismo.

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    Respostas
    1. Ah, Alexander, de fato a história fugiu um pouco daquela estética consagrada nos filmes de gangsters, mas não foi por diversionismo. É que o tema do relacionamento entre pai e filho acabou se impondo.

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  2. Cinema pelo cinema
    Puro diversionismo, mas com estética primorosa, mesmo com o exagerado protagonismo.

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  3. Ação e drama em uma atmosfera sombria. Belo filme.

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